Escrito por em 12 jul 2018 nas áreas Musical, Programação, Rio de Janeiro

Nara Leão tem a vida contada e cantada em musical.

 

 Nara – A menina disse coisas é um musical escrito pelo jornalista Hugo Sukman em parceria com o diretor e ator Marcos França, mesma dupla do elogiado Deixa a dor por minha conta, sobre Sidney Miller.

A personagem é vivida por Aline Carrocino, também produtora da montagem, que foi idealizada pelo jornalista Christovam de Chevalier. Aline divide a cena com França, que personifica os papéis masculinos, e mais cinco músicos. A montagem tem  direção artística de Priscila Vidca e musical, de Guilherme Borges.

O texto aborda momentos marcantes da vida da artista entremeando-os com mais de 15 canções, todas significativas do seu repertório. O ponto de partida é um show de Carlos Lyra , nos idos dos anos 80, quando o cantor é surpreendido pela presença de Nara na plateia. Ela sobe ao palco e, na hora de cantar, tem um dos seus lapsos de memória, cada vez mais e mais comuns. Essa característica é o artifício para a primeira das muitas mudanças de tempo na trama.

E a vida da cantora começa a ser esmiuçada, sem, contudo, seguir uma ordem cronológica. Entre as passagens, sua emancipação aos 16 anos (seu pai defendeu a independência feminina) e seu encontro com Ronaldo Bôscoli, com quem romperia relações em seguida (e consequentemente com a bossa nova), a descoberta do aneurisma, sua aproximação do samba de morro, das canções de protesto, da Tropicália e o exílio na França, de onde volta apaziguada com a bossa nova e com outros clássicos do cancioneiro brasileiro, os quais visitaria já consagrada.


Título é tirado de poema de Drummond escrito para ela

Nara tinha o hábito de anotar alguns de seus sonhos num caderno. E parte desses registros também foi usada pelos autores, que os costuram a declarações da artista, muitas delas dadas à grande imprensa, além de fontes outras como o poema escrito por Carlos Drummond de Andrade para a cantora – e do qual os autores tiraram  o título para o musical. Drummond é, aliás, um dos muitos personagens interpretados por Marcos França, que dá voz também ao pai de Nara e a nomes como Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, entre outros tantos.

E as dualidades enfrentadas por Nara estão todas ali. Talvez a principal delas seja entre a figura humana e a persona artística. “Não sou musa de nada!”, declara num dado momento. E em se tratando de um musical, as canções são peças-chaves. O roteiro inclui temas como Primavera (Lyra e Vinícius), Carcará (João do Vale, do emblemático show Opinião), Se é tarde me perdoa (Lyra e Bôscoli) e canções daquele que foi o compositor mais presente no repertório da intérprete: Chico Buarque. São músicas como João e Maria, Soneto, História de uma gata (do musical Os saltimbancos, apresentado no hoje extinto Canecão) e, claro, A banda, a primeira das muitas canções que gravaria do autor. O compacto com essa música, vale dizer, vendeu 50 mil cópias – feito que desbancou Frank Sinatra na época.

Desbancar o cantor favorito de Bôscoli foi apenas um dos muitos feitos de Nara Leão. Uma cantora que abriu portas para suas colegas de geração e às vindouras. Uma mulher que não se deixou calar ou abater – nem nos seus momentos finais. Se alguém perguntar por ela, é só dizer que está logo ali, no Teatro da UFF.

O Brasil conheceu uma cantora que foi popular, contundente e influente. Além de plural, como outras só seriam nos anos 1990, mas sobretudo corajosa, tanto por dar voz a canções que criticavam o governo, quanto por suas declarações, muitas delas contra o governo militar de então. Essa cantora, única por ser tão multifacetada, era Nara Leão, que saiu de cena em 1989, prematuramente.


Aline Carrocino

É atriz, cantora, bailarina e produtora, tendo atuado em importantes musicais, tanto para o público adulto quanto para o infantil. Dentre as produções em que atuou estão “Noel, feitiço da Vila”, “Muita mulher para pouco musical”, “Novelas, o musical”, “Todo vagabundo tem seu dia de glória”, “Luiz e Nazinha” e “Bituca para crianças”, que apresenta aos pequenos as obras de Luiz Gonzaga e Milton Nascimento, respectivamente. Pelo primeiro ganhou o prêmio de Melhor Atriz do Centro Brasileiro de Teatro para a Infância e Juventude.


Marcos França

É ator, diretor e dramaturgo. É um dos criadores do Núcleo Informal de Teatro, dedicado à pesquisa de nomes da música brasileira, com o qual, desenvolveu os musicais “Antônio Maria –  Noite é uma criança” (2004), “Ai, que saudades do Lago” (2006) e “Aquarela do Ary” (2007/2008). Criou e atuou nos projetos “Na rotina dos bares” (2012), com direção de Ana Paula Abreu, e “Chabadabada” (2015), com texto de Xico Sá, músicas de Wando e direção de Thelmo Fernandes.


Ficha técnica:

Idealização: Christovam de Chevalier
Dramaturgia: Hugo Sukman e Marcos França
Direção: Priscila Vidca
Direção Musical: Guilherme Borges
Elenco: Aline Carrocino e Marcos França
Músicos: Ralphen Rocca, Nélson Freitas, Leo Bandeira, Erick Soares, David Nascimento
Iluminação: Paulo César Medeiros
Cenário: Pati Faedo
Figurino: Paula Ströher
Desenho de som: Branco Ferreira
Visagismo: Vitor Martinez
Programação Visual: Cacau Gondomar
Fotografia: Janderson Pires
Produção executiva: Heder Braga
Direção de Produção: Aline Carrocino (Alce Produções) e Sandro Rabello
Realização: Alce Produções, Diga Sim Produções e Guilherme Borges

 

Foto: Janderson Pires

 

 

SERVIÇO:

 


Peça “Nara – A menina disse coisas”

 

20, 21 e 22 de julho, às 20h

Teatro da UFF (Rua Miguel de Frias, 9, Icaraí – Niterói. Tels.: 21 3674-7511 e 3674-7512)

 

Ingressos: R$ 50, com meia-entrada para estudantes e pessoas com mais de 60 anos

 

Indicação: Livre

 

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