Escrito por em 2 fev 2018 nas áreas Biblioteca, Lateral

Áurea Gomes se despede para sempre!

Nascida em Niterói, o soprano fluminense Áurea Gomes faleceu em 23 de Janeiro de 2018, após vários meses de luta com enfermidades. A artista residia na Itália,  nas proximidades de Milão para onde se dirigiu, a fim de estudar e se aperfeiçoar no canto lírico, após diplomar-se em canto e piano no Conservatório Brasileiro de Música, prosseguindo seus estudos em Milão, no Conservatório Giuseppe Verdi, e depois no Centro de Aperfeiçoamento do Teatro Alla Scala.

Venceu vários concursos internacionais, destacando-se o de “Vozes Verdianas”. Daí em diante a sua trajetória foi de sucessos consecutivos nas óperas “Il Trovatore”, em Barcelona, Trieste e Hamburgo; ” Un Ballo in Maschera”, em Hamburgo; “Nabucco”, em Turim, Parma, Bologna e na Arena de Macerata, quando cantou ao lado de Renato Bruson; “Manon Lescaut”, em Nice; “Norma”, em Montreal (Canadá); “Cavalleria Rusticana”, no Teatro San Carlo di Napoli; “Il Tabarro”, no Teatro Regio de Turin; “Caterina Cornaro”, no Teatro Colón de Buenos Aires.

Além disso, foi protagonista de concertos em Berna na Suíça, como a Missa de Requiem, de Verdi, obra com que abriu a temporada lírica oficial de 1982 do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, seguida da ópera “Nabucco” através das quais obteve esplendido êxito, repetindo-a em 1984 com grande elenco brasileiro.

Dirigida por grandes maestros como Molinari-Pradelli,  Adolfo Celi, Romano Gandolfi, Mário Tavares, Isaac Karabtchevsky e Tullio Colaccioppo, apresentou-se com os maiores nomes da cena lírica  nacional. Cantou também no Reggio Emilia, em Ferrara e Parma na ópera “Francesca da Rimini”, de Zandonai, e ao lado do tenor José Carreras a ópera “Un Ballo in Maschera”, no Teatro Comunale de Modena.

Cantou também “Madama Butterfly”, no Theatro Municipal de São Paulo em Agosto/Setembro  de 1984, emocionando a plateia pelo alto envolvimento dramático-exótico  de sua interpretação. Contracenou nesta ópera com Antonio Lotti, Benito Maresca, Luíz Orefice, Glória Queiroz e Wilson Carrara,   sob a direção musical do Mtrº Tullio Colaccioppo, com  a regia de Giuseppe Giuliano proveniente do Teatro dell”Ópera de Roma. Esta produção contou com cenários e figurinos da consagrada artista plástica Tomie Ohtake, totalizando nove récitas da referida ópera com êxito completo.

Entre nós, ainda  cantou as seguintes óperas “La Traviata” e “Aída”, de Verdi; “Il Guarany”, de Carlos Gomes;  “Madama Butterfly” (no Rio de Janeiro e também em São Paulo) e realizou a estreia nacional no Teatro Municipal do Rio de Janeiro da ópera “Yerma”, de H. Villa-Lobos, com libreto baseado na obra de Federico Garcia-Lorca (no original espanhol) a convite do Mtrº Mário Tavares, então diretor da Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, cuja estreia se deu em 26 de maio de 1983, com êxito retumbante.

Nessa oportunidade, Áurea Gomes falou-me, após o espetáculo no camarim do Theatro Municipal: –  “Esta foi a ópera mais difícil de minha carreira”,…… exausta pelos ensaios e pela sua dedicação exclusiva a um trabalho hercúleo, que esmagaria qualquer outra intérprete menor,  deste difícil personagem do grande mestre Villa-Lobos. O público ovacionou-a calorosamente ao término da ópera, nas cinco récitas exibidas.

 

Áurea Gomes deixa-nos uma lembrança maravilhosa de sua profundidade interpretativa, de seu fôlego de gato e de um timbre quente de seu registro de soprano dramático de coloratura. Recentemente, o programa “Alma Brasileira”, idealizado pelo grande pianista Marcelo Bratke e  transmitido pela Rádio Cultura FM (103,30) de São Paulo,  ofereceu trechos da gravação da “Yerma” realizada na ocasião retro-citada, onde pudemos constatar a grandiosidade interpretativa e a musicalidade deste grande soprano brasileiro, que emocionava a todas plateias que se propunha enfrentar.

Muito obrigado Áurea Gomes, pela sua sublime arte dedicada à humanidade !

Áurea Gomes em Yerma, de H. Villa-Lobos. 

 

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