Escrito por em 14 fev 2018 nas áreas Entrevista, Ópera

Já estão em livros O anel do Nibelungo e Parsifal.

O anel do Nibelungo

Capa de O anel do Nibelungo

O Anel do Nibelungo é uma obra fascinante, mas, ao mesmo tempo, extremamente difícil de ser compreendida em sua totalidade. Uma quantidade incrível de guias para uma perfeita compreensão da obra já foi lançada em diversos idiomas. Temos aqui o primeiro guia em português de uma autora brasileira. Neste aspecto, diversos pontos bastante espinhosos para a compreensão são aclarados com as úteis análises do livro de Lúcia. O ciclo de óperas O Anel do Nibelungo (Der Ring des Nibelungen, em alemão) é uma das obras mais importantes do compositor alemão. Tem como base a mitologia nórdica, semelhante à germânica, mas mais documentada.

Música e libreto foram escritos por Wagner entre 1848 e 1874. A obra é constituída das seguintes óperas: Das Rheingold (O Ouro do Reno – prólogo) | Die Walküre (A Valquíria) | Siegfried | Götterdämmerung (O Crepúsculo dos Deuses). Um dos aspectos mais complexos é a enorme quantidade de leitmotiven. São mais de 80 símbolos musicais que expressam personagens, objetos e sentimentos. Essa imensa rede de temas musicais esclarece, de forma aprofundada, o que se passa na mente dos personagens, já que, em muitos momentos, não há palavras, apenas música.

Este livro resolve, de maneira bastante apropriada, a confusão musical em que o ouvinte pode se colocar, caso não saiba exatamente o que Wagner pensava sobre esses motivos musicais. “O Anel do Nibelungo” é realmente uma obra impossível de ser compreendida à primeira vista. É a típica obra do autor que pretende fazer dos ouvintes não apenas um público que vai à ópera em busca de diversão, mas um público que estuda, que realiza um verdadeiro mergulho na obra, que também participa como pesquisador.

Um guia das obras de Wagner é realmente uma excelente ferramenta para se iniciar a apreciação de toda a riqueza dessa partitura. A autora começa com a mais difícil das obras, um somatório de quatro óperas. A verdadeira compreensão de O Anel do Nibelungo, mais possível através deste livro, traduzirá melhor o quão fascinante é o legado desse compositor.

Ao assistir, em Nova Iorque, à ópera A Valquíria, de Wagner, foi grande a minha surpresa ver o Metropolitan Opera House repleto e perceber, durante o espetáculo, que a plateia parecia se encontrar num estado de contemplação hipnótico. Pensei: ‘Muitas pessoas aqui presentes estão vivenciando essas emoções somente pela sensibilidade; talvez poucas sejam as que compreendem o que estão vendo e ouvindo. Pensei também no quanto essas pessoas poderiam estar desfrutando desse espetáculo maravilhoso se conhecessem um pouco mais. Assim, surgiu a ideia de escrever um guia prático para o ouvinte,” resgata Lúcia.

A tetralogia de Wagner é considerada, em todo mundo, uma obra de arte completa, pois envolve literatura, mitologia, música, canto e demais artes cênicas. É considerada uma obra muito abrangente, pois mostra desde o início do mundo, a natureza pura, intocada e harmônica, até o apocalipse. Fala da psique humana, do consciente e do inconsciente e de quando o homem, ao se tornar consciente, rompeu com essa harmonia, tentando impor suas regras em benefício próprio. Descreve a trajetória do homem, seus erros, sua ambição desmedida que o levam a um processo de autodestruição. A tetralogia é baseada na mitologia, objetivando a catarse, como no teatro grego, ou seja, a identificação do ser humano com os personagens e com a história, resultando no autoconhecimento.

 

Parsifal

Capa de Parsifal

Parsifal é o ponto alto da grande reforma da ópera feita por Wagner. É uma obra de arte tematicamente complexa, mística e intrigante, com vocação moral e inspiração filosófica.

Wagner utiliza uma simbologia cristã, porém o sincretismo de Parsifal, que transpõe as doutrinas do budismo junto com o material dos evangelhos e a liturgia da Eucaristia, é mostrado no contexto de uma revisão cristianizada da lenda do Graal.

O caráter litúrgico mostra um drama sagrado, um novo evangelho, porém é uma obra enigmática. Pode ser interpretada como sagrada ou profana, cristã ou pagã, conservadora ou progressista, uma síntese de toda a ambivalência estética do compositor.

Essa ópera é uma obra de arte que reflete profundamente sobre os aspectos do sagrado e sobre as questões humanas essenciais: o amor, o erro, a ética, o perdão, a redenção, a compaixão, a caridade, a sabedoria e o ser humano perante a coletividade. Essa é uma obra atemporal e universal.

 

  Lúcia Schiffer Durães

Formada em Administração de Empresas pela Universidade Federal do Paraná. Pós-Graduação em Direito Internacional na Universidade de Direito, Economia e de Ciências Políticas em Aix-en-Provence, França, onde foi bolsista da Fundação Rotária do Rotary Internacional. Curso de Marketing para Hotelaria na Universidade de Cornell nos Estados Unidos.

Formada em Inglês pelo Centro Cultural Brasil-Estados Unido, estudou Francês na Aliança Francesa de Curitiba, na Universidade da Sorbonne em Paris, e no Instituto de Estudos de Língua Francesa em Aix-en-Provence – França. Estudou Alemão no Goethe Institut – Curitiba

Trabalhou na Secretaria de Recursos Humanos do Estado do Paraná, na EPI – Consultoria e Planejamento em Feiras e Congressos Internacionais e no também Hotéis Deville. Diretora e proprietária da empresa Connection Importação e Exportação de Manufaturas Ltda.

Foi Conselheira do Conselho de Comércio Exterior – CONCEX da Associação Comercial do Paraná; Vice-presidente e coordenadora da Comissão do Mercosul e Assuntos Internacionais da Associação de Mulheres de Negócios e Profissionais de Curitiba -BPW; Diretora de Relações Governamentais e Entidades de Comércio Exterior da Câmara de Comércio e Indústria Franco Brasileira; Vice-presidente da Associação Brasileira dos Profissionais Especializados na França, Associação Engenheiros Garfunkel; Conselheira da Câmara de Comércio e Indústria do Paraguai, e foi membro da diretoria da Câmara de Comércio e Industria Brasil Uruguai; Presidente da Comissão de Neuropediatria da Associação dos Amigos do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná desde 1998.

Atualmente, escritora e pesquisadora na área de música erudita. Estudou piano clássico com a professora Margot Zugueib durante 14 anos. Aluna do maestro e professor Osvaldo Colarusso, no curso de História da Música desde o ano 2000.

Lançou em maio de 2008 o livro O ANEL DO NIBELUNGO – Richard Wagner, GUIA PRÁTICO DO OUVINTE e lançou em setembro de 2015 o livro PARSIFAL – Richard Wagner, GUIA DO OUVINTE.

 

A ENTREVISTA


Wagner levou anos para fazer esta ópera maravilhosa – O anel do Nibelungo. De quanto tempo você precisou, desde a ideia até o término do livro, pronto para imprimir?

Wagner levou 26 para concluir o trabalho do ANEL. Sou aluna do maestro e professor Osvaldo Colarusso desde o ano 2000, com algumas interrupções. Dediquei dois anos estudando as óperas de Wagner, mais dois anos pesquisando sobre O Anel do Nibelungo, escrevendo e revisando o livro, e um ano trabalhando para publicar o livro com o CD ROM.


Quais foram as maiores dificuldades encontradas neste empreendimento?

A maior dificuldade para realizar este trabalho foi conseguir o material para a pesquisa. No Brasil temos poucos livros em português sobre as quatro óperas do Anel. Assim sendo fiz grande parte da pesquisa nas bibliotecas em Nova Iorque e comprei muitos livros para continuar a pesquisa no Brasil. Encomendei também alguns livros em Paris. A pesquisa foi feita toda em livros em inglês e francês e isso demorou mais tempo do que uma pesquisa com livros em português.

A correção do livro foi feita em etapas: primeiro pontuação e estrutura. Tive que estruturar o livro de uma forma mais lógica para o público. A segunda etapa foi sintaxe e semântica e depois foi a correção do estilo, escrevi vários trechos do livro novamente, para conseguir uma coerência estilística.

Finalmente, para publicar o livro foi um trabalho árduo desde a elaboração dos contratos de propriedade intelectual com todos os colaboradores e profissionais que participaram do projeto até a gravação do CD ROM que envolveu vários profissionais.

 

Suponho que você deva ter lido alguns dos livros sobre este mesmo assunto, que você cita existirem. Qual a diferença entre eles e o seu, fora o idioma? Existem diferenças que você considere significativas?

Sim. Muitos dos livros que li sobre o ANEL são direcionados para um público que já tem um conhecimento maior sobre O ANEL e sobre música. O meu livro é muito didático. Utilizei o mesmo método que o professor Colarusso criou de forma intuitiva para me fazer compreender profundamente o significado literário e musical dessa grandiosa obra de Wagner.

Para mim, o mais difícil foi compreender o significado da obra sinfônica, ou seja, da música que tem um significado com a técnica dos LEITMOTIVEN (temas). Com o auxílio do CD ROM que contém a tradução para o português, a marcação dos números dos temas no texto em alemão (quando você aperta o número, toca o tema) e com a explicação desses temas no livro, é possível compreender o que Wagner queira dizer através da música e a relação da música com o texto que é cantado no palco.

 

O que uma Administradora de Empresas faz neste campo tão diferente? Você é amante do gênero e em especial de Wagner ?

Sou formada em Administração de Empresas pela UFPR e pós graduada em Direito Internacional pela Université d’ Aix-Marseille III – França. Fui empresária, diretora e proprietária de uma empresa de importação. Durante muitos anos estudei piano com a professora Margo Zugueib.

Quando encerrei as atividades da empresa Connection Importação e Exportação, voltei a estudar música com o maestro e professor Osvaldo Colarusso. Ao estudar as óperas de Wagner, percebi a grandiosidade do seu trabalho no sentido de resgatar o verdadeiro sentido da arte através da sensibilização do espírito.

Vivemos num mundo árido e material, com infindáveis questionamentos religiosos, psicológicos e filosóficos. O ser humano se debate em busca de respostas para as questões essenciais do mundo e da existência humana. Na obra de Wagner, nem sempre encontramos as respostas, mas temos a possibilidade de evoluir ao trilhar esse longo caminho, refletindo sobre nossos valores e de encontrar o equilíbrio entre aquilo que podemos compreender, aquilo que devemos realizar e principalmente sobre aquilo que transcende a nossa capacidade humana. Compreender a obra de Wagner é sem dúvida uma grande travessia.

 

Dos 3 livros que você já escreveu (um está em fase final) qual foi mais apaixonante?

Escrevi sobre as quatros óperas do Anel do Nibelungo, sobre Parsifal e atualmente estou terminando Tristão e Isolda. Sempre me apaixono pelo livro que estou escrevendo. A pesquisa é sempre muito ampla e profunda e, assim, tenho a oportunidade de estudar e aprofundar o meu conhecimento em temas que eu desconhecia, como mitologia nórdica, filosofia, Idade Média, religião, tragédia grega, psicologia, música.

Nos meus livros escrevo apenas alguns parágrafos sobre esses assuntos para que o leitor mais interessado tenha a oportunidade aprofundar o seu conhecimento, de acordo com a sua necessidade, com uma pesquisa pessoal em outros livros sobre o assunto. Mas para escrever esses parágrafos eu leio muitos livros interessantes e, ao compreender o conteúdo literário e musical da ópera de Wagner que estou analisando, acabo fazendo uma catarse e me apaixono pela obra.

 

Existe outra ópera de Wagner que seja mais gostosa para você além dessas? Navio fantasma, por exemplo?

Cada ópera de Wagner tem suas particularidades e ao estudar mais profundamente conhecemos a sua grandiosidade. Assim sendo cada ópera contém um universo de ideias literárias e musicais que tornam cada obra única e maravilhosa.

O Navio Fantasma tem um significado importante para mim porque foi a primeira ópera de Wagner que estudei com o maestro e professor Colarusso. Achei muito interessantes os TEMAS (Leitmotiven) e fiquei impressionada com a beleza da música. Essa ópera despertou em mim um grande interesse em aprofundar o meu conhecimento sobre a “técnica dos Leitmotiven” utilizada por Wagner para dar um sentido à música.

Estou pensando em escrever sobre o Lohengrinn quando eu terminar o livro sobre a ópera Tristão e Isolda. Mas tudo pode mudar. Eu acredito que esses livros que escrevo com o objetivo facilitar a compreensão da obra de Wagner, são um trabalho espiritual e nem sempre está presente no meu consciente o caminho que devo seguir.

Desejo deixar uma obra que mostre o caminho para a compreensão dos valores fundamentais que podem transformar o ser humano e o mundo, para alcançar a verdadeira felicidade.

 

OBSERVAÇÃO: Estes livros podem ser encontrados em algumas livrarias, mas você pode adquirir direto com a autora, ao preço aproximado de R$ 70,00, pelo e-mail:  lucia.duraes@yahoo.com.br

 

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