Escrito por em 18 jul 2018 nas áreas Crítica, Lateral, Ópera, Rio de Janeiro

Em produção modesta, mas bem cuidada, ópera de Mozart passa bem pela Cidade das Artes

Rafael Siano e Vittório Gava

Wolfgang Amadeus Mozart contava apenas 12 anos de vida quando compôs, em 1768, Bastien und Bastienne, sua terceira ópera, a segunda no estilo Singspiel (que mescla trechos falados às passagens musicais) – ele havia composto as duas primeiras quando tinha 11 anos!

A obra narra as desventuras de Bastienne, uma jovem camponesa que perde seu amado, Bastien, para uma nobre dama. Almejando reconquistá-lo, ela pede ajuda a Colas, um mago. Este orienta, a seu modo, os dois amantes, até a reconciliação final. Se, claro, Bastien está muito longe das grandes obras-primas que o compositor escreveria para o palco, como Le Nozze di Figaro e Don Giovanni, impressiona a qualidade que já pode ser percebida na música composta pelo Mozart ainda criança.

Produzida pela Kether Arts, a montagem apresentada na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, nos dias 14 e 15 de julho foi bastante simples, mas bem cuidada. No exíguo espaço do Teatro de Câmara, a encenação de Manuel Thomas se concentrava principalmente na direção de atores, atingindo um resultado satisfatório. A opção pela utilização de um ator mirim representando Mozart, se não era original, mostrava-se acertada como elemento de ligação para uma verdadeira releitura, que transportou a ação para o Rio de Janeiro e que mesclou os números musicais originais em alemão com diálogos em português que foram não apenas traduzidos, mas também adaptados.

O cenário de Maria Isabel Magalhães, formado basicamente por quatro módulos com estampas de partituras, mostraram-se funcionais. Os figurinos de Mia Carvalho, além adequados, tinham um leve toque caricato, e a correta luz de Júlia Requião fez o que pôde no diminuto espaço do Teatro de Câmara.

Formada por oito instrumentistas (incluindo a pianista Eliara Puggina), a Atlantis Opera Orchestra, conduzida por Evandro Rodriguese, no geral esteve bem na récita do dia 15, mas é preciso registrar que aprimorar a sonoridade do conjunto é um trabalho que ainda levará tempo – o que é normal em se tratando de uma pequena orquestra que começou suas atividades neste ano de 2018.

Os solistas apresentaram-se equilibrados. A soprano Chiara Santoro deu vida a uma inocente, engraçada e musical Bastienne, enquanto o tenor Rodrigo Sammarco (Bastien) exibiu boa atuação cênica. Seu bom material vocal ainda pode evoluir. O barítono Rafael Siano interpretou Colas com voz segura e boa presença. O ator Vittório Gava viveu Mozart com desenvoltura.


Gianni Schicchi em dezembro

Bastien und Bastienne foi a segunda ópera apresentada este ano na Cidade das Artes, depois de La Serva Padrona. O projeto da Kether Arts de levar óperas ao espaço da Barra da Tijuca finalmente preenche uma lacuna na instituição, já que umas das funções originais para as quais a Cidade das Artes foi construída (quando ainda era chamada de Cidade da Música) era exatamente a de apresentar espetáculos de ópera.

Em dezembro, essa primeira e ainda modesta temporada lírica da Cidade das Artes será encerrada com a ópera Gianni Schicchi, de Puccini (aquela da célebre ária para soprano O mio babbino caro). Não é nada, não é nada, a Cidade das Artes já apresentou este ano mais óperas no Rio de Janeiro que o Theatro Municipal…

 

Foto do post (divulgação): Chiara Santoro, Rafael Siano e Rodrigo Sammarco

Foto inserida no texto: Rafael Siano e Vittório Gava

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