Escrito por em 27 nov 2018 nas áreas Crítica, Lateral, Ópera

Público pequeno prestigia concerto no Municipal do Rio

Colombo, poema vocal-sinfônico em quatro partes de Antônio Carlos Gomes sobre texto de Albino Falanca (pseudônimo de Aníbal Falcão – seu primeiro nome está grafado incorretamente no programa de sala), é a segunda obra em menos de um mês a tapar buraco na programação do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Ao contrário de Cavalleria Rusticana, apresentada em 1° de novembro, que teve apresentação única, esta peça de Gomes contou com duas apresentações, nos dias 23 e 25.

A obra narra, com considerável liberdade poética, a descoberta da América por Cristóvão Colombo. No encarte de uma gravação em CD realizada pela Escola de Música da UFRJ, o professor e regente André Cardoso faz uma bela análise desta peça, da qual destaco um parágrafo: “O libreto, apesar de basear-se em relatos históricos, é de qualidade dramática duvidosa. O libretista reduz o feito de Colombo à obra de um amante desiludido que consegue o apoio de um Rei indeciso, que toma suas decisões baseado nas intuições de sua esposa. A música, entretanto, supera o fraco libreto e seus trechos mal alinhavados. Partes corais imponentes, a orquestração que valoriza os trechos descritivos e o melodismo do compositor garantem a qualidade da obra”.

Conferi a primeira apresentação, na última sexta-feira, quando o Coro do Theatro Municipal, preparado por Jésus Figueiredo, apresentou-se irregular, com momentos de maior e menor brilho. Começou muito bem, cantando fora do palco para dar efeito de distância, mas, em muitos momentos, faltou ao conjunto realçar nuances da música.

Sob a regência de Roberto Duarte, a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal esteve bem, com destaque para a sonoridade expressiva dos violoncelos. As passagens descritivas, mencionadas no parágrafo anterior, foram bem interpretadas, especialmente pelas cordas. Vale citar a correta participação, na quarta parte, da Banda dos Militares Músicos da Aeronáutica.

O locutor do Theatro Municipal, Neilton Ferreira, participou como narrador, figura que, até onde sei, não consta da obra de Gomes. Apesar do bom trabalho de Ferreira, suas intervenções acabaram resultando em interrupções que desviaram a atenção do principal: a música. Talvez funcionasse melhor se ele tivesse lido todo o texto no início, de forma um pouco mais resumida.

Nas pequenas partes solistas, Fernanda Schleder, Ivan Jorgensen e Fabrizio Claussen não comprometeram. O baixo Murilo Neves interpretava bem o Frade até chegar aos agudos, emitidos com considerável dificuldade. O barítono Inacio de Nonno, que conhece muito bem a parte de Colombo, abordou-a com musicalidade e expressividade. O cansaço vocal que eu havia notado, há menos de um mês, quando ele interpretara o Alfio da Cavalleria Rusticana, esteve bem menos presente aqui.

A soprano Marianna Lima, em geral, apresentou-se bem como a Rainha Isabel, exibindo uma ótima projeção, ainda que em algumas passagens a sua emissão tenha deixado transparecer certo desconforto (sua voz me pareceu um pouco mais pesada que a indicada para a parte da Rainha). O trecho Quest’uom non mente, da segunda parte, correu lindamente em sua voz.

Fechando muito bem o elenco, o tenor Fernando Portari ofereceu uma performance impecável como o Rei Fernando de Aragão, com uma voz segura, bem projetada, expressiva e de emissão sempre precisa.

 

Meia plateia

Há poucos dias, o Movimento.com publicou um artigo no qual este autor afirma que o atual modelo de gestão do Theatro Municipal do Rio de Janeiro está falido, especialmente pelo fato de este modelo ser totalmente dependente dos ventos da política – o que faz qualquer projeto que se inicie na casa voltar sistematicamente à estaca zero de tempos em tempos. É preciso buscar agora uma nova forma de gestão para o Municipal, sob pena de a própria existência do Municipal e de seus corpos artísticos ser questionada no futuro (leia aqui o artigo completo).

A experiência mostra que, quando oferece programação regular, o público é mais fiel ao TMRJ, mas, quando a oferta é raquítica como no presente ano (os motivos são diversos e já foram amplamente comentados), a audiência tende também a ficar rarefeita. Com grande pesar, foi o que pôde ser notado na primeira apresentação de Colombo. Havia no Municipal, sendo bem benevolente, meio auditório, formado em sua maior parte pelas mesmas figurinhas carimbadas de sempre. Falta uma programação confiável, falta uma estratégia de divulgação mais ousada, falta um programa efetivo de renovação de plateia.

O futuro do Municipal precisa ser pensado, debatido e definido agora. Um modelo de gestão que seja menos dependente de indicações políticas e de apadrinhamentos precisa ser parido. Esperar que os políticos resolvam o problema não é a melhor opção.

 

Foto fornecida pelo Theatro Municipal.

 

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