Escrito por em 8 ago 2018 nas áreas Canto, Crítica, Lateral, São Paulo

Soprano Anna Netrebko exibe técnica e magnetismo em apresentação única em São Paulo.

 

Segunda-feira, 6 de agosto. Friozinho previsto de 13° na noite paulistana. Cheguei à Sala São Paulo faltando 40 minutos para o começo daquele que se apresentava como um dos grandes eventos musicais do ano em terras brasileiras. A noite prometia: um concerto da temporada do Mozarteum Brasileiro com a celebrada soprano russa Anna Netrebko e seu marido não tão celebrado assim, o tenor azerbaijano Yusif Eyvazov, acompanhados pela Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro e pelo regente italiano Jader Bignamini.

 

A voz

Os primeiros acordes da orquestra, na introdução do dueto Già nella notte densa, da ópera Otello, de Verdi, demonstraram alguma insegurança nas cordas graves, mas logo as vozes da soprano e do tenor puseram tudo em ordem. A delicadeza da abordagem de Netrebko prenunciava o que a noite ainda reservaria. Já Eyvazov ofereceu uma leitura correta, que por vezes escorregava no ataque a algumas palavras.

Depois deste começo com os dois solistas, a orquestra seguiu com Verdi, através da Abertura da ópera La Forza del Destino. Uma vez mais, notei imprecisão nas cordas graves, contrastando com violinos mais limpos. Ainda na primeira metade do concerto, o conjunto interpretaria com mais segurança o Intermezzo da ópera Cavalleria Rusticana, de Mascagni.

O tenor cantou duas árias, e em ambas apresentou-se mais à vontade que no Otello inicial. Na primeira, Un dì all’azzurro spazio (precedida de recitativo), da ópera Andrea Chénier, de Umberto Giordano, já se pôde notar que a sua voz se encaixa bem no estilo verista. Essa percepção foi confirmada na peça seguinte, Mamma, quel vino è generoso, da Cavalleria Rusticana: boa projeção, força, afinação segura.

O tenor Yusif Eyvazov e o maestro Jader Bignamini

 

A estrela da noite, porém, era Anna Netrebko, e, em sua primeira ária, a artista já atingiu aquele que, para o gosto deste autor, foi o grande momento de todo o concerto. Em Pace, pace, mio Dio, de La Forza del Destino, a soprano mostrou ao público brasileiro porque desperta tantas paixões pelo mundo entre os amantes da lírica. Em uma interpretação irrepreensível, Netrebko exibiu uma riqueza de recursos técnicos e expressivos assombrosos. Sua voz poderosa dominou o auditório desde o primeiro (e maravilhoso) “Pace” até o agudo final com tal perfeição que, ali, naquele momento, todo o concerto já tinha valido a pena.

A soprano ainda interpretaria antes do intervalo a canção Il Bacio, de Luigi Arditi, na qual mostrou fluência e agilidade, e, junto com o marido, a passagem Vogliatemi bene, da ópera Madama Butterfly, de Puccini. Tal passagem corresponde, aproximadamente, à segunda metade do dueto que encerra o primeiro ato da ópera (Bimba dagli occhi pieni di malìa). Aqui, uma vez mais, a delicadeza e a sensibilidade com que Netrebko abordou a sua parte explicitavam toda a grandeza da sua arte. Apesar disso, não foi difícil perceber que o dueto estava mal ensaiado, aparentemente mais por causa de Eyvazov, que precisou recorrer à partitura.

 

O carisma

Os dois solistas retornaram ao palco para a segunda metade do programa com o dueto Tu che m’hai preso il cuor, de Il Paese del Sorriso, versão italiana da opereta Das Land des Lächelns, de Franz Lehár, que foi seguido pela doce interpretação de Netrebko para a canção Když mne stará matka, de Antonín Dvořák. Já Yusif Eyvazov teve outro bom momento individual ao interpretar a ária Quando le sere al placido (precedida de recitativo), da ópera Luisa Miller, de Verdi.

Seguindo em frente, a orquestra atacou com correção uma peça indicada no programa como Carmen: Suíte n. 1, Les Toreadors (cá entre nós, teria sido muito mais simples e direto nomeá-la como o primeiro movimento da Abertura da ópera Carmen, de Bizet). O conjunto teria mais adiante seu melhor momento no concerto com o Intermezzo da ópera Manon Lescaut, de Puccini.

Puccini esteve presente ainda com duas passagens de Tosca: Anna Netrebko ofereceu uma belíssima Vissi d’arte, nuançada e expressiva, enquanto Eyvazov foi mais duro em E lucevan le stelle, esticando sem necessidade uma nota quase no final da peça.

Duas passagens de caráter mais ligeiro deram sequência ao concerto. A soprano interpretou Heia, in den Bergen, da opereta Die Csárdásfürstin, do compositor húngaro Emmerich Kálmán: do meio da peça até o seu final, o ritmo frenético fez a sua projeção ser menos eficiente, mas a artista compensou seu único pecado neste quesito durante toda a noite com um carisma e uma presença impressionantes, dançando e encantando o público. Já o tenor encarou a canção Granada, de Agustín Lara, aparentando algum cansaço.

O programa oficial terminou com o dueto de amor e morte Vicino a te, de Andrea Chénier, na qual uma vez mais pudemos notar a correção de Eyvazov e a exuberância vocal de Netrebko. No bis, ambos vieram individualmente com Puccini: ela cantou O mio babbino caro (de Gianni Schicchi); e ele, Nessun dorma, de Turandot. Juntos, encerraram definitivamente a noite com uma versão brincalhona da canção napolitana O sole mio, com Netrebko dançando uma vez mais.

Eyvazov e Netrebko

 

Uma grande artista

No fim das contas, não foi difícil concluir que a metade inicial da noite fluiu muito bem. Na segunda parte, no entanto, ficou claro que a montagem do programa não foi das mais inspiradas. Restou a sensação de que os solistas (a soprano especialmente) poderiam ter apostado em peças mais ousadas ou desafiadoras.

Ainda assim, a simples presença de uma artista da categoria de Anna Netrebko no Brasil, mesmo que apenas em um concerto (já que a probabilidade de ela cantar alguma ópera por aqui é desprezível, para não dizer nula), foi suficiente para encantar olhos e ouvidos com a beleza e a intensidade da sua arte, seja através de sua voz privilegiada ou do magnetismo de sua presença e domínio de palco (repita-se, mesmo em um concerto!). De quebra, ajudou a esquentar a fria noite paulistana.

Bignamini e Netrebko

Ano que vem tem mais?

Este foi o segundo ano consecutivo que o Mozarteum Brasileiro trouxe ao país para suas temporadas cantores de destaque no cenário internacional. No ano passado, já haviam se apresentado em São Paulo pela programação do Mozarteum Pretty Yende (soprano) e Javier Camarena (tenor), e Diana Damrau (soprano) e Nicolas Testé (baixo). Será que no ano que vem teremos mais vozes privilegiadas passando por São Paulo? Tomara que sim.

 

Fotos: Cauê Diniz

 

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