Escrito por em 6 dez 2017 nas áreas Crítica, Lateral, Ópera, São Paulo

Encenação bem resolvida salva obra fraca de Offenbach.

 

La Belle Hélène (A Bela Helena), opereta em três atos de Jacques Offenbach sobre libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy (a mesma dupla que escreveu para Bizet o libreto de Carmen), está em cartaz no Theatro São Pedro, em São Paulo, até esta quinta-feira, 7 de dezembro.

Despretensiosa, a obra narra, de forma pra lá de burlesca, os acontecimentos anteriores à Guerra de Troia, e a trama se encerra com o rapto de Helena por Páris (escrevo os nomes dos personagens segundo a forma aportuguesada utilizada no programa de sala), exatamente o episódio que desemboca no conflito. Talvez seu aspecto mais relevante seja apresentar uma mulher (a protagonista) à frente do seu tempo, que não resiste muito a realizar seus desejos. A música de Offenbach, por sua vez, é bastante rasa: um divertimento que passa a léguas de distância de sua obra mais célebre (Os Contos de Hoffmann).

Até pelo exposto no parágrafo anterior, ao se levar La Belle Hélène ao palco, prender a atenção do público do começo ao fim não é tarefa das mais fáceis. Nesse sentido, acerta o diretor Caetano Vilela ao apostar no escracho como o centro de sua concepção. Apoiado no cenário simples e correto de Duda Arruk e nos figurinos um tanto estilizados de Fause Haten, o encenador obtém um ótimo resultado cênico dos jovens artistas que tem à sua disposição, especialmente a partir do segundo ato.

O escracho fica ainda mais evidente no ato derradeiro, quando Vilela inclui em sua encenação elementos da cultura pop (especialmente movimentos coreográficos do hit Gangnam Style, do rapper sul-coreano Psy). O próprio Páris, ao surgir disfarçado para no final para raptar Helena, é caracterizado de forma a lembrar o referido rapper. A coreografia de Luis Arrieta e a iluminação do próprio diretor complementam bem a encenação.

Característica das operetas, a presença de texto falado entre as passagens musicais pode ajudar a afrouxar a ação quando em excesso. Este é o caso deste Offenbach, mas, aqui, uma vez mais acertou a direção do espetáculo ao optar por apresentar os diálogos em português (tradução de Irineu Franco Perpetuo), adaptando-os a um coloquialismo que dialoga com o tom de escracho do espetáculo – procedimento que fica bastante evidente nas falas de Agamemnon.

Pouco exigida, a Orquestra do Theatro São Pedro esteve bem, sob a regência de Cláudio Cruz, na récita de estreia, em 29 de novembro. Já o coro arregimentado para a ocasião oscilou bastante, com as vozes femininas mais consistentes que as masculinas.

Dentre os solistas, não identifiquei vozes ruins, o que já é um bom começo, mesmo que algumas ainda necessitem de grande desenvolvimento. Sem pesar a mão, portanto, Vinicius Costa (Filocomo, parte falada) esteve bem, enquanto Wilken Silveira (Aquiles), Eduardo Javier Gutiérrez (Menelau) e Miguel Nador (Agamemnon) necessitam de um consistente trabalho de aprimoramento vocal. Daniel Soufer e Lucas Nogueira (Ajax I e II), Raquel Paulin (Báquide), Luísa Aguilar (Partenis), Fernanda Nagashima (Leena) e Nathália Serrano (Orestes) exibiram vozes que podem, talvez, crescer bastante no futuro.

Os três solistas principais destacaram-se bem. Rodrigo Kenji mostrou desenvoltura, bonito timbre e bons agudos como Páris, enquanto Gabriela Bueno foi uma Helena de voz segura, bastante afinada e de bonito fraseado. Registre-se que a artista precisa atentar para a qualidade de sua projeção, que na acústica amigável do Theatro São Pedro funcionou bem, mas deixou a impressão de que poderia sem menos satisfatória em um teatro de grande porte. A performance mais consistente da noite foi a do baixo Anderson Barbosa, que interpretou o oráculo Calcas com excelente projeção e um belíssimo timbre – predicados que eu já havia notado em Belém, quando o ouvi como o Comendador em Don Giovanni.

O Theatro São Pedro espera agora a conclusão de um processo de chamamento público que definirá a Organização Social que irá administrá-lo a partir de 2018. Escolhida a instituição gestora, será necessário, em primeiríssimo lugar, definir quem será o diretor artístico da casa pelos próximos anos. Esse passo é essencial, até para que não se repita na Barra Funda o que estamos vendo no momento ali pelas bandas do Anhangabaú: o Theatro Municipal de São Paulo se encontra totalmente acéfalo sob o ponto de vista artístico, e quem anda dando as cartas por lá parece não fazer ideia de como administrar um teatro de ópera.

 

Foto: Heloísa Bortz

 

Faça seu comentário