Escrito por em 19 jun 2018 nas áreas Crítica, Lateral, Ópera, São Paulo

Montagem do Municipal de São Paulo para ópera de Strauss tem desempenho musical irregular.

 

Uma mulher madura, a Marechala Marie Theres’, tem como amante o jovem Conde Octavian Rofrano, e, aproveitando-se que seu marido foi caçar bem longe de casa, passa a noite com ele. Quando a cortina se abre, é de manhã, e os amantes conversam após uma noite de amor. Pouco depois, percebendo que a idade está chegando, a nobre mulher decide terminar o seu caso com Octavian, prevendo que ele provavelmente se interessará em breve por uma mulher mais jovem.

Entre as duas cenas narradas no parágrafo anterior, chega ao palácio o Barão Ochs von Lerchenau, um homem velho, rude e de modos grosseiros, que vem pedir à Marechala, sua prima, que lhe indique um cavalheiro para levar a rosa de prata, conforme as tradições da nobreza, à sua jovem noiva, Sophie von Faninal, com quem pretende se casar por interesse. Octavian é o indicado da Marechala, e quando ele vai à casa de Sophie para entregar-lhe o regalo do noivo, se apaixona por ela à primeira vista, confirmando os temores da Marechala. A comédia se desenvolve entre várias peripécias até a cena derradeira, quando a Marechala intervém para garantir a felicidade de Octavian e Sophie.

Este é basicamente o resumo da trama de Der Rosenkavalier (O Cavalheiro da Rosa), ópera em três atos de Richard Strauss sobre um libreto original de Hugo von Hofmannsthal, que é a segunda ópera da temporada 2018 do Theatro Municipal de São Paulo, onde ficará em cartaz até o dia 25 de junho.

 

Cavaleiro ou Cavalheiro?

Esta obra-prima de Strauss é normalmente intitulada em português como O “Cavaleiro” da Rosa, mas há séria controvérsia sobre a correção dessa tradução. O falecido crítico Marcus Góes defendeu certa vez aqui mesmo no Movimento.com que a tradução mais exata para a palavra alemã “Kavalier” seria “cavalheiro” e não “cavaleiro”. Tudo indica que Góes estava certo em sua avaliação e que a provável origem da tradução indevida em português venha do título em inglês, The Knight of the Rose, que também não é lá muito exato.

A soprano Camila Ribero-Souza, que mora e trabalha na Alemanha, explica: “A tradução adequada seria ‘cavalheiro’ – a palavra ‘Kavalier’ em alemão indica um homem de boníssimas maneiras e de educação altíssima e refinada, um ‘gentleman’. Em português, o ‘cavaleiro’ é um homem que monta um cavalo. Na época em que a ópera se realiza, no século 18, todos os homens montavam a cavalo, mas nem todos eram ‘gentlemen’ e tinham esta educação e elegância. ‘Cavaleiro’ em alemão se traduz como ‘Reiter’. Também não confundir com ‘Ritter’ (ou ‘Knight’ em inglês) que é um ‘cavaleiro’ com uma missão mais sagrada, uma figura mais ‘dignificada’ com uma missão a ser cumprida”.

Creio que não restem muitas dúvidas, portanto, de que a tradução correta do título desta ópera de Strauss seja O Cavalheiro da Rosa. Apesar disso, ninguém parece fazer muita questão de corrigir esse erro de décadas, a ponto de, no terceiro ato da ópera, as legendas do TMSP também utilizarem, mais de uma vez, o termo “cavaleiro” como tradução de “Kavalier”.

 

Quem assina a escalação do baixo?

Quando um teatro de ópera decide apresentar esta ópera de Strauss, a primeira preocupação que se deve ter é quanto à escolha do elenco, pois não é qualquer cantor que é capaz de interpretar a obra. O Movimento.com já perguntou ao TMSP quem é o responsável por escalar os elencos de suas óperas, uma vez que a Casa não possui um diretor artístico, mas sim uma comissão artística da qual não faz parte nenhum especialista em ópera ou em vozes. O TMSP, infelizmente, não se dignou responder na ocasião.

Por isso, não sabemos quem foi o (ir)responsável pela escalação do baixo alemão Dirk Aleschus para interpretar o Barão Ochs. O personagem é central na trama, e é em torno dele que ocorrem quase todos os fatos cômicos e que fazem a ação evoluir. Sem um baixo à altura do papel, a ópera fica muito comprometida. E Aleschus, embora tenha uma ótima presença cênica, tem uma voz que se apresenta já bastante desgastada.

Barão Ochs e Sophie

 

Na estreia de 15 de junho, todo o primeiro ato do baixo foi praticamente inaudível. No segundo e no terceiro atos, ele melhorou um pouco a projeção de sua voz, mas ainda assim, permaneceu bastante aquém do que seria minimamente aceitável. Faltou-lhe, sobretudo, musicalidade. Seu extremo grave também não se ouvia; a região aguda, de pouco brilho; e os médios extremamente burocráticos. Um cantor, definitivamente, sem condições vocais adequadas para enfrentar a difícil parte do Barão.

Mais culpado que Aleschus por sua performance vocal sofrível foi certamente quem o escalou, mas, afinal, quem o escalou? Pois é, não sabemos, pois o Theatro Municipal de São Paulo não informa quem é o seu “especialista” em ópera e em vozes. Essa é uma informação do mais alto sigilo. Por que, não se sabe. Inicialmente, quem estava escalado para a parte do Barão era o baixo brasileiro Savio Sperandio, que foi substituído por Aleschus há cerca de um mês, sem maiores explicações por parte do TMSP.

Pelo menos, as cantoras escaladas para as demais partes importantes da ópera salvaram um bom bocado da récita, como já veremos a seguir, mas é forçoso dizer logo de uma vez que um Cavalheiro da Rosa sem um Barão Ochs de verdade resta seriamente comprometido.

A soprano russa Elena Gorshunova não chegou a ser uma Sophie surpreendente, mas cumpriu bem a sua parte, com boa voz e presença jovial, como requer a personagem. Já a soprano argentina Carla Filipcic Holm fez uma ótima Marechala. Apesar de algumas poucas frases lhe soarem desconfortáveis, sobretudo na primeira metade do primeiro ato, a artista ofereceu uma interpretação bastante satisfatória e bem dosada. Todo o final do primeiro ato foi por ela interpretado com grande sensibilidade. Quando voltou à cena na parte final do terceiro ato, uma vez mais Holm demonstrou-se expressiva e musical.

Francesconi como Octavian

A mezzosoprano Luisa Francesconi, que tem grande experiência em interpretar personagens masculinos, viveu um excelente Octavian. Exalando musicalidade, a artista dominou o palco, seja ao lado da Marechala, do Barão ou de Sophie. Sua participação na cena final do primeiro ato ao lado da Marechala, bem como suas contribuições tanto na cena da entrega da rosa de prata no ato intermediário, quanto em toda a sequência derradeira, revelam uma artista madura e ciente das suas possibilidades.

Das partes menores, o grande destaque foi o tenor Fernando Portari, que, em uma participação especialíssima, cativou no meio do primeiro ato os ouvidos do público, que, àquela altura, já haviam sido bem castigados pelo inaudível Barão Ochs. Matheus França deu boa conta do comissário de polícia, enquanto Renato Tenreiro foi mais satisfatório como o estalajadeiro que como o domador de animais.

Magda Paino fez uma Annina de boa presença, com mais facilidade nos graves que nos agudos. A voz de Paulo Queiroz soou muito forçada na parte de Valzacchi. Rafael Thomas fez um discreto Faninal. Discreto também esteve Miguel Geraldi como os mordomos da Marechala e de Faninal.

Elisabete Almeida ofereceu uma Marianne bastante insatisfatória e pouco audível. Márcio Marangon não comprometeu como o Notário. O mesmo vale para a modista de Débora Faustino. Gabriella Rossi, Laiana Oliveira e Elaine Martorano estiveram bem como três órfãs.

Como o desempenho vocal geral dos solistas, Roberto Minczuk também oscilou na condução da Orquestra Sinfônica Municipal. O regente parece ter se concentrado nas principais cenas da ópera, como todo o final do primeiro ato, a cena da entrega da rosa de prata (com o sublime motivo da rosa) e o final do terceiro ato. Nessas passagens, a OSM soou muitíssimo bem. No restante da obra, porém, foram perceptíveis alguns desencontros e também uma sonoridade bem menos burilada. O Coral Paulistano, preparado por Naomi Munakata, esteve bem.

 

Encenação eficiente

O encenador argentino Pablo Maritano, que já executou ótimos trabalhos no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, oferece em São Paulo uma leitura eficiente para esta joia de Strauss, com atenção à boa parte das inúmeras rubricas do libreto e com poucas e pontuais liberdades. A concepção de Maritano tem uma roupagem tradicional, com algumas pitadas de contemporaneidade, sobretudo na pantomima do terceiro ato. Tudo funciona bem e sua direção de atores, como sempre, é muito bem realizada.

Os cenários de Italo Grassi são bastante adequados e funcionais. Utilizando-se de mecanismo giratório, o cenógrafo amplia a ambientação e as possibilidades cênicas. Os figurinos de Fábio Namatame seguem a linha da produção, mesclando trajes tradicionais com outros mais caricatos. E a luz de Caetano Vilela completa bem uma produção que merece ser guardada para possíveis reposições – de preferência, com um baixo mais qualificado.

 

Fotos: Fabiana Stig

 

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