Escrito por em 7 mar 2018 nas áreas Cinema, Entrevista

Claudio Santoro é tema do documentário Santoro – O Homem e sua Música, que estreia em 8 de março.

 

Um dos maiores nomes da música brasileira, responsável por gerações de músicos que se formaram na Universidade de Brasília, o músico, compositor e maestro premiado Cláudio Santoro (1919-1989) é tema do documentário Santoro – O Homem e sua Música, que chega aos cinemas no dia 8 de março, em Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte e Salvador.

Pouco conhecido fora do ambiente da música de concerto, Santoro foi autor de mais de 600 peças musicais de diferentes estilos, que são fruto de sua versatilidade para compor, desde singelos prelúdios para piano até complexas peças sinfônicas e eletroacústicas. O diretor John Howard Szerman assumiu a tarefa de perfilar e trazer para o público a história de Santoro no longa-metragem que roteirizou, dirigiu e produziu.

O longa não se restringe ao perfil musical e investiga outros aspectos da trajetória do personagem. Militante do Partido Comunista Brasileiro, Santoro foi irredutível quanto às suas posições políticas, o que o impossibilitou de alcançar, em vida, uma trajetória mais exitosa no Brasil e até mesmo no exterior. Morou na Europa e passou por muitas dificuldades financeiras. Entre outras, depois de oito anos exilado na Alemanha, em 1977, ainda em plena ditadura militar, recebeu convite do Governo Brasileiro para voltar ao país e escolheu Brasília como destino para continuar seu trabalho na UnB.

“Cada entrevista que fizemos para o filme despertava novos insights sobre Claudio e sua obra, mas foi por meio das interpretações musicais que vimos a sua importância para a música erudita mundial”, conta Szerman.

Com 88 minutos de duração, o documentário reúne depoimentos de familiares, amigos e especialistas que trazem à tona a história do início ao fim de vida do artista. A direção musical é do filho do maestro, Alessandro Santoro, pianista e cravista. São trechos de quatro sinfonias e diversas peças musicais interpretadas especialmente para o filme pelas Orquestras Sinfônica Brasileira (OSB), Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro (OSTNCS), Filarmônica de Minas Gerais e a Filarmônica Amazonas; a Camerata do Brasil e a Camerata Aberta, além de músicos em diversas formações: solo, duo, trio…

Santoro – O Homem e sua Música recebeu, no 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2015, os prêmios Troféu Câmara Legislativa do Distrito Federal na categoria longa-metragem como melhor filme, direção e trilha sonora, além do prêmio Exibição TV Brasil e o prêmio Marco Antônio Guimarães como melhor pesquisa cinematográfica, do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro.

 

Claudio Santoro

O compositor

Claudio Santoro foi um dos mais prolíficos compositores brasileiros, experimentando uma variedade técnicas musicais, em número só comparável a Igor Stravinsky. O maestro regeu importantes orquestras em todo o mundo. A convite de Darcy Ribeiro, foi responsável pela criação do Departamento de Música da Universidade de Brasília e fundou a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, que hoje leva o seu nome. Em 50 anos de carreira, sua obra foi estudada e analisada em mais de uma centena de publicações, entre livros, ensaios e teses. Suas composições foram gravadas por diferentes artistas, num acervo que reúne mais de 130 CDs e LPs.

Santoro ainda fez trilhas musicais para filmes, compôs a música do Hino do Estado do Amazonas, sua terra natal, e discos de histórias infantis, além de ter sido parceiro de Vinícius de Moraes em canções como 13 Poemas de Amor Cialis Professional online e A Música da Alma, tornando-se um precursor da bossa nova.

 

O diretor

Cineasta com mestrado em Cinema e Televisão pelo The Royal College of Art em Londres, John Howard Szerman é inglês radicado no Brasil. Integrou as equipes de Jean-Luc Godard – como cameraman e editor – e de Glauber Rocha – como diretor de fotografia e cameraman de A Idade da Terra. Trabalhou em direção de fotografia e câmera com alguns dos mais importantes diretores de fotografia do mundo: como assistente de câmera de Freddie Young (Lawrence da Arábia, Dr. Jivago); como codiretor de fotografia com Peter Biziou (The Wall, Mississipi em Chamas Brand Cialis cheapest , O Expresso da Meia-Noite) e Ricardo Aronovich (Providence, Missing, La Famille). Em 1975, Thus Spoke Zarathustra foi o primeiro e mais importante filme de sua carreira. No total, dirigiu e produziu 41 filmes, fez o roteiro de sete longas-metragens e trabalhou em mais de 50 produções audiovisuais.

Recebeu prêmios no Brasil e no exterior pelo BFI-British Film Institute, prêmios Kikito, Sol de Prata e Candango, Troféu da Câmara Legislativa do Distrito Federal, Prêmio Marco Antônio Guimarães e Prêmio Exibição TV Brasil.

Leia, a seguir, entrevista com o diretor John Howard Szerman.

 

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Movimento.com: Como surgiu o interesse pela vida e pela obra de Claudio Santoro? O que chama a atenção na produção artística do compositor manauara?

John Howard Szerman: Conheci Santoro no início dos anos 1980, quando ele realizou um festival de música contemporânea na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro. Já conhecia de nome e por alguns concertos que acompanhei. A viúva dele, a Gisèle, me disse uma vez que tinha medo de que ele caísse no esquecimento, pois não havia nenhum documentário sobre a sua vida e obra. Eu, imediatamente, propus fazer uma pesquisa.

Comecei pela 7ª Sinfonia e algumas peças, algumas dodecafônicas, outras nacionalistas. Fiquei deslumbrado. Santoro foi certamente o compositor de música brasileira mais profícuo de todos. Tom Jobim, que começou a estudar piano ainda adolescente com Koellreuter [N.E.: Hans-Joachim Koellreuter (1915-2005), compositor, professor e musicólogo brasileiro de origem alemã, veio para o Brasil em 1937 e tornou-se um dos nomes mais influentes na vida musical no país], que também foi professor do Santoro no início de sua formação de composição, disse certa vez em uma entrevista: “Eu gostaria de ter sido um compositor como o Claudio Santoro”.

Essa diversidade de técnicas e estilos musicais explorados por Santoro – música dodecafônica, popular, eletroacústica, nacionalista, estocástica, abstrata, trilhas para cinema e para discos de histórias infantis –, com uma maneira de comunicar sua obra muito forte e sem manter necessariamente uma unidade, mas com toques sempre muito pessoais, foi o que me levou a desejar realizar esse filme, cujo objetivo é apresentar o maestro ao público brasileiro e internacional.

 

Conte-nos como foi o processo de pesquisa e entrevistas para o filme?

Depois de ouvir e ver tocadas algumas de suas obras no YouTube e outros meios, sentei com a Gisèle por alguns dias e gravei o áudio de suas memórias sobre Claudio. Ela também me passou algumas fitas que Claudio gravou para Janette, uma amiga dele que queria escrever um livro sobre a sua vida. As escolhas dos entrevistados partiram de algumas premissas: familiares, amigos, musicólogos e maestros.

Procurei imagens de arquivo e consegui algumas com a TV Brasil. A TV Cultura de São Paulo tinha um material muito bom, mas não conseguimos fazer um acordo satisfatório e desistimos desse material. Eram concertos de suas peças regidos por ele nos anos 1980 com a Osesp; uma gravação de trechos de sua ópera Alma, baseada em textos de Oswald de Andrade; peças interpretadas por músicos, enfim… uma grande pena.

Fiz questão de entrevistar o único sobrevivente do Movimento Música Viva, maestro Edino Krieger, que revolucionou a música erudita brasileira nos anos 1940 e 50, interpretando obras de música contemporânea nos palcos e na Rádio Nacional, onde ganharam um programa. O patrono desse grupo foi Villa-Lobos.

 

Qual foi o critério para a escolha das obras musicais e dos artistas que aparecem no longa?

Primeiro convidei para ser diretor musical do filme o filho do compositor, Alessandro Santoro, que é músico e a pessoa que cuida do site do Claudio com o registro de toda a sua carreira musical, mais de 600 composições. Ele propôs e eu concordei em procurar gravar as diversas fases de sua obra e colocar no filme essas músicas de forma cronológica, buscando acompanhar a evolução de seu trabalho. Claro que não conseguimos gravar todas as peças que Alessandro listou, mas um grande número delas. O filme levou dois anos e meio para ser rodado porque dependíamos das agendas dos músicos e orquestras. É importante dizer que as gravações sonoras foram feitas por um técnico argentino-brasiliense, Andres Artesi, que fez um trabalho sensacional. Optamos por gravar as orquestras no sistema dos anos 1950, o Decca Tree, com apenas três microfones. Ficou espetacular.

 

De que maneira sua formação como músico influenciou na realização deste projeto?

Eu estudei música na década de 1960, muito jovem. Primeiro, em um coral, depois estudando contrabaixo e tocando numa banda de rock. A música do Santoro surgiu para mim como uma grande e agradável surpresa, quando ainda estudava. E claro, sendo tão envolvente, me deixou com uma percepção diferenciada dos outros compositores eruditos, brasileiros ou estrangeiros. Concordo com o musicólogo Lutero Rodrigues, que em seu depoimento no filme, diz que as sinfonias do Santoro poderiam figurar em quaisquer concertos no mundo todo, ao lado de compositores famosos internacionais. Jocy de Oliveira ainda provoca, em sua fala no filme, quando diz que, se ele tivesse nascido na Europa, seria reconhecido como um dos mais importantes compositores do século 20.

 

Qual a importância de um documentário sobre um compositor erudito nos dias de hoje?

Como qualquer músico, erudito ou popular, abstrato ou de música eletrônica, por exemplo, ele compõe. E quando a obra é boa, merece receber um tratamento especial: um documento para pesquisa e para ficar registrado.

John Howard Szerman

 

Sinopse do filme

Autor de mais de 600 obras em 50 anos de carreira como compositor de música erudita e eletrônica, Claudio Santoro é considerado um dos três mais importantes músicos eruditos do Brasil, ao lado de Carlos Gomes e Villa-Lobos. Além de depoimento do próprio personagem principal, por meio de material de arquivo, outros como os de familiares, biógrafos, amigos como Roberto e Sonia Salmeron, José Geraldo Sousa Júnior, Fernando Bicudo; músicos como Edino KriegerJocy de Oliveira, Ney Salgado, Alessandro Santoro; maestros Júlio Medaglia, Roberto Duarte, Claudio Cohen, Henrique Morelenbaum, Guilherme Vaz e Gerald Kegelmann Brand Viagra buy , e musicólogos como amoxil without prescription buy amoxil Brand Viagra purchase Lutero Rodrigues e Sérgio Nogueira Mendes, para citar apenas algumas personalidades.

 

Ficha técnica

Roteiro: John Howard Szerman e Alayde Sant’Anna
Produção, direção e direção de fotografia: John Howard Szerman
Produção executiva: Bismarque Villa Real e John Howard Szerman
Gravação das músicas e mixagem: Andres Artesi
Edição: Marisa Rabelo e Isabela Padilha
Edição final: Juliana Corso
Colorização: Smyle Rodrigues

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