Escrito por em 1 set 2018 nas áreas Crítica, Lateral, Música coral, Música de câmara, Rio de Janeiro

Orquestra, Coro e solistas do TMRJ interpretam obras célebres de Vivaldi com regência de Claudio Cruz.

 

Nos anos 80 do século passado, uma marca de sabonetes quis se diferenciar no mercado e transmitir uma imagem mais sofisticada. A estratégia de marketing foi criar campanhas com imagens de belas mulheres desfilando ao som de… música clássica. Estavam lá trechos de Pequena Serenata Noturna, de Mozart, e de um dos concertos de As Quatro Estações, de Vivaldi – composições de grande apelo popular.

Foi também mirando no gosto popular que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro – diante das adversidades, principalmente de ordem econômica, que vêm implodindo a programação concebida para o ano –, promoveu, na manhã de 26 de agosto, em seu centenário palco, um concerto com duas obras do veneziano Antonio Lucio Vivaldi (1678-1741): As Quatro Estações, conjunto composto por Concerto n. 1 em mi maior, Op. 8, RV 269 (Primavera); Concerto n. 2 em sol menor, Op. 8, RV 315 (Verão); Concerto n. 3 em fá maior, Op. 8, RV 293 (Outono); e Concerto n. 4 em fá menor, Op. 8, RV 297 (Inverno); e o oratório Gloria RV 589.

 

Mudança de clima

À frente da cortina, em formação de câmara, integrantes da Orquestra Sinfônica do TMRJ, com regência e solos de violino do novo maestro titular da OSTM, Claudio Cruz. Em sua maioria com larga trajetória profissional e artística, os músicos do conjunto orquestral aparentavam estar fora da zona de conforto – tanto pelo fato de estarem em cena, como pela execução de um repertório barroco, pouco comum nas apresentações da Casa.

Para interpretar obras desse estilo, muitos regentes e diretores musicais pedem tessituras mais simples e a busca por uma sonoridade menos romantizada – os instrumentos da época tinham som mais seco em comparação aos instrumentos de hoje em dia e, para isso, maestros e solistas apostam, muitas vezes, em crescendi e diminuendi nos inícios e fins de frase, em messa di voce nas notas longas (chamados de barriga barroca) e em chiaro-oscuro nas dinâmicas.

Muitas dessas características estavam presentes no palco do TMRJ; no entanto, faltou ao conjunto aquele sopro de graça que remetesse verdadeiramente ao pathos barroco. O regente fazia bonito ao violino solo, com vigor e elegância, enquanto tentava manter o grupo unido e coeso. Sem trocadilhos, foi apenas no segundo concerto (Verão) que a performance começou a esquentar, chegando à melhor forma no terceiro (Outono).

Ao violino, Cruz explorou com rigor e criatividade as possibilidades do instrumento, abrilhantando seus solos. Destaques para a grande colaboração da convidada Elisa Wiermann, ao cravo, e para as belas intervenções do violoncelista Marcelo Salles e do spalla Carlos Mendes. Ao fim do último movimento, a popularidade dos concertos revelou-se em aplausos entusiasmados da plateia.

Claudio Cruz e músicos da Orquestra do TMRJ

 

Canto desarmônico

Após breve intervalo, os músicos voltaram ao palco para o Gloria, na companhia de integrantes do Coro do TMRJ e das solistas Luiza Lima (soprano), Noeli Mello (mezzosoprano) e Andressa Inácio (contralto).

As dificuldades de atenção ao estilo percebidas na primeira parte do concerto voltaram, estendendo-se aos integrantes do grupo vocal de câmara. As interpretações do Coro do TMRJ, quando no campo operístico, são, na maior parte das vezes, dignas de louvor. No entanto, as vozes dos integrantes pareceram não se adequar a uma interpretação mais ligeira, com ornamentos, e soaram pastosas, pouco equilibradas enquanto conjunto e com problemas de articulações nas palavras (os “s” e “x” de hominibus, sanctus e pax, entre outros, não foram ouvidos). O Propter magnam gloriam e o Domine Fili unigenite, por exemplo, careceram de articulação, resultando em um emaranhado de notas desarmônicas e atropeladas.

Como integrantes do Coro, as cantoras solistas trouxeram para suas interpretações algumas dessas características. Ainda que, de modo geral, tenham cantado de forma correta, faltou alma aos clamores por piedade, paz na Terra e glória a Deus expressos nas letras. Entre as solistas, o canto mais equilibrado foi o da mezzo Noeli Mello.

Rodrigo Herculano (no oboé) e Jaison Vallero (trompete) deram excelentes contribuições ao conjunto.

Ao fim da execução, mais aplausos. Mas, aos ouvidos mais treinados, ficou notória a inadequação dos conjuntos vocais e instrumentais do TMRJ – acostumados a incursões exitosas no campo lírico – às características da arte barroca. Para muitos, essa inabilidade gerou uma sensível diferença.

Orquestra, Coro e solistas do TMRJ

 

Nota: não há unanimidade sobre os atributos que tornam boa ou ruim uma interpretação barroca. Para mais esclarecimentos, sugerimos a leitura do artigo de Gláucia Pina de Carvalho, Cláudia Felisberto e Guilherme Mannis disponível aqui.

 

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