Escrito por em 7 maio 2018 nas áreas Crítica, Lateral, Ópera, São Paulo

Entre vozes boas e razoáveis, ópera-bufa de Cimarosa ganha encenação impecável no Theatro São Pedro/SP.

 

Geronimo é um rico comerciante, pai de duas filhas, que consegue um marido nobre, o Conde Robinson, para a sua primogênita, Elisetta. O Conde, porém, quando vai à casa do seu futuro sogro para conhecer a noiva, acaba se interessando bem mais pela caçula, Carolina, e decide trocar de noiva, abrindo mão de metade do dote inicialmente combinado. Carolina, porém, já se casou em segredo com Paolino, empregado do pai, antes mesmo de a cortina subir (daí o título da obra). Paolino, por sua vez, é desejado por Fidalma, a viúva rica que é irmã de Geronimo e que, em dado momento, ameaça retirar seu capital dos negócios do comerciante. Depois das reviravoltas de praxe e de muita boa música, tudo acaba bem.

Esse é o resumo de Il Matrimonio Segreto (O Matrimônio Secreto), ópera-bufa em dois atos de Domenico Cimarosa sobre libreto de Giovanni Bertati, com base na comédia The Clandestine Marriage, de George Colman e David Garrick, e que está em cartaz no Theatro São Pedro, em São Paulo, até o dia 13 de maio.

 

Entre leveza e frescor, seis protagonistas

Estreada no Burgtheater, em Viena, em 7 de fevereiro de 1792, a obra é o que os italianos chamam de comédia de equívocos, na qual uma série de equívocos se desenrola até que um desenlace os resolva. No caso de Il Matrimonio Segreto, o desejo do Conde por Carolina e aquele de Fidalma por Paolino, como também as suspeitas de Elisetta, Fidalma e Geronimo sobre as reais intenções de Carolina não teriam razão de ser se todos soubessem que a caçula da casa já estava casada com Paolino. É, portanto, o “matrimônio secreto” dos jovens amantes a origem dos equívocos que proporcionam a comédia.

Nesta ópera sem coro, os seis personagens são protagonistas. Até se poderia apontar Carolina como a personagem central, mas isso significaria, ao mesmo tempo, retirar injustamente a importância de todos na construção dramática da obra. Tanto que, na montagem do Theatro São Pedro, esse entendimento parece ter sido considerado: todos os solistas recebem juntos os aplausos do público ao fim do espetáculo, sem hierarquias entre eles.

Cimarosa tratou essa trama com uma música especialíssima – música esta que ainda viria a influenciar Rossini em alguma medida. Considerada a sua obra-prima, a única de suas óperas que ainda é encenada razoavelmente no circuito lírico mundial possui 20 números musicais (21 se contada também a Sinfonia inicial), distribuídos entre árias, duetos, tercetos, um quarteto, um quinteto, e sextetos (considerados aqui a cavatina do Conde que evolui para um sexteto e os números finais de cada de ato). Com inspiradas melodias, dotadas de leveza e frescor, o compositor constrói uma obra sólida e cativante que, apesar de sua longa duração, faz com que o espectador nem perceba o tempo passar – desde que seja bem encenada e bem cantada. Foi o que aconteceu na casa de ópera da Barra Funda.

 

Uma impecável caixa de presentes

Em sua concepção para o espetáculo, o encenador Caetano Vilela imagina uma grande caixa de presente – no caso, claro, um presente de casamento – na qual a ação acontece. Equilibrando tradição e modernidade, o diretor alcança um nível de perfeição poucas vezes visto em nossos palcos. Para atingir esse equilíbrio, Vilela conta com o auxílio de uma equipe bem afinada.

A cenógrafa Duda Arruk é a responsável pelo toque de modernidade, ao materializar a referida caixa de presente imaginada pelo encenador: uma estrutura de dois andares com seis compartimentos (três por andar), na proporção de um para cada personagem, e que, ao todo, acaba gerando sete cenários distintos (!) – cada um dos seis compartimentos mais a parte frontal do palco, com a referida estrutura servindo como pano de fundo. Tanto a frente do palco, como os compartimentos são ainda adequadamente mobiliados. Um trabalho simplesmente genial.

Já o figurinista Fause Haten dá o toque de tradição à montagem, criando impecáveis vestes de época, mas sem período definido e com alguma liberdade, que ganham um tom adequadamente caricato ao se unirem às impagáveis perucas desenvolvidas pelo caracterizador Edu VonGomes. Os personagens parecem bibelôs saídos da caixa de presente. O próprio encenador assina a excelente iluminação do espetáculo, também aqui alternando entre opções de desenhos de luz mais tradicionais e outras mais ousadas, enriquecendo assim todo o trabalho de ambientação.

Resta ainda comentar a primorosa direção de atores de Caetano Vilela. O diretor extrai de todos os intérpretes (até mesmo dos figurantes) atuações de excelente nível. Todos aqueles que estão no palco oferecem ao público um trabalho cênico não apenas cuidadoso, mas realmente meticuloso, e sempre a serviço da comédia. Gestos, posturas, movimentos, tudo muito bem pensado e bem realizado.

Um exemplo do nível de cuidado do encenador com os detalhes pode ser observado logo depois da cena do segundo ato entre Paolino e Fidalma, quando esta anuncia que se casará com o empregado, acreditando que esse é também um desejo dele. Quando a cena seguinte já está se desenvolvendo na frente do palco, a viúva sobe para os seus aposentos, pega uma imagem de Santo Antônio que estava de cabeça para baixo, e passa a beijá-la de joelhos, agradecendo o santo pelo seu (suposto) futuro casamento.

O resultado final é uma encenação primorosa, que resulta em um dos melhores trabalhos (se não o melhor) de Caetano Vilela na direção de um espetáculo dentre aqueles que este autor já pôde presenciar.

O cenário e o elenco

 

Vozes em diferentes estágios

Na estreia, no dia 4 de maio, a Orquestra do Theatro São Pedro começou irregular, com a Sinfonia (ou abertura) interpretada com falhas de acabamento, especialmente na terminação de algumas frases musicais. Pareceu uma insegurança inicial, pois logo o conjunto se ajustou, sob a regência segura e competente da italiana Valentina Peleggi. A maestrina demonstrou ter a obra e os cantores nas mãos, e conduziu-os até o fim com grande sensibilidade musical e atenção à dinâmica.

Merece destaque a cravista Cecília Moita, por sua bela atuação nas passagens de recitativo secco (aquelas acompanhadas pelo cravo que fazem a ação avançar e que servem de ligação entre os números musicais). O cravo foi utilizado, inclusive, para algumas brincadeiras durante os recitativos, como quando tocou muito brevemente, e em momentos distintos, a célebre melodia da canção Tico-tico no fubá e a introdução da Habanera, da ópera Carmen, em passagens condizentes, reforçando o que se via em cena. Uma opção anacrônica (tal qual Geronimo entrar em cena cantarolando versos de Vesti la giubba), já que a ópera é do século 18, mas que funcionou bem. Segundo informações obtidas posteriormente, a ideia das brincadeiras no cravo partiu da maestrina Peleggi, e a de fazer Geronimo cantarolar o mais célebre trecho de I Pagliacci foi do encenador.

Mesclando solistas mais experientes com outros que ainda não tiveram muitas oportunidades em nosso meio lírico, o elenco reunido para a presente produção tem oscilações, mas no geral, funciona bem. A soprano Caroline de Comi teve um rendimento geral apenas regular como Carolina, com momentos mais satisfatórios e outros nem tanto. A sua maior dificuldade se deu nas passagens de agilidade, quando não se mostrou muito à vontade (o que é no mínimo curioso, uma vez que em seu currículo consta que a sua voz classifica-se como de coloratura). A intérprete demonstrou boa desenvoltura, e esteve bem, por exemplo, em seu recitativo acompanhado do segundo ato, Come tacerlo poi.

O baixo Pepes do Valle também teve uma atuação vocal regular como Geronimo. O canto do artista carece de maior refinamento técnico, e muitas vezes sua voz soa um tanto tremida. É preciso reconhecer, porém, que passagens como a sua cavatina, Udite, tutti udite, e o seu dueto com o Conde, Se fiato in corpo avete, foram defendidas com grande desenvoltura. Do Valle compensou com presença e talento cômico o que lhe faltou na voz. Na acústica amigável do São Pedro, não foram identificados problemas de projeção, mas, em um teatro de grande porte, o risco certamente seria bem maior.

O tenor Jean William exibiu um timbre muito bonito de tenor ligeiro e, exceto pelas dificuldades que enfrentou em alguns agudos, que não “encaixaram” adequadamente, ofereceu uma boa récita como Paolino. Feita a ressalva sobre os agudos, seu dueto com o Conde, Signor, deh, concedete, e também aquele com Fidalma, Sento, ohimè, che mi vien male, que evolui para um terceto com a chegada de Carolina, foram muito bem defendidos. Cabe ainda mencionar que o tenor escorregou na pronúncia do italiano logo no começo da récita, melhorando em seguida.

A soprano Joyce Martins deu vida a uma ótima Elisetta, exibindo a agilidade necessária com uma emissão sempre segura. Em passagens do segundo ato, como o terceto com Fidalma e Geronimo, Cosa farete?, e a sua única ária, Se son vendicada, a artista demonstrou possuir ótima musicalidade e um material vocal bastante promissor.

A mezzosoprano Ana Lucia Benedetti foi uma Fidalma de luxo. Logo em seu primeiro número, o terceto com Carolina e Elisetta, Le faccio un inchino, Benedetti exibiu graves de catálogo, lindamente sonoros. Logo em seguida, abordou a sua ária, È vero che in casa, com ótima presença e voz sempre segura e bem projetada. Sua participação enriqueceu passagens já citadas aqui, como o dueto com Paolino e o terceto com Elisetta e Geronimo. A precisão da sua técnica e a limpidez da sua emissão fazem desta mezzosoprano uma das cantoras brasileiras mais qualificadas atualmente.

Joyce Martins, Ana Lucia Benedetti e Caroline de Comi

 

O barítono Michel de Souza (indicado como uma das revelações da temporada lírica nacional de 2017 pelo Movimento.com) disse a que veio logo que entrou em cena como o Conde Robinson para cantar a sua cavatina, Senza, senza cerimonie: com voz de bela pasta baritonal, sempre muito bem projetada e com grande refinamento nas passagens de maior agilidade, o artista dominou o palco. Nos já citados duetos com Paolino e Geronimo, sua contribuição foi essencial, e a sua ária do segundo ato, Son lunatico bilioso, recebeu interpretação irrepreensível. O seu apuro técnico é tão nítido, tão limpo, que, tal qual o de Benedetti, deveria ser objeto de estudo de jovens cantores.

Em uma ópera com vários números de conjunto, alguns merecem ser citados. O quarteto do primeiro ato, Sento in petto un freddo gelo (Conde, Elisetta, Carolina, Fidalma), e o quinteto do segundo ato, Deh, lasciate ch’io respiri (Carolina, Conde, Elisetta, Fidalma, Geronimo), além de cada Finale (Tu mi dici che del Conte e Deh, ti conforta, o cara), estiveram entre os grandes momentos da noite de estreia.

Por tudo o que foi aqui relatado, este Il Matrimonio Segreto resulta, na conta final, em uma deliciosa montagem de ópera, que merece muito uma visita não só dos aficionados do gênero, como também de jovens profissionais do canto, porque há ali pelo menos dois exemplos prontos de cantores de técnica refinada, cujas trajetórias merecem ser observadas com cuidado.

Jean William e Michel de Souza

 

Mulheres no comando

Em mais de 20 anos acompanhando nossas temporadas de ópera, esta foi apenas a segunda vez que pude apreciar uma ópera sob a direção musical e regência de uma mulher. A primeira oportunidade ocorreu no já distante ano de 1999, quando a maestrina Ligia Amadio regeu O Barbeiro de Sevilha no Teatro Municipal de Niterói. Quando este texto estiver publicado, a pianista e maestrina Priscila Bomfim já terá regido a última récita de Un Ballo in Maschera no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, mas, neste caso, terá sido apenas uma récita, já que a direção musical da produção coube a outro regente. Mesmo no exterior, entregar a direção musical e a regência de uma ópera a uma mulher ainda é um fato raro.

Já passou da hora de as mulheres quebrarem mais esta barreira. Como demonstrou agora Valentina Peleggi no Theatro São Pedro, elas podem sim, com seus talentos, conduzir uma ópera tão bem quanto qualquer homem. Na própria cidade de São Paulo, considerando apenas as produções a que pude ali assistir em 2017 e 2018 em seus dois teatros líricos, o melhor trabalho de regência de ópera realizado no período foi exatamente o de Peleggi.

 

Na foto do post (de Heloísa Bortz), da esquerda para a direita: Michel de Souza, Joyce Martins, Peppes do Valle, Ana Lucia Benedetti, Jean William e Caroline de Comi.

 

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