Escrito por em 29 maio 2018 nas áreas Artigo, Lateral, Rio de Janeiro

Fim da Academia Bidu Sayão expõe visão imediatista e falta de perspectiva de futuro no Municipal do RJ.

 

Conforme prometido em nossa resenha da montagem da ópera Un Ballo in Maschera, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, o Movimento.com voltaria a abordar a decisão do presidente da Fundação Teatro Municipal, Fernando Bicudo, de encerrar as atividades da Academia de Ópera Bidu Sayão.

Nesse ínterim, porém, vieram à tona novas polêmicas envolvendo decisões do dirigente e/ou do secretário estadual de Cultura, Leandro Monteiro. Com isso, aprofundar e analisar apenas o encerramento da Academia seria insuficiente para traçar um panorama da gestão de Bicudo até aqui.

Procuramos, então, neste artigo em duas partes, abordar tais polêmicas que, por serem baseadas em decisões bastante questionáveis, acabaram se sobrepondo a qualquer outro aspecto da atual gestão do Municipal. Nesta primeira metade, trataremos apenas do desaparecimento da Bidu Sayão.

 

A Academia que apenas Fernando Bicudo desconhece

Criada durante a curta e elogiada gestão de João Guilherme Ripper à frente do Municipal, a Academia de Ópera Bidu Sayão tinha como um dos seus principais objetivos dar a oportunidade de jovens artistas líricos se aperfeiçoarem em sua arte, sendo o elo entre a escola de música/universidade e a atuação profissional.

Como ocorre em importantes teatros do mundo, é em espaços como esse que os jovens cantores começam a vivenciar a carreira de solista, pela proximidade proporcionada com cantores experientes, maestros e encenadores. Eventualmente, o aluno pode participar das produções da casa, geralmente em papeis menores, vivenciando assim a experiência de atuar em um palco profissional, apresentando-se ao público.

A importância da Academia pode ser medida pela ampla procura quando das audições para a escolha da sua primeira turma: cerca de 200 jovens cantores candidataram-se a uma vaga ali, para estudar com o tenor Eduardo Álvares (o único profissional contratado pelo Theatro Municipal para atuar na Academia, como professor e coordenador), com a pianista e maestrina Priscila Bomfim e com o bailarino, coreógrafo e preparador corporal João Wlamir. Esses dois últimos professores, até onde se sabe, por já integrarem os quadros do TMRJ, não representavam custos extras para a casa.

Durante a gestão de Ripper, que contou com o maestro André Cardoso na direção artística, os alunos da Academia chegaram até a se apresentar em espetáculos concebidos especialmente para eles, como concertos e óperas apresentadas em forma de concerto. Nem mesmo o deputado André Lazaroni, que assumiu a secretaria estadual de Cultura no começo de 2017 e exonerou Ripper da presidência do Municipal, interferiu nas atividades da Academia.

Por tudo isso, causou realmente espanto a decisão de Fernando Bicudo, muito ligado a Lazaroni, de encerrar as atividades da Academia de Ópera Bidu Sayão. A notícia foi publicada em nota da coluna da jornalista Marina Caruso, no jornal O Globo (edição de 25/04). Em depoimento à referida coluna, Bicudo disse que a Academia “nunca existiu formalmente, pois não tem contrato jurídico”. O dirigente disse ainda à coluna: “Quando assumi o Municipal, me comprometi a cuidar da programação. Não posso garantir que a academia vá continuar”.

O Movimento.com procurou então o Theatro Municipal, por meio de sua assessoria de imprensa, buscando maiores detalhes sobre a decisão de Bicudo. Questionada sobre o porquê de o presidente da Fundação ter decidido encerrar as atividades da Academia, a assessoria de imprensa respondeu, por e-mail: “Quando assumiu o cargo em janeiro de 2018, o presidente do Theatro Municipal não encontrou em funcionamento a Academia Bidu Sayão cujo último evento se deu em novembro de 2016”.

A pergunta seguinte, ao que tudo indica, foi respondida diretamente por Fernando Bicudo, pois está em primeira pessoa. Questionado sobre o custo da manutenção da Academia, o Municipal respondeu: “Desconheço, porque não há qualquer documentação a respeito”.

Também por e-mail, o ex-coordenador da Academia, Eduardo Álvares, rebate a versão do Municipal de que o último evento da Academia teria ocorrido em 2016. O tenor afirma que, durante a gestão de Lazaroni, “a Academia continuou trabalhando normalmente, só que se apresentou muito menos. Nos apresentamos no Aniversário do Theatro, no Festival de Nova Friburgo, e, se não fosse a Academia, acredito que não teria acontecido a Carmen do Peter Brook, já que das três Carmens do elenco oficial, duas, Cinthia Graton e Lara Cavalcanti, eram alunas da Academia”. E acrescenta que a Academia “funcionou até o final do ano passado e íamos continuar esse ano normalmente! (…) É claro que a Academia não funcionou nas férias, como também o coro, o balé e a orquestra”.

Sobre a ausência de documentação alegada pelo Municipal, Álvares informa: “O contrato de 2016 foi reconfirmado para 2017 por e-mail do André Cardoso. Tanto que continuamos funcionando normalmente todo o ano de 2017. Se o André Heller (diretor artístico do TMRJ durante a gestão de Lazaroni) não quisesse a Academia, teria descontinuado. Tem até retrato do Lazaroni com os alunos e nós, professores, no dia 14 de julho, aniversário do Theatro Municipal. Além do mais, me foi pago ¼ do meu contrato nas mesmas condições de 2016, como regia o e-mail do André Cardoso”.

Integrantes da Academia de Ópera Bidu Sayão e André Lazaroni

Baixo custo de manutenção

Perguntado ainda se saberia dizer quanto representava o custo da Academia para o Municipal, Álvares foi direto: “O custo, fora o meu contrato de R$ 60.000,00 por ano, era praticamente zero”. Ele reclama ainda da maneira como ocorreu o encerramento das atividades: “Se deu de maneira pouco civilizada. Ninguém foi avisado. Nem eu, nem a Priscila Bonfim e nem os alunos”.

Com base nas declarações de Eduardo Álvares, voltarmos a procurar a assessoria de imprensa do Theatro Municipal, perguntando se não houve aulas na Academia nos últimos meses de 2017, e se não havia um contrato entre o TMRJ e Álvares. Perguntamos ainda quando este contrato teria se encerrado. O Municipal respondeu: “Não foi encontrado nenhum contrato ou documento sobre a Academia ou sobre o vínculo de Eduardo Álvares com a Bidu Sayão referente aos anos 2017 e 2018. Solicitado, o próprio Eduardo não apresentou contrato. A atual direção do TM (SIC) não tem conhecimento sobre a forma com que foi criada a Academia, do ponto de vista administrativo, e nem sobre que tipo de vínculo ela mantinha com os seus profissionais”.

Sobre esse posicionamento da casa, Álvares ratifica tudo o que já disse antes, e acrescenta: “Me pagaram ¼ dos meus honorários de 2017, ou seja, configurou-se um vínculo. Deduz-se que a Academia existia e eu a coordenava e estava sendo pago”. Quanto à referida solicitação para apresentação do contrato, diz o tenor, de forma veemente: (…) Nunca me pediu para ver contrato e nunca nem me recebeu. O Bicudo é conhecido por viver em um mundo próprio, fantasioso. Se o Theatro Municipal deixa uma Academia funcionando nas suas premissas, alguém coordenando e sendo pago, e não tem nenhum documento, isso é uma falha administrativa grave da parte deles”. Eduardo Álvares arremata: “É bom lembrar que o próprio Bicudo foi à apresentação da Academia” (referindo-se à apresentação do dia 14 de julho de 2017).

Da Polônia, onde dirigirá a ópera La Finta Giardiniera, de Mozart, André Heller-Lopes, que foi diretor artístico do Municipal entre março e dezembro de 2017, confirma a versão de Eduardo Álvares. O encenador conversou conosco através do aplicativo Messenger: “A Academia continuou existindo e ativa da melhor forma que os problemas do ano passado permitiram”. Além das participações citadas por Álvares, Heller-Lopes lembra ainda “a participação da Beatriz Simões, que foi da Academia, na Norma, da Michelle Menezes em Carmina Burana e da Tatiana Nogueira como Micaela na Carmen”. O ex-diretor artístico do TMRJ conclui: “Quando eu cheguei em março de 2017 a Academia já existia. (…) As aulas, que eu saiba, ocorreram até pelo menos dezembro (…).

Por fim, cabe registrar que chegou ao nosso conhecimento que os alunos da Bidu Sayão enviaram uma carta a Fernando Bicudo solicitando a reversão da sua decisão do encerramento das atividades da Academia. Não tivemos acesso ao teor dessa carta. Questionado se respondeu aos alunos e se poderia divulgar publicamente sua resposta, o Municipal respondeu, em primeira pessoa: “Não tenho conhecimento de tal carta”.

Até o momento do envio deste artigo para publicação, ainda encontra-se ativo no site do Theatro Municipal do Rio de Janeiro o link para a apresentação dos alunos da Academia de Ópera Bidu Sayão, em novembro de 2017, no palco do Theatro Municipal. Acesse aqui (página original) ou aqui (em cache).

 

Análise

Fernando Bicudo parece estar sofrendo do mesmo mal que acomete a grande maioria dos “gestores” da chamada “coisa pública” no Brasil: ao assumir um posto público, a primeira coisa a fazer é diminuir o que foi feito pelos antecessores – mesmo aquilo que é elogiado por todos e tem ampla aceitação, como é o caso da Academia de Ópera Bidu Sayão.

A prova disso está em uma das respostas que recebemos do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e que deixamos propositalmente para citar nesta conclusão da primeira metade deste artigo em duas partes. Quando perguntamos se o presidente da casa não entendia que as atividades de uma academia de ópera, ligada diretamente a um teatro de ópera, seriam importantes para o desenvolvimento de profissionais do canto lírico em nosso país, o próprio Bicudo parece ter respondido (com texto em primeira pessoa): “Entendo a importância de um programa de formação profissional, tanto que uma das metas da minha administração é a recriação da extinta Escola de Canto Lírico Carmen Gomes, nos moldes da Escola de Dança Maria Olenewa, atualmente em atividade”.

Ora, se, como o próprio Bicudo nos responde, uma das metas de sua “gestão” é a recriação de uma escola de canto, por que não aproveitar a escola de canto que já existia no Municipal desde a gestão Ripper/Cardoso, aperfeiçoando-a e corrigindo eventuais falhas quanto à sua inserção na estrutura do Municipal? Se o presidente do Municipal quisesse trocar o nome da escola, que trocasse; se quisesse trocar o coordenador, que trocasse; mas simplesmente acabar com essa escola e mandar seus alunos passearem, não parece uma atitude nada louvável, nem mesmo inteligente.

Quando Bicudo afirma à jornalista Marina Caruso que seu compromisso é com a programação, demonstra uma visão imediatista e, ao mesmo tempo, falta de perspectiva de futuro. Tanto que as polêmicas que vieram à tona depois da notícia do encerramento das atividades da Academia (e que serão abordadas mais detalhadamente na segunda metade deste artigo) acabaram por levar Fernando Bicudo a uma severa contradição: que programação é essa com a qual ele tem compromisso? Essa que está suspensa porque ele gastou em uma única produção quase dois terços da única verba garantida que tinha para realizar espetáculos e concertos? Contradição inquestionável.

Como quase sempre ocorre no Brasil, um “gestor” joga fora o que foi feito por outro, só para poder chamar de “seu” um novo projeto que, no fundo, acabará sendo mais do mesmo. Com um detalhe: é melhor Bicudo se apressar, porque, até agora, ele não moveu um passo na direção dessa sua “meta” de criar a “Escola de Canto Lírico Carmen Gomes”, apesar de só ter garantia de ficar à frente do Municipal até dezembro deste ano. Para encerrar o projeto de outro gestor, porém, ele parece não ter pensado duas vezes e foi bastante “eficiente”.

 

Nota conjunta do autor e do editor: a segunda parte desse artigo, que abordará mais três polêmicas envolvendo o TMRJ, será publicada no dia 30 de maio, quarta-feira.

 

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