Escrito por em 17 jul 2018 nas áreas Crítica, Lateral, Minas Gerais

Assistir a um concerto de premiação de novos talentos encerra em si uma experiência vital e surpreendente.

Mesmo preparado, não tive como fugir do clichê: a 6ª edição do Concurso Jovens Solistas, promovido pela Fundação Clóvis Salgado/Palácio das Artes,  correalizado pela APPA – Arte e Cultura e coordenado pelo maestro Roberto Tibiriçá, foi “promessa de vida no meu coração”.

Os nove melhores colocados se revezaram em um programa longo, porém interessante e versátil. Wellington Miranda (Sarzedo-MG) emprestou ao “Concerto para Trombone, de Grondahl” um controle maduro da dinâmica, equilibrando-se muito bem com a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais/Tibiriçá. Deu gosto ver as notas agudas se encaixarem na medida em que a embocadura foi se aquecendo. No declamativo 2º movimento, suas articulações em legato explicitaram a sutileza feérica do instrumento, tão raro como solista.

Depois foi a vez de um garotinho chamado Giovanni Martins (Ouro Branco-MG) fazer misérias com seu oboé. Que coragem apresentar o “Concerto de Antonio Pasculli, sobre temas da ópera La Favorita, de Donizetti”. O fraseado presente com classe (leia-se professor Alexandre Barros). Já nas partes virtuosísticas, o nosso “Mbappé do Oboé” driblou sem cair toda a sorte de escalas, ornamentos, intervalos e articulações. E comemorou como um gol ao final, visivelmente emocionado e deixando muitos do mesmo jeito.

E que belo timbre de soprano lírico – talvez lírico-ligeiro – de Ana Paula Machado (Curitiba-PR)! Com a ária “C’era una volta un príncipe”, de O Guarani, de Carlos Gomes, manteve uma afinação impecável para a difícil parte, com exigências agudas perigosas. Por sua vez, Robert William (Belo Horizonte-MG) foi um Figaro muito fiel à estética mozartiana, com nuances particulares temperadas no ponto certo. Seu “Non piu andrai” nos permite especular com bom feeling sobre o futuro deste barítono de apenas 17 anos.

Melina Peixoto (Belo Horizonte-MG) defendeu “Chi il bel sogno di Doretta”, da ópera La Rondine, de  Puccini com personalidade e registros altos, médios e baixos muito bem equalizados. O mesmo se pode dizer de Deborah Burgarelli (Belo Horizonte-MG), antes mezzo e agora um soprano (spinto?). Sua “Vissi D’arte” comove, mas nunca flerta com os exageros melodramáticos perigosamente possíveis à Tosca, de Puccini. Voz imensa, para ser observada de perto. E no que depender de Ariadna Fernandes (Curvelo-MG) a tradição de teatro verdiano do Palácio das Artes tem futuro assegurado. A intensidade de sua “Pace, pace mio Dio”, de A Força do Destino, foi arrebatadora.

Intervalo e tivemos a oportunidade de ouvir Rafael Ruiz (Manhuaçu-MG) solando o “Concerto para Piano e Orquestra Nº 2”, de Rachmaninoff. Um pouco hermético no Moderato, cresceu em sua apresentação; fluidez intimista a partir do conhecido Adágio, sempre com um domínio concentrado do instrumento. Mais nuances do que arroubos, como bem cabe à peça. Gostaria de ouvi-lo em Mozart, Beethoven ou Schubert…

O encerramento coube a Eron Calabrezi (Catanduva-SP) regendo a Sinfônica de Minas Gerais em “Os Prelúdios”, de Liszt. Gestual claro e uma ideia na cabeça. É mais do que suficiente para reconhecer o bom caminho que trilha. Não à toa, é aluno do maestro Tibiriçá, que regeu todas as demais peças com zelo, sempre vibrando com os jovens solistas ao final de cada peça. A generosidade do regente é também musical, por exemplo, quando se preocupou em não deixar a orquestra encobrir algumas passagens em piano das sopranos solistas. Coisa de quem entende a coletividade do fazer musical.

Registre-se ainda a participação convincente do Coral Lírico de Minas Gerais com o coro “Aspra, Crudel”, de O Guarani. E a entrega de certificados de Prêmio Revelação para Isadora Moreira (violino) e Elias Magalhães (baixo).

Enfim, neste Brasil onde tudo conspira para a nulidade do fazer artístico, foi revigorante perceber a seriedade e obstinação dos nossos jovens talentos, mérito que divido com seus professores. Faço minhas as palavras do maestro Tibiriçá: “o concurso valoriza não só o jovem, como também premia indiretamente os professores, que são os educadores responsáveis por esse sucesso”.

Belo Horizonte tem perseverado em promover este tipo de premiação. Além da Sinfônica, a Filarmônica mineira também tem tido muito êxito em iniciativas semelhantes. E assim vamos, de esperança em esperança, conspirando por um futuro melhor.

 

P.S:

1 – Gostaria de agradecer ao grande maestro Sílvio Viegas, diretor artístico da orquestra, pela gentileza de ter providenciado um programa impresso para este jornalista afoito, que chegou em cima da hora.

2 – Na foto do post, os vencedores do concurso.

 

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