Escrito por em 26 ago 2018 nas áreas Crítica, Lateral, Ópera, São Paulo

Quatro principais solistas se destacam em montagem do Theatro São Pedro. Orquestra decepciona.

 

Kátia Kabanová, ópera em três atos e seis cenas de Leoš Janáček sobre um libreto adaptado pelo próprio compositor, é a terceira ópera completa apresentada pelo Theatro São Pedro, de São Paulo, na atual temporada. Após a estreia de 17 de agosto, fica em cartaz até domingo, dia 26.

Para organizar o libreto da obra, Janáček se baseou em uma tradução para o tcheco (realizada por Vincenc Cervinka) de uma peça teatral do dramaturgo russo Aleksandr Ostróvski, A Tempestade. De um lado, Katerina (Kátia) Kabanová é casada com Tichon Kabanov, filho de Marfa Kabanová (Kabanicha). Os três vivem juntos na casa da Kabanicha, onde reside também Varvara, irmã adotiva de Tichon. De outro lado, Boris Grigorjevic vive com seu tio comerciante, Savël Dikoj. Também comparece em cena a importante figura do professor Váňa Kudrjáš, apaixonado por Varvara e por ela correspondido.

Por sua vez, Boris se apaixona pela esposa de Tichon e também é correspondido. Kátia vive oprimida pela sogra, uma mulher extremamente rigorosa, e encontra no desejo e na paixão por Boris uma fuga da realidade. Para realizar essa paixão, conta com a cumplicidade da cunhada, Varvara. Em certa medida, Kátia antecipa, na história da ópera, outra Katerina oprimida (lembrando que, em russo, Kátia é apelido de Katerina): aquela protagonista de Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, de Shostakovitch, apresentada no Theatro Municipal de São Paulo em 2016.

A música de Janáček acompanha o drama com grande precisão, seja na doçura da cena entre Varvara e Kudrjáš no segundo ato, seja na loucura da protagonista no final da ópera. A cena derradeira, com a Kabanicha indiferente à morte da nora, é acompanhada de música cortante. Durante toda a peça, a riqueza da orquestração se impõe, e o regente precisa ter cuidado para equilibrar o som da orquestra e as vozes solistas.

A produção do Theatro São Pedro atinge um resultado final bastante satisfatório, ainda que com algumas ressalvas. A concepção de André Heller-Lopes funciona bem no geral, apesar de alguns errinhos de marcação como, por exemplo, a opção de manter Kátia em cena desmaiada na segunda cena do terceiro ato, praticamente ao lado de Varvara e Kudrjáš. É um tanto incongruente querer fazer crer que ambos não a viram ali, quase aos seus pés. Nada, porém, que prejudique a montagem como um todo.

Dentre os destaques positivos do trabalho do encenador, que não são poucos, sobressai aquela que é, talvez, a cena mais inspirada da montagem, quando vemos, de um lado do palco, o amor leve e jovial de Varvara e Kudrjáš, e, do outro lado, toda a intensidade da paixão proibida de Kátia e Boris.

O cenário único de Renato Theobaldo é funcional e visualmente atraente, mas peca por não oferecer maior contraste entre as cenas externas e aquelas no interior da casa dos Kabanov. É a bela luz de Fábio Retti que busca, de alguma forma, compensar a referida falta de contraste no cenário. Os belos figurinos, que não foram creditados no programa de sala, mas, segundo a assessoria de imprensa da casa, foram criados pelo próprio encenador, são corretos e adequados, complementando bem uma ambientação eficiente. Tais figurinos, a propósito, parecem inspirados naqueles de Jenůfa, outra ópera de Janáček, apresentada em 2017 no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e também dirigida por Heller-Lopes.

Na récita de 22 de agosto, o Coro da Academia de Ópera Theatro São Pedro esteve bem nas suas poucas intervenções. Já a Orquestra do Theatro São Pedro, apesar de estar sob a batuta respeitada do regente norte-americano Ira Levin, oscilou bastante, enfrentando problemas de afinação e sonoridade, assim como dificuldades na articulação. Que tocar Janáček não seria fácil, ainda mais depois do desmantelamento do conjunto no ano passado, já era previsível. E, como bem observou uma amiga no intervalo, o fato de o conjunto não possuir um regente titular dificulta ainda mais a obtenção de resultados mais consistentes. Ficam as perguntas: por que, afinal, o conjunto não tem um regente titular? Por que, depois da saída de Luiz Fernando Malheiro, outro regente não foi designado para assumir a função?

Cantando as partes menores, Fernanda Nagashima e Tati Helene estiveram bem como as criadas Feklusa e Glasa, enquanto o barítono Vinicius Atique soube aproveitar suas poucas frases como Kuligin, exibindo uma voz bem projetada. Cantando partes secundárias na trama, o tenor Juremir Vieira foi um Tichon burocrático e de voz vacilante, ao passo que o baixo Savio Sperandio viveu o comerciante Dikoj com a boa presença de sempre e voz segura.

Interpretando a rigorosa matriarca Kabanicha, a soprano Claudia Riccitelli ofereceu uma performance irregular. Cenicamente, a artista apresentou-se impecável dentro da proposta da direção, mas, vocalmente, sua emissão soou opaca. Creio que o problema maior, aqui, deveu-se à má escalação. Em várias fontes consultadas, a personagem é descrita para a voz de contralto. Evidentemente, devido à raridade dessa voz em nossos dias, a parte normalmente é assumida por uma mezzosoprano. Resta, pois, a estranheza de que tenha sido entregue a uma soprano. Esses problemas de escalação não são novidade no Brasil e ocorrem com regularidade superior ao aceitável em todos os nossos teatros.

Gabriella Pace e Luiza Francesconi

O tenor Eric Herrero e a soprano Gabriella Pace reeditaram a dupla que havia brilhado em Jenůfa no ano passado. Como Boris, Herrero ofereceu uma ótima récita, com voz consistente e sempre bem projetada. Como Kátia, personagem mais pesada que Jenůfa e que demanda um soprano spinto ou dramático, Gabriella, que é soprano lírico, teve alguma dificuldade no primeiro ato, especialmente nas passagens mais graves e em alguns agudos que não resultaram tão sonoros.

A artista, porém, cresceu bastante no segundo e no terceiro atos, quando sua voz passeou mais segura pelo auditório. No monólogo com a chave (Vida! Nestestí! Tady je te nestestí!) e em toda a sua sequência final (Ne! Nikdo tu není, co as, chudák delá?), Gabriella foi uma Kátia intensa e cenicamente eficaz, confirmando a sua maturidade artística já notada em 2017, quando a soprano foi indicada pelo Movimento.com a melhor cantora do ano ao lado da também soprano Eliane Coelho.

O tenor Giovanni Tristacci e a mezzosoprano Luisa Francesconi apresentaram-se irrepreensíveis como Kudrjáš e Varvara. Ambos exibiram técnica impecável, afinação precisa e vozes sempre bem projetadas e seguras. A segunda cena do segundo ato reservaria alguns dos momentos mais gratificantes da noite: primeiro com Tristacci solando, brilhante, na canção Po zahrádce devucha jiz, e depois quando ambos cantaram juntos a passagem que encerra o ato, Chod si dívka do casu. Inesquecível.

Por tudo o que foi exposto acima, e apesar das ressalvas assinaladas, resta claro que a Kátia Kabanová do Theatro São Pedro é uma parada obrigatória para os amantes da ópera no Brasil neste ano de 2018.

 

Sem medo de idiomas

Como sabemos, os idiomas mais comuns na ópera são o italiano, o francês e o alemão. Nos últimos anos, em São Paulo, apareceram também algumas óperas cantadas em russo e, agora, em tcheco. O Rio de Janeiro já apresentara uma cantada em tcheco no ano passado depois de vários anos limitado àqueles três idiomas mais comuns.

Nesta Kátia Kabanová, inclusive, o Theatro São Pedro contou com o apoio do Consulado da República Tcheca em São Paulo, que colaborou com a produção ao trazer uma profissional para trabalhar a pronúncia dos artistas no idioma. Que este diálogo entre o São Pedro e o Consulado tcheco sirva de exemplo, pois, neste mundo globalizado, já passou da hora de os nossos teatros perderem o medo de apresentar óperas em qualquer idioma.

 

Fotos: Heloisa Bortz

 

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