Escrito por em 8 jul 2018 nas áreas Crítica, Lateral, Ópera

Ópera de Händel com vozes desiguais foi apresentada no Theatro São Pedro.

 

Uma feiticeira é conhecida por encantar jovens guerreiros com suas artes mágicas, tornando-os seus amantes. Conforme enjoa de cada um deles, transforma-os em feras e os substitui pelo próximo que desperta seu desejo. Falando assim, parece até uma trama criada por uma feminista dos nossos dias, mas, na verdade, essa mulher “prafrentex” e um tanto malvada é a protagonista de Alcina, uma ópera em três atos de Georg Friedrich Händel estreada em 1735 – e que foi o segundo título apresentado pelo Theatro São Pedro, de São Paulo, na sua temporada lírica de 2018.

Quando a ópera começa, Alcina mantém enfeitiçado Ruggiero, noivo de Bradamante. Esta vai até a ilha da protagonista tentar livrar seu amado da “malévola” de plantão. Para tanto, se disfarça de homem, e, como “homem”, acaba encantando Morgana, irmã de Alcina, até então prometida de Oronte. De novo: falando assim, até parece que estamos narrando algumas das sem-vergonhices que vemos em filmes, séries e telenovelas dos nossos dias, mas é mesmo ópera barroca na veia.

Sob o ponto de vista dramático, a obra é rasa como a maior parte da produção barroca para o teatro lírico. Uma prova de que os libretos, naquela época, não tinham quase nenhuma importância pode ser dada pelo próprio texto de Alcina. As informações sobre a autoria do libreto desta ópera são desencontradas. Há quem diga que é de autor anônimo ou até mesmo de um certo Antonio Marchi. Parece mais próximo da verdade o compositor Leonardo Martinelli, que, em texto para o programa de sala da produção da casa da Barra Funda, cita que o texto é de Antonio Fanzaglia, que o havia escrito para outra ópera sobre o mesmo tema (L’Isola di Alcina, de Riccardo Broschi). A única certeza é que a base da obra é um trecho do poema Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto.

É a inspirada música de Händel que salva a obra, e é através dessa música que o drama se desenvolve. Na produção do Theatro São Pedro, que teve sua última récita no dia 1° de julho, o diretor William Pereira apostou em um visual no estilo “Star Wars”, mas sem muita invencionice. Se, por um lado, sua montagem não foi pesada como aquela de Un Ballo in Maschera no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, por outro, pareceu por vezes demasiadamente clean (cenário do próximo encenador, com poucas variações). No cômputo geral, a encenação funcionou de maneira razoável e, se não foi brilhante, esteve longe de ser descartável.

Os figurinos de Fábio Namatame (com importante visagismo/caracterização de Tiça Camargo) eram adequados à proposta do diretor (ainda que se possa apontar certo exagero nos capacetes dos guardas que surgem logo no começo da obra), enquanto a iluminação de Mirella Brandi foi correta, obtendo melhor efeito nas cenas em que a protagonista se dedicava às suas artes mágicas.

Luís Otavio Santos conduziu a Orquestra do Theatro São Pedro. O começo da récita de 27 de junho foi preocupante, com sonoridade e articulação pouco definidas, mas as coisas logo entraram em um rumo seguro. A direção musical da ópera merece, porém, algumas ressalvas: cortou (ou aceitou cortar) três árias do mesmo personagem (Oronte), empregou (ou aceitou empregar) todos os solistas como se integrassem um coro em duas passagens (medida de economia?).

O rendimento dos solistas variou. Norbert Steidl foi muito discreto como Melisso. O tenor Caio Duran, prejudicado por cantar pouco como Oronte, foi bem quando o deixaram cantar, como na ária È un folle, è un vil affetto. A mezzosoprano Carolina Faria ofereceu um sensível rendimento cênico como Bradamante. Vocalmente, a artista demonstrou boa agilidade, como em Vorrei vendicarmi, ainda que às vezes sua voz soasse um tanto baixa, mesmo na acústica amigável do São Pedro. A mezzo interpretou muito bem a sua ária do terceiro ato, All’alma fedel.

O contratenor David Feldman (Ruggiero) ofereceu uma performance constrangedora. Aparentando ser ainda muito “verde” para pisar em um palco profissional, ofereceu uma péssima atuação cênica. E sob o aspecto vocal, demonstrou uma técnica ainda muito prematura, que o levou a desafinar desgraçadamente em várias passagens. Como o Theatro São Pedro contrata um cantor estrangeiro tão despreparado? Quem indicou a sua contratação? É preciso saber quem o indicou para que novas indicações deste “profissional” jamais sejam aceitas novamente, visto que o sujeito oculto parece não entender patavina de vozes! Cabe perguntar ainda: como o regente aceita trabalhar com um cantor desses?

A soprano Thayana Roverso começou irregular como Morgana. Sua primeira ária, O s’apre al riso, deixou exposta uma afinação vacilante, mas a artista cresceu ao longo da récita, demonstrando boa agilidade em Tornami a vagheggiar e sendo expressiva em Ama, sospira, quando foi bem acompanhada pela orquestra. A também soprano Marília Vargas interpretou a feiticeira Alcina com musicalidade e consistência. Senti falta em alguns momentos de mais vibrato em sua voz, mas isso não chegou a prejudicar o todo de sua performance. Passagens como Ah! Mio cor! Schernito sei! e Ombre pallide, lo so, mi udite, do segundo ato, e ainda Ma quando tornerai e a expressiva Mi restano le lagrime, do terceiro ato, foram bem defendidas.

No fim das contas, pode-se dizer que Alcina mereceu um êxito relativo. Se a opção por um título barroco merece aplausos pela sua raridade em nossos palcos, a sua realização merece as ressalvas apontadas acima, especialmente aquela referente à péssima escolha do contratenor. Tal qual ocorre no Theatro Municipal de São Paulo, o Theatro São Pedro também não tem um diretor artístico que responda em última instância por suas escolhas artísticas. Fica a questão: quem escalou esse contratenor desqualificado?

 

Foto do post (Heloisa Bortz/Sergio Ferreira): em primeiro plano, da esquerda para a direita: Thayana Roverso (Morgana), Caio Duran (Oronte), David Feldman (Ruggiero), Marilia Vargas (Alcina), Norbert Steidl (Melisso) e Carolina Faria (Bradamante).

 

Leia também a crítica de Fabiano Gonçalves

 

Faça seu comentário