Escrito por em 21 jun 2018 nas áreas Crítica, Lateral, Ópera, Rio de Janeiro

Baixo-barítono Licio Bruno dirige e protagoniza divertidíssima remontagem capixaba de O Caixeiro da Taverna, ópera de Guilherme Bernstein.

 

Considerado um dos maiores dramaturgos brasileiros, o carioca Luís Carlos Martins Pena (1815-1848) é uma referência nacional quando se trata de comédias de costumes – aquele tipo de peça que faz sutil crítica social por meio do humor e da inteligência. Os personagens geralmente se metem em imbróglios porque se envolvem em atos ou amores ilícitos, ferindo os códigos de conduta de sua sociedade e seu tempo.

O Caixeiro da Taverna é um bom exemplo da produção de Martins Pena. Escrita e levada à cena pela primeira vez em 1845, e publicada dois anos depois, conta as peripécias do ambicioso e trapaceiro Manoel Pacheco, português cujo maior sonho é ser sócio de sua patroa, Angélica Pereira, dona da taverna, que morre de amores por ele. A ambição desenfreada do caixeiro o coloca em situações hilariantes.

Em 1998, ano em que se celebrou o sesquicentenário de morte do autor, a peça foi objeto de projeto musical do professor, regente e compositor carioca Guilherme Bernstein, agraciado pela Secretaria Municipal de Cultura, por meio do programa de bolsas Rioarte, para transpor a obra para o gênero operístico. Em formato de câmara, com um pequeno conjunto de instrumentistas (cordas, flauta, clarineta e fagote), a ópera estreou em 2006, no Theatro São Pedro (SP), com regência do próprio compositor. No primeiro elenco, sob direção de André Heller-Lopes, estavam Homero Velho, Flávia Fernandes, Celinelena Ietto, Geilson Santos e Murilo Neves.

Onze anos depois da estreia, o grupo capixaba Ensemble Coletivo das Artes foi contemplado pelo Fundo de Cultura do Estado do Espírito Santo para produzir nova montagem do espetáculo. Após récitas no 2º Festival Sesi de Ópera, em Vitória, em outubro de 2017, O Caixeiro da Taverna aportou na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, para apresentações em 15 e 16 de junho.

No palco, um conjunto de câmara com músicos de primeira linha que atuam no Rio de Janeiro: Felipe Prazeres e Priscila Plata Rato (violinos), Marco Catto (viola), Janaina Salles (violoncelo), Gael Lhoumeau (contrabaixo), Sofia Ceccato (flauta), Marcos dos Passos Jr. (clarinete) e Simon Béchemin (fagote). Na batuta, mais uma vez, Guilherme Bernstein, também diretor musical.

O cenário era simples, mas eficiente – biombos delimitaram a área cênica do interior de uma taverna no Rio de Janeiro na década de 1840, decorada com mesa, cadeiras, estante de bebidas, cesto de legumes, bancada com queijo e aguardente, e, naturalmente, uma caixa registradora. Os figurinos seguiam a mesma linha: simplicidade e eficiência.

O elenco, em sua maioria, impressionou pela desenvoltura cênica e pela a verve cômica, que provocou sonoras risadas na plateia. O primeiro a entrar na ribalta foi o baixo-barítono carioca (atual morador de Vila Velha/ES) Licio Bruno. No ano em que completa 30 anos de carreira (sua estreia ocorreu no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, como Alcindoro, em La Bohèmerelembre sua carreira), o artista garante seu lugar como uma das majestades do canto lírico brasileiro. Sua dicção é claríssima – o que faz toda a diferença em uma ópera com letra em português – e sua emissão, irretocável. Seu canto corre com rapidez e brilho, levando emoção a todos os cantos da Sala. Além da técnica vocal, consciência corporal no palco ajudam-no a compor o personagem com verdade e elegância.

Os “feras” Licio Bruno e Adalgisa Rosa

 

A mezzosoprano Adalgisa Rosa (também produtora da montagem) viveu a viúva Angélica, fogosa ama do ambicioso caixeiro. É dona de timbre agradável e educado, muito bem projetado, e tem dotes versáteis de atriz (fez graça nesta montagem, mas espumava de ciúmes como uma das encarnações de Medeia, na ópera homônima de Mario Ferraro apresentada na Bienal de Ópera Atual em 2016 – leia crítica).

Renato Gonçalves (Francisco) é tenor de bonita voz, mas, na récita de 16 de junho, a falta de metal na emissão prejudicou tanto o brilho vocal como a compreensão das palavras. Seu maior mérito nessa noite foi a graça: um Oscarito da ópera, que arrancou gargalhadas com a falta de jeito de seu personagem.

O tenor Renato Gonçalves

 

O baixo Alessandro Santana (Quintino) foi o cantor com menor rendimento na récita. Mesmo que o personagem não tenha humor, um cantor-ator teria conseguido criar situações cômicas. Ainda que tenha timbre agradável e interpretação correta, apresentou pouco brilho. Pouco se compreendeu de suas falas.

A soprano Flavia Fernandes – a artista convidada da produção capixaba e única integrante da montagem anterior – encarnou Deolinda. Sua excelente técnica e sua capacidade interpretativa a levaram a um dos momentos mais líricos do espetáculo: a ária Onde estará o meu amor?, partitura a ela dedicada pelo compositor. Ao lado do protagonista Licio, cantou lindamente o dueto Quando o sol estender manhã pela cidade, aplaudido em cena aberta.

Licio Bruno e Flavia Fernandes em dueto de amor

 

Tadeu Kuzendorff quase roubou as cenas como Antônio, personagem sem diálogos, cuja participação, por sugestão do compositor, pode ocorrer ad libitum. O ator criou um gestual e expressões faciais coerentes e hilárias – mesmo quando apenas atravessava a cena, era muitas vezes difícil tirar os olhos de sua composição elaborada e divertida.

O mérito pode ser compartilhado com a direção cênica de Licio Bruno, simples e eficaz, que acompanha, sem firulas, a música fluida, colorida e elegante de Bernstein – também autor do libreto, que mantém, quase em sua totalidade, o brilhante texto de Martins Pena.

Era perceptível como o amor à música guiou esta nova montagem de O Caixeiro da Taverna, feita no Espírito Santo e que começou a ganhar o mundo a partir do Rio de Janeiro. A encenação é honesta, a música é deliciosa e os músicos e cantores envolvidos esbanjam talento e bom humor. Todo mundo parece se divertir – inclusive (ou principalmente) a plateia.

 

Fotos: Vitor Jorge

 

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