Escrito por em 3 fev 2018 nas áreas Crítica, Lateral, Musical, Rio de Janeiro

Com garra e muito humor, dois jovens atores trazem ao Rio de Janeiro musical da Broadway [nome do espetáculo].

 

Lá no começo do século 21, dois “merdas” – Jeff Bowen e Hunter Bell – decidiram criar um musical para o New York Musical Theatre Festival. Diante do prazo apertado de três semanas e da falta de uma sinopse para o espetáculo, resolveram contar sua própria história: dois “merdas” criando um musical em três semanas. O resultado foi [title of show] (é, o nome é esse mesmo), espetáculo escolhido pelo festival e cuja estreia ocorreu em setembro de 2004, em NY.

Aproximadamente uma década depois, dois jovens atores, em busca de um espaço na cena musical carioca, resolveram encenar [title of show] no Brasil. Mais que simplesmente traduzir, Caio Scott e Junio Duarte transformaram, com inteligência e humor, um original 100% off-Broadway no delicioso [nome do espetáculo], que encerra mais uma temporada no Rio de Janeiro no dia 4 de fevereiro, no Centro Cultural Justiça Federal.

A montagem é dirigida por Tauã Delmiro (ator de 60! Década de Arromba e estreante na função) e traz, além de Caio e Junio (ambos da exitosa montagem universitária de The Book of Mormon), as atrizes Carol Berres (de Matilda) e Ingrid Klug (de O Mambembe), e o tecladista (também diretor musical) Gustavo Tibi (da banda Jamz).

[nome do espetáculo] tem uma trama metalinguística, na qual os personagens principais são os criadores (ao lado de duas amigas) de uma peça enquanto a criação vai se desenrolando. Os meandros (das agruras da) vida teatral que permeiam a peça são brilhantemente adaptados por elenco e diretor para o cenário brasileiro. Aliás, se não fosse pelos nomes dos personagens (que se mantêm Hunter, Jeff, Susan e Heidi), ninguém diria que o texto não é original. Estão lá, com muito humor, referências ao Teatro Renault (palco de grandes musicais em SP, como Os Miseráveis), Charles Möeller e Claudio Botelho (criadores de dezenas de espetáculos musicais originais e adaptados), Mirna Rubim (atriz, cantora e professora de canto), Soraya Ravenle (atriz e cantora), Prêmio Shell (que é até título de uma canção) e tantos outros nomes relevantes no métier no Brasil.

Além da metalinguística, não falta ao espetáculo autocrítica. Enquanto vão criando (e encenando), os atores-autores se perguntam: será que conseguiremos? será que o texto está bom? será que essa canção presta?. Mais que isso, esbanja deboche e ironia – representados, especialmente, pelas coreografias às vezes propositalmente toscas e pelos figurinos bem casuais (assinados pelo diretor).

Em um cenário mínimo – quatro cadeiras e algumas persianas ao fundo –, criado por Cris de Lamare, e sob a luz do experiente Paulo César Medeiros, os quatro jovens dão um show. Cantam com desenvoltura (especialmente as meninas, e Carol Berres donas de vozes bonitas e treinadas), fazem rir (muito! Ingrid Klug é particularmente hilária como a desastrada Susan), debocham e homenageiam o showbiz. O ritmo é ágil e divertido – Tauã Delmiro faz boa estreia na direção, com clara e precisa consciência cênica. Mesmo quem não entende algumas piadas específicas sobre o teatro musical carioca acha graça; quem entende gargalha alto.

Caio Scott e Junio Duarte merecem muitos aplausos, tanto pela inteligência da adaptação quanto pela coragem de mostrar que dá para fazer um espetáculo de qualidade sem galãs, estrelas ou nomes globais (todos no elenco são bonitos, mas nenhum é padrão de beleza), e sem captar milhões por incentivos fiscais. Mais que isso: mostram que gente como a gente, quando tem um sonho de verdade, sem saber que era impossível, vai lá e faz.

Ingrid, Caio, Carol e Junio (e Gustavo ao fundo)

 

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