Escrito por em 2 maio 2018 nas áreas Crítica, Lateral, Minas Gerais, Música sinfônica

Obra célebre integra repertório do concerto de Victor Julien-Laferrière com a orquestra mineira.

 

É uma limitação ir a um concerto com uma ideia preconcebida de uma determinada obra. Mas existem determinadas composições que nos exigem uma “reprogramação estética” mais apurada. É o caso do Concerto para violoncelo, Op. 85, em mi menor, de Elgar, que teve na britânica Jacqueline du Pré seu principal ícone. Tal foi a densidade que a violoncelista imprimiu nesta música desoladora, que sua interpretação passou a ser paradigmática. Efeito, aliás, elevado a uma aura quase mística quando consideramos o infausto destino de Du Pré, morta precocemente por uma doença degenerativa.

Por tal, minha surpresa foi grande quando o jovem violoncelista francês Victor Julien-Laferrière subiu ao palco da Sala Minas Gerais, em 26 de abril, e atacou a indefectível cadência que abre a obra de Elgar com uma maciez quase camerística. Ganhador do importante concurso Rainha Elizabeth da Bélgica em 2017, Laferrière se fazia acompanhado da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, com o regente associado Marcos Arakaki. E, aos poucos, fui substituindo a expectativa de uma interpretação visceralmente leonina pela leitura que o solista convidava-nos a desfrutar: uma sonoridade mais limpa, com uma paleta de cores mais pastéis e uma gradação dinâmica que se permite apenas ao essencial. Nenhum arroubo, nenhum maneirismo afetado de jovem solista. Ao contrário, uma humildade musical rica, posto que verdadeira.

Para a fruição acontecer nestes casos, temos que nos despir do fetiche da espetacularização. Talvez tenha sido no elegíaco lento que esta proposta tenha se tornado mais explícita. Laferrière conquistou esta música pela possibilidade que ela oferece de introversão. Ao tocar “para dentro”, (re)educou nosso ouvido para uma sensibilidade mais devocional – e o Bach que se seguiu ao fim do concerto, como bis, apenas legitimou esta ideia emotiva. Eis a virtude de um bom intérprete: convidar-nos para novos mundos.

Mas a noite ainda reservaria muitas outras boas surpresas. Antes do concerto para cello, a orquestra resgatou a abertura de Genoveva, Op. 81, a única ópera do atormentado Schumann. A clareza estrutural com que regente e músicos a conceberam foi o mais evidente reforço da dramaticidade da música, com belas nuances obtidas, sobretudo nos naipes de violoncelos e segundos-violinos. Um Schumann raro!

Para a segunda parte, um Shostakovich clássico: Sinfonia n. 5 em ré menor, Op. 47. Como eu gosto das ambiguidades desta música, como resposta do compositor à censura sofrida por Stálin! Ela se molda à estética oficial russa, mas há um constante estado de tensão e ironia, por onde fluem veladamente insinuações da vanguarda musical que tanto desgostava o regime.

Um ouvinte atento sabe quando uma orquestra está tocando porque realmente ama aquela a música. Há um estado de excitação no ar, uma comunicabilidade maior entre músicos e regente e entre os próprios músicos. A Filarmônica estava justamente nesta frequência emotiva. Destaques para o agudo solo de trompa do 1º movimento, executado em um pianíssimo difícil e belo, e para o allegreto cínico e irônico, com as madeiras bem pontiagudas. No melancólico largo, clímax desta sinfonia, Arakaki mostrou-nos mais uma vez como conduz bem os fraseados, com riqueza de detalhes tal que cada compasso parece ter um coração próprio. No allegro non troppo, tudo se explode na majestosa (e sarcástica) fanfarra, coroada pelos aplausos entusiasmados da audiência.

Enfim: de Schumann, os tormentos do homem; de Elgar, os tormentos da guerra; de Shostakovich, os tormentos da política. Todos sublinhados pelo esmero do solista, do maestro e de seus músicos a conceber suas verdades e belezas para músicas tão intensas. Faz bem nos tempos tormentosos de hoje. Há esperança.


Concertos didáticos

Termino com um breve registro. Conheci o projeto Concertos para a Juventude, desenvolvido pela Filarmônica. A fórmula não chega a ser novidade, mas o resultado é bastante melhorado em relação a outras iniciativas do gênero. Em primeiro lugar, o repertório escolhido foge da óbvia “caixa de bombons musicais” (primaveras, quintas sinfonias, sinfonias 40, pequenas serenatas noturnas, guaranis, etc…) e está sempre um passinho à frente do público, tornando sua descoberta musical mais intrigante e edificante. Em segundo lugar, pela carismática interação do maestro Arakaki com a plateia, a quem jamais subestima.

 

Foto: Daniela Paoliello

 

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