Escrito por em 11 set 2018 nas áreas Crítica, Lateral, Ópera, Pará

Ótimos solistas se destacam em produção de ópera de Verdi em Belém.

 

Un Ballo in Maschera (Um Baile de Máscaras), ópera em três atos e seis cenas de Giuseppe Verdi sobre libreto de Antonio Somma, com base em outro libreto de Eugène Scribe (Gustave III, ou le Bal Masqué) para o compositor francês Daniel-François Auber, é o segundo título lírico apresentado no XVII Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém, com récitas até 12 de setembro. Em agosto, o Festival apresentou La Vida Breve, de Manuel de Falla.

Não é a primeira vez que essa ópera de Verdi é apresentada no Brasil este ano. Ela já havia subido ao palco no Theatro Municipal do Rio de Janeiro entre o fim de abril e o começo de maio, em produção de visual futurista e qualidade bastante duvidosa (para ser generoso). No Rio, o Ballo não deu certo por mais de um motivo. Um deles foi a encenação, muito cansativa visualmente e pouco teatral. Outro motivo – talvez o mais importante – para o fracasso carioca foram os dois cantores italianos convidados (tenor e soprano), que não apresentaram as condições técnicas necessárias para interpretar o casal protagonista.

O leitor interessado encontra aqui a crítica para a montagem carioca, que contém também uma breve análise da obra.

 

O rei e a rainha do baile

Fernando Portari e Adriane Queiroz

Se no Rio o rei e a rainha do baile não se fizeram presentes, em Belém isso não foi problema. Na estreia de 8 de setembro, o tenor Fernando Portari, indicado pelo Movimento.com como melhor cantor de 2017, interpretou o Conde Riccardo com grande desenvoltura e boa presença, exibindo uma voz generosa e sempre bem projetada. Desde a sua entrada, La rivedrà nell’estasi, até a sua grande romanza no ato final, Ma se m’è forza perderti, o artista ofereceu uma belíssima performance. Na canção marinheira da cena com a feiticeira, Di’ tu se fedele, exibiu grande domínio técnico e musicalidade, enfrentando muito bem a passagem em tempo rápido no meio da peça, sem descuidar da pronúncia. Na cena final, soube explorar a sua maturidade artística, apresentando-se de forma tocante.

A soprano Adriane Queiroz não ficou atrás como Amelia. A artista exibiu durante toda a récita uma voz segura, com ampla projeção e afinação precisa. Disse a que veio já em sua primeira intervenção importante: o terceto Della città all’occaso (com o tenor e a mezzosoprano). No segundo ato, depois de uma ótima Ma dall’arido stelo divulsa, brilhou ao lado do tenor em um dos momentos mais elétricos da noite: o dueto Non sai tu che se l’anima mia, concluído com a deliciosa cabaletta Oh, qual soave brivido. Outro grande momento foi a sua ária do terceiro ato, Morrò, ma prima in grazia, intensa e com requintes de expressão. Em resumo, o que se viu em Belém foi uma grande atuação de uma de nossas cantoras mais completas.

O barítono Rodolfo Giugliani e a mezzosoprano Denise de Freitas foram os únicos solistas que voltaram a interpretar em Belém os personagens que já haviam cantado na montagem do Rio de Janeiro. Giugliani repetiu a sua ótima performance na pele de Renato, o marido que se crê traído. Com voz poderosa, abordou com elegância o seu cantabile do primeiro ato, Alla vita che t’arride, antes de, no ato final, oferecer, ao mesmo tempo, potência e expressividade em sua grande ária, Eri Tu. Já Freitas manteve o padrão da versão carioca da feiticeira Ulrica: se não foi perfeita, foi consistente, oferecendo uma correta invocação (Re dell’abisso, affrettati).

A soprano Kézia Andrade, indicada pelo Movimento.com como uma das revelações de 2017, deu vida ao pajem Oscar. Apesar de um ligeiro (e quase imperceptível) desconforto nas passagens que exigiam grande agilidade vocal, a artista apresentou um desempenho muito eficiente. Feita a ressalva, passagens como o quinteto Di che fulgor, che musiche e como a canção Saper vorreste foram bem defendidas. Cenicamente, a sua composição de uma figura masculina foi, simplesmente, impecável.

Como os conspiradores Samuel e Tom, respectivamente, o baixo Andrey Mira e barítono Idaías Souto estiveram bem, especialmente o primeiro. Sidney Pio (Silvano), Andrew Lima (um juiz) e Mário Ícaro (servo de Amelia) completaram o elenco sem comprometer o ótimo desempenho vocal geral.

O Coro Lírico do Festival de Ópera do Theatro da Paz, preparado por Vanildo Monteiro, esteve bem em suas principais passagens, como Posa in pace, a’ bei sogni ristora e O figlio d’Inghilterra, do primeiro ato, e também em suas intervenções no fim do segundo ato e, ainda, no começo e no final do ato derradeiro. A Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, também indicada por nós como melhor orquestra de ópera de 2017, apresentou-se uma vez mais muito bem, exibindo boa sonoridade. O maestro Miguel Campos Neto conduziu a ópera com grande segurança e sensibilidade, dosando o volume quando necessário.

 

Encenação simples, mas teatral

Adriane Queiroz e Denise de Freitas

Se, musicalmente, tudo caminha muito bem, sob o ponto de vista cênico a produção mostra-se simples em termos visuais, mas honesta e teatral. Com menos recursos que em anos anteriores (segundo pude apurar), o encenador Mauro Wrona (também indicado melhor de 2017, por seu trabalho em Don Giovanni) concentra esforços na direção de atores, extraindo uma boa atuação de todo o elenco.

Os cenários de Duda Arruk são funcionais e, ainda que simples, ambientam a ação satisfatoriamente, com destaque para aquele do segundo ato. A iluminação de Rubens Almeida dialoga bem com a cenografia.

Os figurinos de Hélio Alvarez são adequados, mas sem qualquer luxo, mesmo para os protagonistas. O trabalho de visagismo de André Ramos merece ser citado, com destaque para a caracterização de Oscar. O pajem, a propósito, une em um único personagem três ótimos trabalhos: o do caracterizador, o do diretor e, claro, o de sua intérprete. A correta coreografia de Ana Unger complementa a encenação.


Comparação inevitável

Seria impossível, nesta conclusão, não comparar as duas montagens de Un Ballo in Maschera, a do Rio de Janeiro e a de Belém. Musicalmente, a montagem de Belém é claramente superior à produção apresentada no Rio, pois contou com um elenco equilibrado capitaneado por dois dos mais qualificados cantores líricos brasileiros: Fernando Portari e Adriane Queiroz. No Rio, houve desequilíbrio, com a importação de dois cantores ruins: um tenor medíocre e uma soprano que, nos agudos, mais gritava que cantava.

Já do ponto de vista cênico, a produção carioca era mais vistosa, porém vazia de significado, uma vez que a roupagem futurista ali utilizada poderia servir para uma centena de óperas diferentes, desde o período renascentista até composições contemporâneas. A montagem de Belém, como informado acima, é simples, mas aposta no tradicional sem invencionices e, assim, é teatral e desprovida de falsas pretensões.

O Ballo de Belém fez justiça a Verdi, e merece muito ser apreciado em sua última récita, ainda por vir no momento em que este texto for publicado. Quem viu no Rio, mas não em Belém, perdeu uma excelente oportunidade de comparação.


O futuro do Festival

A edição de 2018 marca o fim de um ciclo de oito anos do Festival de Ópera do Theatro da Paz. Nesse tempo, sob a direção artística conjunta de Gilberto Chaves e Mauro Wrona, o Festival apresentou ao público paraense grandes títulos líricos, como Salomé, O Trovador, O Navio Fantasma, Otello, Mefistofele, Turandot, Don Giovanni, dentre muitos outros. Digo que é o fim de um ciclo porque, tudo indica, com as eleições deste ano deverá haver uma mudança política no governo do estado do Pará, que possivelmente levará também a mudanças na administração cultural do estado.

Espera-se, embora isso seja um tanto utópico em se tratando do nosso país, que essa mudança não venha para destruir ou negar tudo o que de bom foi feito pela gestão cultural que, possivelmente, está em fim de mandato. Por ora, não é possível prever o futuro do Festival. Torçamos para que quem venha a assumir a Cultura do Pará tenha um mínimo de bom senso.

 

Fotos: Elza Lima (na imagem do post, os cantores Kézia Andrade, Rodolfo Giugliani, Denise de Freitas e Fernando Portari)

 

Leonardo Marques viajou a Belém a convite da produção do Festival de Ópera do Theatro da Paz

 

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