Escrito por em 22 maio 2018 nas áreas Canto, Crítica, Lateral, Rio de Janeiro

Com talento e repertório ousado, soprano Tati Helene encanta a Sala Cecília Meireles.

 

Nas competições esportivas de salto com vara, os atletas precisam utilizar as varas para saltar sobre o sarrafo sem derrubá-lo. O sarrafo é colocado em uma altura predeterminada pelos juízes, de acordo com as regras e o nível da competição. A cada rodada, o sarrafo é elevado um pouco mais, aumentando o nível de dificuldade, até que um único atleta vença a competição.

Há, também, um expediente curioso e interessante. Em determinado momento, geralmente quando a competição chega ao seu momento decisivo, um dos atletas pode solicitar aos juízes que elevem ainda mais o sarrafo e, se ele conseguir saltar perfeitamente nessa nova altura pedida por ele mesmo, joga uma grande pressão psicológica sobre os adversários ainda na competição. Foi exatamente isso, a propósito, o que fez o brasileiro Thiago Braz para garantir a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2016.

Lembrei-me de tudo isso assistindo ao recital da soprano Tati Helene, no último domingo, 20 de maio, pela série Sala Lírica, da Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro. Acompanhada pela pianista Priscila Bomfim, Helene elevou o “sarrafo”, especialmente na segunda parte de sua apresentação, e mostrou uma vez mais porque é uma das melhores cantoras brasileiras de sua geração.

Com um programa intitulado Mulher e Poder, a cantora interpretou peças em que importantes personagens femininas, seja na ópera ou em um ciclo de canções, exercem o poder de alguma maneira – seja o poder no sentido do governo (como o da rainha Elisabetta, de Roberto Devereux, ou o da princesa Turandot, por exemplo), seja a ambição pelo poder de uma Lady Macbeth, ou até mesmo o poder da sedução de uma Shéhérazade.

E foi exatamente com as três canções do ciclo Shéhérazade, de Maurice Ravel, sobre poemas de Tristan Klingsor, que Tati Helene começou sua apresentação. A primeira das canções, Asie, já foi um belíssimo cartão de visitas, interpretada com grande expressividade. Apenas o principal agudo, quase no final da peça, talvez tenha soado um pouquinho mais forte que o necessário. Em seguida, com La flûte enchantée, a soprano se manteve sempre expressiva, merecendo destaque ainda a clareza de sua dicção em francês. L’indifférent concluiu o ciclo de Ravel com correção.

Duas árias completaram a primeira parte do recital. Em Divinités du Styx, da ópera Alceste, de Gluck, a soprano demonstrou toda a segurança da sua técnica, abordando as melodias com grande musicalidade. Já Il est doux, il est bon, ária de Salomé na ópera Hérodiade, de Jules Massenet, serviu para reunir em uma só peça todas as qualidades exibidas por Helene até aquele momento.

E foi a partir daí que a soprano elevou o sarrafo, com a segunda parte do programa incluindo peças de estilos diversos e com alto grau de dificuldade. Com talento e habilidade, como uma atleta da voz, Helene passou bem pelos obstáculos que ela mesma colocou em seu caminho.

Foi um verdadeiro tour de force, começando com Vivi ingrato a lei d’accanto, de Roberto Devereux, de Donizetti, e seguindo com nada menos que Casta Diva, da Norma, de Bellini. Logo depois, a soprano atacou Vieni! T’affretta, precedida da leitura da carta enviada à esposa pelo personagem-título de Macbeth, de Verdi, e Io son l’umile ancella, da Adriana Lecouvreur, de Francesco Cilea. Todas foram abordadas com técnica refinada e excelentes afinação e projeção.

Sua voz de registro lírico spinto foi ágil ou densa, conforme as exigências das peças, com atenção e cuidado nos trechos que exigiam precisão no legato, e, ainda que se pudesse notar em algumas poucas notas de passagem um acabamento no qual poderia ter havido um pouquinho mais de capricho, o todo foi tão bem defendido, com uma sonoridade tão bem burilada, que a ressalva acaba parecendo mais rabugice de ouvinte chato que qualquer outra coisa…

Dessas quatro peças, destaco Casta Diva, pela rara precisão musical e expressiva, e por ter sido uma interpretação da célebre ária que se mostrou superior àquelas das duas sopranos que cantaram Norma no ano passado em Belo Horizonte (encenada) e no Rio de Janeiro (em forma de concerto).

Priscila Bomfim e Tati Helene

E ainda havia pela frente talvez a peça mais desafiadora da noite, estrategicamente guardada para a conclusão do programa: In questa reggia, a terrível entrada da princesa de gelo no segundo ato de Turandot, de Puccini. Uma passagem daquelas capazes de derrubar ou consagrar uma cantora. Tati Helene enfrentou o desafio com bravura, com graves e médios bastante sonoros e agudos impecáveis, além de uma musicalidade a toda prova. Estava consagrada e foi muito aplaudida pelo auditório.

Depois de todo esse peso, o bis reservou uma peça leve e saborosa: Meine Lippen, sie küssen so heiß, da opereta Giuditta, de Franz Lehár, que a artista cantou com brilho, graça e sensualidade, encerrando um recital muito especial (mais um!) na tarde de domingo na Sala Cecília Meireles. Priscila Bomfim acompanhou Helene durante toda a noite com suas mãos delicadas e musicais, e com a rica expressão que lhe é peculiar, servindo e dando o devido suporte à soprano.

Para quem perdeu o recital, mas estiver no próximo fim de semana em São Paulo, Guarulhos ou proximidades, fica a dica: Tati Helene é a estrela de uma produção da ópera Macbeth, de Verdi, que será apresentada no Teatro Adamastor, em Guarulhos, nos dias 25 (sexta, às 20h) e 27 (domingo, às 19h) de maio.

 

Escolhas duvidosas

A Sala Cecília Meireles, já não é de hoje, costuma ter uma programação mais consistente que a do Theatro Municipal do RJ. De 2017 para cá, até a programação lírica, que deveria ser o forte do Municipal, é mais qualificada na Sala, guardadas as devidas proporções.

De forma que é impossível entender a quantidade de lugares vazios na Lapa na tarde do último domingo. Estava ali cantando, só para efeito de comparação, uma artista muito superior tecnicamente à italianinha meia-boca que o Municipal trouxe para cantar em sua produção de Un Ballo in Maschera. Os preços dos ingressos eram bem acessíveis. E, no entanto, não se via na plateia sequer jovens cantores interessados em observar e prestigiar uma colega de profissão dotada de uma técnica que deveria ser merecedora de atenção e respeito.

Fica a impressão de que, no Rio, a maioria dos ouvintes (e até mesmo a maioria dos entendidos em música…) gosta mesmo é de ouvir porcaria, e vai à ópera ou a recitais mais por marquetagem, e menos em busca de qualidade. Azar de quem não foi à Sala.

 

Fotos: Victor Jorge

 

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