Escrito por em 24 out 2018 nas áreas Crítica, Lateral

Solistas equilibrados e direção cênica se destacam em produção mineira. Orquestra, iluminação e ar condicionado barulhento são pontos fracos.

Está em cartaz no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, com récitas até 28 de outubro, Der Fliegende Holländer (O Holandês Errante, ou O Holandês Voador, dependendo da opção do tradutor), ópera em três atos de Wilhelm Richard Wagner sobre libreto do próprio compositor, com base numa passagem das Memórias do Senhor de Schnabelewopski, de Heinrich Heine, na qual o escritor registra a sua versão para a lenda do Holandês.


Wagner embrionário

O próprio Richard Wagner contou em sua autobiografia, Mein Leben (Minha Vida), que também se inspirara em uma viagem marítima de Riga a Londres, realizada em 1839 por ele e sua primeira esposa, Minna, então fugindo dos credores e tendo Paris como destino final. Durante esta viagem, o navio que levava o casal enfrentou severas tempestades. Já em Paris, e praticamente na miséria, vivendo com parcos recursos, Wagner esboçou sua nova ópera e enviou uma sinopse detalhada a Léon Pillet, diretor da Ópera de Paris. Pillet se interessou pelo projeto, mas comprou-lhe apenas a sinopse, por 500 francos, não contratando o compositor para a efetiva realização da empreitada. As precárias condições financeiras do jovem Wagner levaram-no a aceitar a oferta.

Há versões divergentes sobre os fatos que se seguiram. Uma dessas versões, do próprio Wagner, afirma que Pillet ofereceu o libreto à pena de um tal Paul Foucher e confiou a música a Louis-Philippe Dietsch. Estes hoje ilustres desconhecidos criaram a ópera Le Vaisseau Fantôme, desaparecida do repertório. Teria sido a partir desse episódio que surgiu o costume de se dar também à ópera de Wagner o título de O Navio Fantasma, empregado principalmente na França e em alguns países de línguas neolatinas.

Mesmo sem ter um contrato garantido, Wagner resolveu compor a sua própria ópera sobre o tema do Holandês. Segundo ele, a partitura ficou pronta em sete semanas, exceto pela Abertura, que seria concluída cerca de dois meses depois. A peça estreou em 2 de janeiro de 1843, em Dresden, sem grande sucesso.

É no Holandês/Navio que aparecem, ainda de forma embrionária, algumas características que marcariam a carreira do compositor. Embora esta ópera não seja exatamente uma obra-prima, é um empreendimento de grande valor musical e dramático, no qual podemos vislumbrar o primeiro esboço de Wagner em direção aos dramas musicais de sua maturidade. Ainda que possamos encontrar estruturas tradicionais como árias e duetos, aqui já aparecem também:
I- os Leitmotive (motivos condutores, ou seja, temas musicais ligados a personagens, situações ou sentimentos), mesmo que não trabalhados com a mestria que se perceberia mais adiante;
II- uma união mais estreita entre texto e música, que se desenvolveria cada vez mais;
III- a utilização da lenda (mais tarde seria o mito) como o meio de expressão mais adequado às investigações do compositor na busca do que se poderia chamar de “eterno-humano”;
IV- a redenção pelo amor, tema que se tornaria recorrente em sua obra.

Através de uma música belíssima, Wagner constrói o drama com grande competência, atento à psicologia de cada personagem: a ambição de Daland, o sofrimento amoroso de Erik, o desejo do Holandês de encontrar finalmente a salvação através de uma mulher fiel. E é na angústia de Senta e no seu desejo incontrolável (que ela parece antever) de que a sua fidelidade leve um sofredor à redenção que a música parece encontrar o seu sentido definitivo.

 

Tati Helene e Paulo Mandarino


Senta: uma pedra fundamental

No Palácio das Artes, coube ao argentino Pablo Maritano conceber a encenação da ópera, e o resultado que se apresenta é muito satisfatório. Com reforçada direção de atores, Maritano extrai interpretações sólidas de todos os solistas. Se, especialmente no primeiro e no terceiro atos, o diretor opta pelo abstrato na ambientação cênica, a força de sua competente direção permite à imaginação do público completar as lacunas. O mar, por exemplo, não aparece, e dos navios só vemos escadas, rampas ou plataformas nos corretos cenários de Renato Theobaldo (a ambientação do segundo ato é mais “concreta”). Tudo funciona bem, com o auxílio dos belos figurinos de Sayonara Lopes.

Dois momentos fundamentais da encenação merecem ser mencionados, ambos localizados no centro nevrálgico da obra, no segundo ato. O primeiro momento ocorre quando Senta canta a sua Balada: na visão do diretor, este solo da soprano é a “pedra fundamental” da ópera, ao revelar uma mulher “que não se encaixa em seu mundo”, que experimenta a angústia da existência em meio a uma “sociedade burguesa alienada”. É difícil não concordar com o encenador quando ele aponta Senta como a protagonista da obra e constrói esta cena com grande sensibilidade, especialmente por ter à sua disposição uma cantora completa, que mergulhou de cabeça na personagem, como veremos mais adiante.

O segundo grande momento dá-se pouco depois, no dueto do Holandês com Senta. Pablo Maritano primeiro afasta os protagonistas, para, aos poucos, aproximá-los à medida que o dueto evolui. É uma solução simples, mas ao mesmo tempo inteligente, que se mostra bastante eficaz pela capacidade dos solistas de expressar uma intensidade contida. Paulatinamente, os dois cantores abandonam essa contenção, para se entregarem ao arrebatamento em outra passagem marcante.

É preciso, também, pontuar uma escolha menos feliz da direção. No segundo ato, as fiandeiras da aldeia norueguesa (representadas pelo coro feminino) são retratadas como bordadeiras, enquanto o texto de Wagner cita mais de uma vez que o trabalho realizado por elas é o de fiar. Posso parecer ranzinza, mas entendo que, quando texto e imagem não dialogam, uma melhor solução poderia ter sido elaborada. De modo geral, porém, tal opção resta apenas como um detalhe, e não atrapalha o desenvolvimento da encenação.

A iluminação da ópera merece uma análise à parte. Elaborada a seis mãos (o que não é comum) por Marina Arthuzzi, Rodrigo Marçal e Jésus Lataliza, o projeto de luz deu a impressão de ser bastante interessante e de dialogar muito bem com a proposta do encenador argentino. Digo apenas que “deu a impressão”, porque na estreia do dia 20 de outubro a execução da luz foi um verdadeiro desastre, com várias falhas ao longo da récita.

Em dado momento, até a orquestra e o regente ficaram completamente no escuro; em outro, as luzes da plateia foram acesas rápida e indevidamente; em outros tantos, atrasos ou ausências de efeitos prejudicaram a realização cênica. Na cena derradeira, por exemplo, nova falha de execução deixou sem luz a ascensão dos protagonistas. É difícil dizer se essa inusual divisão do trabalho de criação do desenho de luz da montagem foi o motivo das falhas. Espera-se que tais erros sejam corrigidos para as demais récitas da ópera.

 

Gustavo Eda e Coral Lírico de Minas Gerais


Solistas têm ótima noite

Se algo houve na interpretação musical que desequilibrou a qualidade da produção foi o desempenho da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Sob a regência de Sílvio Viegas, o conjunto não escondeu a sua dificuldade em abordar a música de Wagner. O começo foi ainda menos satisfatório, com problemas de afinação e articulação já na abertura, o que resultou em uma sonoridade por vezes um tanto embolada. Mais adiante, o conjunto melhorou um pouco, mas sem nunca demonstrar intimidade com o compositor (esta é a primeira produção de uma ópera de Wagner em Belo Horizonte – antes tarde do que nunca…). Experiente, o maestro Viegas tentou compensar as deficiências do conjunto com uma leitura dinâmica sempre a serviço do drama, mas para isso enfrentou um duro adversário, como se verá no último subtítulo desta resenha.

O Coral Lírico de Minas Gerais, preparado por Lara Tanaka, também não começou bem, mas não demorou a melhorar. O coro das fiandeiras no segundo ato, Summ’ und brumm’, foi bem defendido, assim como Steuermann! Lass die Wacht!, a grande passagem coral do começo do terceiro ato (e um dos trechos mais populares da ópera). O conjunto também teve boa atuação cênica.

O tenor Gustavo Eda, apesar de uma clara falha em um agudo de sua canção do primeiro ato, Mit Gewitter und Sturm, viveu o Timoneiro com ótima desenvoltura e boa voz. A mezzo-soprano Denise de Freitas valorizou a pequena parte de Mary, a ama de Senta, oferecendo um excelente desempenho cênico em uma versão mais autoritária da personagem.

O baixo Sávio Sperândio deu boa conta de Daland, capitão do barco norueguês e pai de Senta. Exceto por alguma dificuldade no extremo grave, o artista teve uma boa récita, cumprindo bem o dueto com o Holandês no primeiro ato, Durch Sturm und bösen Wind, e também seu monólogo do segundo ato, Mögst du, mein Kind. Cenicamente, Sperândio carregou a ambição de Daland em boa medida.

Por sua vez, o tenor Paulo Mandarino interpretou o caçador Erik com ótima musicalidade e boa presença. As suas duas cenas com Senta, Mein Herz, voll Treue bis zum Sterben (ato final) e Was musst ich hören?, foram muito bem defendidas, assim como o seu pequeno solo, Willst jenes Tags dich nicht. Sua voz esteve sempre segura e bem projetada.

Ao barítono argentino Hernan Iturralde coube a tarefa de interpretar o Holandês e ele o fez com enorme talento. Cenicamente, o artista soube encarnar uma figura sinistra, mas que, ao mesmo tempo, deixava transparecer a sua humanidade. Expressou angústia, desolação, desesperança, depois esperança, arrebatamento e, por fim, desespero, ao crer que a sua salvação estava perdida, antes da redenção final. Tudo isso com muita elegância e domínio de palco. Vocalmente, passagens como a sua ária do primeiro ato, Die Frist ist um, o já citado dueto com o baixo no primeiro ato e, especialmente, o dueto com a soprano no ato intermediário, Wie aus der Ferne längst, receberam do artista interpretação sólida e expressiva.

A soprano Tati Helene não ficou atrás. A artista encarnou com precisão e sensibilidade a “pedra fundamental” da obra na visão do encenador Pablo Maritano. Sua Senta, desde que apareceu no começo do segundo ato um tanto alheia ao que acontece à sua volta, absorta em um mundo só dela, longe das preocupações prosaicas da sociedade em que vive, dominou o palco com grande magnetismo. A solidez da sua interpretação cênica e a qualidade da sua performance vocal resultaram no trabalho mais gratificante que se pôde observar neste Holandês Errante. Segura, Helene embarcou na proposta da direção e apresentou um trabalho irrepreensível, dando vida a uma criança/mulher que amadurece em poucos minutos, expressando angústia, piedade, arrebatamento e uma firmeza de propósito inabalável em sua inegociável decisão de ser a fiel redentora do Holandês.

Desde a Balada do segundo ato, Johohohe! Johohohe!, passando pelos duetos com Erik e, sobretudo, com o Holandês, e até o sacrifício final de sua personagem, a voz da soprano apresentou-se bela e fluente através da sua precisa afinação e da sua técnica apurada, que lhe permitiu sempre uma emissão límpida e bem projetada, mas não desprovida de nuances. Entre a Senta que ela havia interpretado há alguns anos no Theatro da Paz, em Belém, e esta agora de Belo Horizonte, há um nítido crescimento artístico.


Ignorância musical

Se a orquestra e a iluminação foram os pontos fracos da produção, houve coisa pior por parte da administração da Fundação Clóvis Salgado. Quem conhece um pouquinho de música (basta um pouquinho) sabe que música não é apenas som, mas também silêncio. Na ópera, particularmente, há momentos em que a presença do silêncio é fundamental para a construção dramático-musical. No Palácio das Artes, contudo, foi impossível “ouvir” os silêncios do Holandês Errante, devido à instalação improvisada de grandes e ruidosos aparelhos de ar condicionado no interior da sala de espetáculos.

Já há algum tempo, a casa enfrenta problemas com seu ar condicionado central. Quando a ópera La Traviata foi apresentada, em abril deste ano, o público passou calor no auditório, e houve quem passasse mal. Agora, neste Holandês Errante, a emenda saiu pior que o soneto: um “iluminado” resolveu demonstrar toda a sua ignorância musical ao mandar instalar os referidos aparelhos barulhentos de refrigeração dentro do auditório, atrapalhando a audição da ópera como um todo e, especialmente, a audição dos silêncios da música, tão importantes quanto os seus sons. Custava tanto assim trabalhar direito e mandar consertar o ar condicionado central?

Apesar desse último apontamento, a produção de O Holandês Errante em Belo Horizonte tem mais méritos que equívocos, e merece muito a visita do público interessado. A qualidade dos solistas e a beleza da encenação (que tende a crescer se os erros de execução da iluminação forem corrigidos) garantem o sucesso do espetáculo.

 

Fotos: Paulo Lacerda/FCS (na foto do post, Hernan Iturralde e Tati Helene)

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