Escrito por em 5 maio 2018 nas áreas Canto, Crítica, Lateral, Rio de Janeiro

Recuperando-se de uma gripe, o tenor Atalla Ayan exibiu a elegância de sua arte no Municipal do Rio de Janeiro.

 

Priscila Bomfim e Atalla Ayan

Não, o tenor Atalla Ayan não repetiu na última quarta-feira, dia 2 de maio, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a exuberância do recital que havia dado no ano passado na Sala Cecília Meireles. Novamente acompanhado pela pianista Priscila Bomfim, dentro da série O Globo/Dell’Arte Concertos Internacionais, o cantor desta vez anunciou-se recuperado de uma recente infecção, mas ainda convalescente de uma gripe.

Naturalmente, a reconhecida exuberância da voz de Ayan acabou não se apresentando em sua plenitude. A inteligência artística do tenor o fez, no entanto, apostar em um programa mais modesto, porém de acordo com o seu período de recuperação. Se faltou exuberância, sobraram expressividade, domínio técnico, elegância e sensibilidade.

As duas primeiras peças do programa (a canção Adelaide, Op. 46, de Beethoven; e a ária Ombra mai fu, da ópera Serse, de Händel) serviram mais para aquecer a voz. Foi a partir de Il mio tesoro intanto, ária da ópera Don Giovanni, de Mozart, que o tenor disse a que veio, exibindo, além de uma afinação impecável, a sua técnica apurada em notas belamente sustentadas.

A primeira parte do programa se encerrou com três canções de Francesco Paolo Tosti: Ideale, Non t’amo più e Marechiare. As duas primeiras, cantadas em italiano, receberam interpretação sensível e expressiva; enquanto a terceira, cantada em dialeto napolitano (com ligeira escorregada na pronúncia na primeira parte da peça), foi abordada com paixão e precisão rítmica.

A segunda parte começou com o mesmo alto nível de expressividade, através da canção Dolente immagine, de Vincenzo Bellini, seguindo-se mais duas canções de Tosti: Vorrei morire e ‘A Vucchella. A segunda, sobre versos em napolitano do grande poeta italiano Gabriele D’Annunzio, mereceu interpretação sensível, com a voz de Ayan passeando docemente pela melodia irresistível de Tosti (novamente com ligeiros escorregões na pronúncia do dialeto).

O tenor encerrou seu recital com canções brasileiras: Lundu da Marquesa de Santos, de Villa-Lobos; Exaltação e Minha terra, do compositor paraense Waldemar Henrique; e, no bis, Azulão, de Jaime Ovalle (sobre versos de Manuel Bandeira) – todas interpretadas com elegância e refinamento.

Ayan foi sempre acompanhado pelo piano limpo, preciso e bastante musical de Priscila Bomfim. É difícil destacar uma peça em particular da pianista, considerando o apuro com que serviu o tenor durante todo o programa. Fazendo um esforço, fico com sua precisão rítmica dentro das variações de tempo de Marechiare e com a expressividade sensível com que a artista abordou as canções Ideale e Dolente immagine.

 

Comparação inevitável

Como o próprio Ayan admitiu ao conversar com o público, faltou ópera no repertório. Segundo o artista, ele preferiu não incluir no programa peças às quais ainda não poderia oferecer interpretação no nível esperado pelos ouvintes, devido à sua convalescença. Com isso, o recital como um todo foi morno, mas elegante e pleno de musicalidade.

Impossível, portanto, não comparar as atitudes de dois tenores: Atalla Ayan e o italiano Leonardo Caimi, protagonista (no elenco principal) da ópera Un Ballo in Maschera (leia crítica), em cartaz no próprio Municipal até domingo, 6 de maio (nessa data, com o elenco alternativo). Enquanto Ayan, mesmo em recuperação, fez arte em alto nível dentro de suas possibilidades, Caimi parece ter aceitado cantar uma parte que não conhece bem (ou para a qual a sua voz não é exatamente adequada) única e exclusivamente pelo cachê.

O público que conhece música foi respeitado por um e desrespeitado pelo outro. Essa é a diferença entre um verdadeiro artista e um simples cantor.

Priscila Bomfim e Atalla Ayan

 

Fotos: Renato Mangolin

 

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