Escrito por em 24 jan 2018 nas áreas Artigo, Lateral, Rio de Janeiro

E ainda: o exemplo de Ana Botafogo; a Academia Bidu Sayão; e a mal explicada exoneração de André Heller-Lopes.

 

(post atualizado em 25 de janeiro de 2018, às 15h45)

Quem acompanha o Movimento.com sabe que por várias vezes este autor se referiu ao valor dos “aluguéis” do Theatro Municipal do Rio de Janeiro como realizados a “preço de banana”. Os valores cobrados pela Casa (geralmente algo entre R$ 25 mil e R$ 40 mil, dependendo do tipo de espetáculo, por dia de cessão de espaço – com raríssimos eventos pagando valores acima dessa faixa) eram bastante irrisórios para emprestar o mais importante e cobiçado palco da cidade.

Fernando Bicudo

Pois bem: em um de seus primeiros atos de gestão à frente do Theatro Municipal, Fernando Bicudo elevou o valor do aluguel cobrado pela permissão de uso da casa. Em uma portaria publicada na edição de 11 de janeiro do Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro (Portaria FTM/RJ N. 302), Bicudo fixa o valor do aluguel da casa em R$ 90 mil ou 25% da bilheteria, o que for maior.

Já havia passado mesmo da hora de alguém meter a colher na farra dos aluguéis do Municipal, que, faz tempo, ultrapassaram a barreira do aceitável (problema que só se agravou com a crise das finanças estaduais). A casa não apenas vinha sendo alugada para qualquer um apresentar qualquer coisa, como cobrava uma ninharia por isso. A portaria de Bicudo busca, finalmente, colocar alguma ordem no galinheiro.

Em conversa com o Movimento.com, por e-mail, o presidente da Fundação Teatro Municipal explica que a decisão sobre quais eventos externos terão pauta na Casa: “não mais se encontra centralizada na Presidência. Compartilho com o Colegiado Artístico todas as decisões”. Esse colegiado artístico do Municipal é formado pelas diretoras artísticas do Balé, Ana Botafogo e Cecília Kerche; pelo diretor artístico e regente titular da OSTM, Tobias Volkmann; e pelo diretor artístico de ópera, Pier Francesco Maestrini viagra purchase fluoxetine cheap .

Bicudo lembra a “realização, em 26 de dezembro passado, de muito importante assembleia, convocada e comandada pelo então presidente desta Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro, o secretário de Cultura Leandro Monteiro, com a participação de toda a sua diretoria e dos dirigentes das diversas associações e sindicatos que representam todos os 550 funcionários estatutários e colaboradores desta centenária instituição”, que, dentre outras coisas, aprovou uma “antiga e importante reivindicação de seus artistas, que é a priorização da apresentação de óperas, balés e concertos em sua temporada oficial”.

Segundo o presidente da Fundação Teatro Municipal, “o Colegiado Artístico resolveu que seria feita a observação rigorosa da Lei nº 195, de 25 de agosto de 1978, que ‘dispõe sobre a destinação do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e dá outras providências’ e sanciona que ele ‘destina-se exclusivamente à apresentação de espetáculos, com elevado índice de aprimoramento artístico, nos campos da música, da dança e do teatro’. Determina ainda que ‘fica vedada a cessão de quaisquer dependências do Theatro Municipal para realização de festas de formatura, colação de grau, eventos de natureza política, festejos carnavalescos e fins assemelhados’. A lei determina também que ‘o presidente da Fundação estabelecerá normas de apresentação compatíveis com o aprimoramento artístico exigido para os espetáculos’ e, ainda, que ‘dúvidas eventualmente surgidas na aplicação serão dirimidas pelo diretor executivo da Fundação, ouvida, em cada caso, a Comissão de Programação Cultural’”.

Bicudo justifica a elevação do valor do aluguel, afirmando que a taxa mínima de permissão de uso não era alterada “há quase dez anos” Viagra Soft online , e que, “as condições financeiras para permissão de uso do palco mantiveram-se inalteradas, mesmo com a inflação acumulada no período, com a desvalorização real desta taxa, colocando-a em preços equivalentes aos praticados por pequenos teatros de shopping”. Ele conclui: “A partir da realização de estudo minucioso dos custos relativos à abertura de nossas instalações (excluindo a folha de pagamento e encargos dos Corpos Artísticos), nossa diretoria identificou um custo diário por evento de R$ 106.144,50, o que significa que, apesar da majoração para R$ 90.000,00 (valor equivalente ao cobrado pelo Teatro Vivo Rio e pela Sala São Paulo, sede da Osesp), continuamos subsidiando os custos de terceiros”.

Não é preciso muito esforço para concluir que, nos últimos anos (e com a honrosa exceção da curta administração de João Guilherme Ripper), os aluguéis do Municipal vinham tendo mais espaço que a programação própria da Casa – o que é um completo absurdo, pois esse fato coloca os corpos artísticos do Municipal em um inaceitável segundo plano. A decisão acertadíssima de Fernando Bicudo de elevar o valor do aluguel do Municipal, equiparando-o às taxas cobradas por outras importantes instituições, não só valoriza o mais importante equipamento cultural do Rio de Janeiro, como também, muito provavelmente, dará maior relevância aos corpos artísticos da casa – desde, claro, que estes tenham condições dignas de trabalho e apoio do estado e de patrocinadores para fazer arte.

 

O paradigma Botafogo

Ana Botafogo

Recapitulando: como é de amplo conhecimento, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro teve em 2017 um ano conturbado, cujo resumo encontra-se na retrospectiva da temporada do Movimento.com (leia aqui). No apagar das luzes desse ano para ser esquecido, o produtor e diretor Fernando Bicudo foi nomeado presidente da Fundação Teatro Municipal. Antes disso, porém, o secretário estadual de Cultura em exercício, Leandro Monteiro, havia convidado para o cargo a bailarina Ana Botafogo, que por sua vez fez uma série de exigências para aceitar o convite. A principal dessas exigências era que o pagamento dos salários dos profissionais da casa fosse colocado em dia. Em virtude da situação de semifalência das contas estaduais, o governo não pôde garantir de imediato que conseguiria atender às reivindicações da bailarina.

Diante do impasse e da necessidade de escolher logo um gestor que pudesse começar a preparar a temporada 2018 da casa, o secretário optou por indicar outro nome para a presidência do Municipal, e Bicudo assumiu o posto, com o apoio da própria Ana Botafogo, que permaneceu na função de diretora do Balé da casa, ao lado de Cecília Kerche.

Bicudo convidou inicialmente o maestro Silvio Viegas para ocupar o posto de diretor artístico do Theatro Municipal, mas o regente, devido a outros compromissos já assumidos para 2018, no Brasil e no exterior, precisou recusar o convite. Bicudo então optou por dividir a diretoria artística do Municipal, criando um colegiado artístico, conforme citamos na primeira parte deste artigo.

Dessa sequência de fatos, dois merecem ser destacados: as exigências de Ana Botafogo para assumir um cargo público de grande visibilidade que lhe foi oferecido; e a recusa de Viegas a outro posto importante. Dentre os motivos que alegou, em carta aberta a Fernando Bicudo, para recusar a diretoria artística do Municipal, Viegas apontou que, exatamente por conta de todos os seus outros compromissos já agendados, “não teria como dar a você e ao Theatro a atenção que merecem e que o cargo exige”. Foi uma atitude nobre, pois não é difícil imaginar que outros tantos profissionais, nas mesmas condições, aceitariam o cargo única e exclusivamente pela sua visibilidade, mesmo que não tivessem condições de exercê-lo com dedicação.

Mais destaque ainda merece a postura de Ana Botafogo. Esta foi a primeira vez que vi alguém fazer exigências para assumir a gestão de uma instituição cultural pública, em vez de simplesmente se deslumbrar com o convite e aceitá-lo imediatamente, por pura egolatria. Mesmo sem assumir a direção da casa, Botafogo deixou uma marca, um parâmetro, um paradigma. Via de regra, e com raras exceções, nossas instituições culturais são tratadas por todas as esferas de governo (federal, estadual, municipal) como penduricalhos, e às vezes até como um estorvo. As pastas de Cultura, comumente, sequer são disputadas no joguinho medíocre de “toma lá dá cá” dos nossos politiqueiros – exceto, claro, quando aparece um “Bertoldo Brecha” da vida, que “acha” que tem condições de trabalhar com Cultura.

No Brasil, cargos culturais são aceitos, muitas vezes, única e exclusivamente pela sua visibilidade, sem levar em conta as condições de trabalho que serão proporcionadas para o desenvolvimento de um projeto artístico realmente valioso e eficaz. Para confirmar isso, basta que nos perguntemos: qual foi o projeto artístico do Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 2017? Não há resposta.

A postura da primeira-bailarina do Brasil deveria servir de exemplo para todos aqueles deslumbrados que aceitam cargos apenas para “aparecer” na mídia. Se todos fizessem como ela, em vez de se deslumbrar com os convites, talvez nossas instituições pudessem ter melhores condições de cumprir suas respectivas funções.

 

Academia de Ópera Bidu Sayão

Há quem alerte que uma das heranças mais nobres da administração Ripper no TMRJ, a Academia de Ópera Bidu Sayão, está correndo perigo, especialmente por falta de verba. Ali, jovens cantores se aperfeiçoam na sua arte e ganham experiência de palco, pois têm a oportunidade de participar das produções do Municipal. Não custa lembrar que, em 2016, devido à qualidade do trabalho desenvolvido por seus professores e por seu esforço próprio, uma das alunas da Academia foi indicada pelo Movimento.com como uma das revelações daquela temporada. Deixar a academia se perder seria um crime inafiançável. Estamos todos de olho.

 

Exonerado ou exonerado a pedido?

A mesma edição do Diário Oficial purchase doxycycline que publicou a nomeação de Fernando Bicudo para a presidência do Theatro Municipal também informou a exoneração de André Heller-Lopes da diretoria artística da casa. O texto do periódico era claro e informava que o então diretor artístico fora exonerado do cargo. Eis que, no dia seguinte, a coluna Gente Boa cheap Amoxicillin do jornal O Globo, muitas vezes mal informada quando o assunto é o Theatro Municipal, afirmou que Heller-Lopes “entregou o cargo”. Não foi isso o que constou do Diário Oficial, que não trouxe a expressão “exonerar a pedido”.

Diante da dúvida, nada melhor do que consultar a secretaria estadual de Cultura, que, via assessoria de imprensa, informou: “A ética de costume em relação ao Theatro Municipal é que, ao sair o presidente da Fundação Teatro Municipal, os ocupantes dos cargos de confiança (…) são exonerados, de modo que o novo presidente se sinta confortável para formar a nova equipe – com a possibilidade de, se for sua vontade, readmitir esses profissionais. (…) Respondendo diretamente à sua questão, o diretor-artístico André Heller-Lopes, antes de o nome do Fernando Bicudo ter sido cogitado, já seria exonerado caso a bailarina Ana Botafogo assumisse a presidência do Theatro Municipal”.

Insisti junto à assessoria de imprensa, questionando se não houve solicitação formal de Heller-Lopes para deixar o cargo. E a assessoria respondeu: “Sim, o André não solicitou desligamento, ele foi exonerado, como os outros funcionários”. Definitivamente, alguém precisar ensinar certos jornalistas a trabalhar.

 

Direito de resposta 

O encenador e ex-diretor artístico do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, André Heller-Lopes, entrou em contato com o Movimento.com para solicitar o acréscimo neste artigo de esclarecimentos por ele prestados após a sua publicação.

Heller-Lopes informa que, no dia 27 de dezembro de 2017, enviou um e-mail ao secretário estadual de Cultura em exercício, Leandro Monteiro, no qual solicitou a sua exoneração do cargo de diretor artístico do TMRJ – mensagem essa que, ainda segundo Heller-Lopes, não foi respondida e teria sido reenviada no dia seguinte.

O encenador, gentilmente, encaminhou o referido e-mail ao Movimento.com. Reproduzimos abaixo, com sua autorização, a íntegra da mensagem, que foi enviada ao secretário às 17h32 daquele dia:

“Leandro,
“Acho que fiz tudo que podia como diretor artístico da FTMRJ. Cumpri meu dever e saio como um Artista e, mais importante ainda, um homem de bem, honesto e que só tem uma palavra, um discurso. As exigências que fez a Ana Botafogo para aceitar a Presidência são as mesmas demandas que eu necessito para continuar trabalhando. Se vocês não podem dar garantias, eu prefiro não endossar um processo que pode levar à destruição espiritual de um teatro como o Municipal. Além do mais, não posso ter o ônus de ver vários compromissos financeiros não honrados, pagamentos que se arrastam ao longo de meses, bloqueios financeiros e toda sorte de empecilho que afetam diretamente o funcionamento artístico do TMRJ – e ao meu nome.
“Na reunião de hoje ficou claro que não há garantia de salários ou de orçamento para a Temporada 2018. Um diretor artístico não é um cargo e sim os artistas que representa, o que pode alcançar com sua visão. Não sinto que possa nesse momento ajudar aos artistas e técnicos do TMRJ nem ter liberdade de exercer minha visão sem interferências várias. Fui sempre absolutamente leal a equipe do TMRJ e da SEC, mesmo que por vezes discordando; mas não sou o diretor artístico que aceitará qualquer situação absurda por um cargo. Aprecio o diálogo e acho que nossos canais de comunicação se exauriram.
“Desejo a FTMRJ toda sorte e estarei comprometido em lutar por este teatro, agora como artista e cidadão.
“Assim sendo, agradeceria se procedesse com minha exoneração do cargo de diretor artístico.
“Cordialmente,
Prof. Dr. André Heller-Lopes” Viagra Soft cheap

 

O encenador solicita ainda a publicação da seguinte mensagem:

“Surpreende-me que essa ‘questão técnica’ de quem exonerou quem seja minimamente relevante. É praxe no serviço público a exoneração, e várias pessoas da direção foram exoneradas no dia anterior. Que grande de bobagem! O importante é o TMRJ, seus corpos artísticos e a garantia de suas atividades. Cargos são passageiros, nós passamos por eles para tentar ajudar e, depois, deixamos novas equipes tentarem sua sorte.

“O importante é a programação (não a que deixei desenhada, mas algo mais amplo), a garantia das condições de trabalho para corpos artísticos, técnicos e administração. Desejo a nova gestão do TMRJ todo sucesso possível.”

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