Escrito por em 10 jun 2018 nas áreas Crítica, Lateral, Música de câmara, Rio de Janeiro

Em recital do pianista Arthur Moreira Lima, apenas um Chopin se salva.

 

Prestes a completar 78 anos de vida (em 16 de julho), o pianista carioca Arthur Moreira Lima tem uma carreira de êxitos, que começou aos 6 anos, nas aulas de piano com a professora Lúcia Branco (que também ensinou Tom Jobim e Nelson Freire), e despontou com sua consagração na Competição Internacional de Piano Frédéric Chopin (2º lugar, 1965) e na Competição Internacional Tchaikovsky (3º lugar, 1970).

Apelidado de Pelé do piano (revista La Suisse), levou a música brasileira aos quatro cantos do mundo (como na primeira audição do Concerto n. 1, de Villa-Lobos, em países como Japão, Rússia, Áustria e Alemanha), bem como a música de concerto a tantos lugares do Brasil (como na turnê do projeto Piano pela Estrada, que continua até hoje).

Um artista de tamanha envergadura e dono de tão brilhante trajetória, Moreira Lima simplesmente não combina com o concerto realizado no sábado, 9 de junho, na Sala Municipal Baden Powell, no Rio de Janeiro. Intitulado De Bach a Pixinguinha, o recital em quase nada representa um artista com reconhecido domínio técnico e inegável relevância artística.

Outros espaços da cidade seriam mais merecedores de um músico de tanta importância – a Sala Baden Powell, mesmo instalada em Copacabana, coração da Zona Sul carioca, tem instalações descuidadas e acústica inapropriada para um recital de piano solo.

 

Hooked on classics

O pior, no entanto, é o conceito do recital. O programa mistura peças de concerto e clássicos da MPB, com o objetivo de “levar a todos aquela música que vem, através dos tempos, encantando qualquer ouvinte, desde que lhe dê oportunidade de conhecê-la”. Não reside na mistura o problema, mas, antes, na transformação das composições (sejam clássicas ou populares) em interpretações sem estilo, apelativas e popularescas. Isso resvala, muitas vezes, em música de churrascaria, com grave desrespeito ao espírito das obras executadas.

Tocar J. S. Bach (Jesus, Alegria dos Homens) como se fosse um autor romântico é desrespeito ao compositor, ao intérprete e ao público – que, ainda que seja leigo, não merece ser enganado com um discurso de “popularização da música de concerto” que, na verdade, se traveste de banalização da obra. A questão não é purismo ao Barroco ou a qualquer outro movimento musical, ou reverência a uma suposta aura “séria” ou “sagrada” da música de concerto, mas, acima de tudo, é de respeito à capacidade da audiência de compreender, sentir e sensibilizar-se com a riqueza particular de cada composição, seja o arroubo romântico da Polonaise em lá bemol maior, Op. 53 – Heroica, de F. Chopin (a única peça bem interpretada da récita), a melancolia portenha de Adiós, Nonino, de Astor Piazzolla; ou a brejeirice de Odeon, de Ernesto Nazareth.

Moreira Lima tocou a maioria das peças do repertório como um romântico anacrônico, incorporando glissandos e arpejos de efeito fácil em obras tão únicas e especiais como a Sonata para piano n. 14, Op. 27, n. 2 – Ao Luar, de Beethoven (tocada com descaso); Trenzinho do Caipira + Polichinelo, de H. Villa-Lobos; ou uma fantasia-concerto de própria cepa sobre Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. Essas e as demais obras do programa têm características próprias, que contribuem inequivocamente para a beleza da composição – características, em sua grande parte, desprezadas na apresentação.

Como se não bastasse, uma iluminação feérica, com fumaça cênica e raios de luz em ziguezague sobre a plateia, completavam o desacerto que, aliado à pirotecnia malabarística que vinha do teclado, não representava, em nada, a grandeza artística do intérprete ou dos compositores, cujas obras, em essência, não estavam ali. Quem saiu de casa para ver um recital do quilate de um concerto da Filarmônica de Berlim deparou-se, atônito, com uma apresentação da série Hooked on Classics.

 

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