Escrito por em 5 nov 2018 nas áreas Crítica, Lateral

Mezzosoprano é destaque de versão em concerto de ópera de Mascagni, que homenageou Ruth Staerke


Não é novidade: quando os gestores do Theatro Municipal do Rio de Janeiro não sabem o que fazer em sua programação lírica capenga, recorrem à ópera Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni, e sempre em forma de concerto, porque esse negócio de encenar óperas, o leitor sabe bem, dá muito trabalho e custa dinheiro. Somente durante a “gestão” de Carla Camurati, a Cavalleria foi pinçada duas vezes: em 2009, quando a casa estava fechada para reforma (a apresentação na ocasião foi na Sala Cecília Meireles), e depois em 2012, substituindo outra ópera então programada para ser encenada.

Agora em 2018, a história se repete: o atual presidente da Fundação que administra o Municipal, Fernando Bicudo, ao que tudo indica, não sabe o que fazer com a programação da instituição, uma vez que falta verba para cumprir o que ele havia prometido no começo do ano. Assim, tal qual Camurati, Bicudo apelou também à boa e velha Cavalleria, apresentada em récita única na última quinta-feira, dia 1° de novembro. Quanta novidade!

Já que a verba era suficiente apenas para fazer uma ópera em forma de concerto, não seria possível, pelo menos, escolher o título dentre aquelas obras inicialmente prometidas para serem apresentadas neste formato? Afinal, faziam parte da programação anunciada em março versões em concerto de Sansão e Dalila e Adriana Lecouvreur – dois títulos que há muito tempo, muito tempo mesmo, não dão o ar da graça ali pela Cinelândia. Por que não tentar seguir, pelo menos aqui, a programação prometida? Não se sabe, e a gestão da casa, seguindo a tradição de várias gestões anteriores, não se esforça muito para explicar.


Homenagem

No concerto de quinta-feira, o Coro do Theatro Municipal, preparado por Jésus Figueiredo, em que pesem alguns poucos desencontros entre as suas próprias vozes, esteve bem, oferecendo uma récita satisfatória. Já a Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, conduzida por Alessandro Sangiorgi, esteve muito bem nesta obra bastante conhecida pelo conjunto, com destaque para suas cordas expressivas.

Dos solistas, Ariane Felix pouco pôde exibir em suas duas frases, de forma que, se não contribuiu, também não comprometeu. A mezzosoprano Lara Cavalcanti interpretou a pequena parte de Lola com correção, ainda que sem qualquer brilho. Experiente, o barítono Inacio de Nonno fez um Alfio de boa presença e com boa projeção, apesar de sua voz exibir em vários momentos claros sinais de cansaço.

O tenor Fernando Portari, um dos nossos principais cantores líricos, arriscou-se na parte de Turiddu, que não lhe é a mais adequada. Sua grande qualidade técnica garantiu a récita, ainda que aqui e ali se pudesse notar certa dificuldade por falta do peso vocal adequado.

O mesmo ocorreu com a mezzosoprano Ana Lúcia Benedetti na região média de sua parte, onde por vezes faltou o peso necessário para uma emissão mais homogênea e eficiente. A parte de Santuzza exige uma voz de registro dramático, o que não é o caso de Benedetti. Ainda assim, no geral, a artista ofereceu uma Santuzza eficiente e musical, com ótima afinação, agudos generosos e graves bem calibrados. Sua ária, Voi lo sapete, o Mamma, e ainda os duetos com o tenor e o barítono foram muito bem defendidos. A voz de Ana Lúcia Benedetti é uma das maiores preciosidades do canto lírico brasileiro atualmente e, exatamente por isso, merece e precisa ser muito bem cuidada.

O Theatro Municipal aproveitou a noite para homenagear a soprano Ruth Staerke. Há exatos 50 anos, a artista fez a sua estreia na casa, interpretando a Musetta da ópera La Bohème. Desta vez, Staerke interpretou a pequena parte de Mamma Lucia. Não creio ser necessário entrar no mérito de sua performance vocal, e prefiro ater-me à merecida homenagem a uma das damas vivas do canto lírico brasileiro, com direito a flores e placa. Pelo menos nisso a direção do Theatro Municipal acertou.

 

Colombo não é ópera

O Theatro Municipal anunciou para o fim de novembro duas récitas de Colombo, de Carlos Gomes. Existe certa controvérsia sobre a classificação da obra, mas, normalmente, ela é definida como um poema vocal-sinfônico ou um poema lírico. Há, porém, um anúncio no site do Theatro Municipal no qual, logo abaixo do título e ao lado do nome do compositor, lê-se a expressão “ópera-concerto”.

Como a mesma expressão foi utilizada no anúncio da Cavalleria Rusticana, depreende-se que se trata de pura marquetagem, buscando sugerir que Colombo seria também uma ópera apresentada em forma de concerto, reduzindo assim o saldo negativo de óperas entre o que o Theatro Municipal promete e o que efetivamente cumpre. Não é recomendável que a casa “venda” Colombo como ópera, mas há tempo suficiente para que o erro seja corrigido. Observemos.

 

Nota do Autor: Até o momento da publicação desta resenha, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro ainda não havia disponibilizado fotos oficiais do concerto. Foi utilizada no post uma foto obtida na internet. Se as fotos oficiais forem disponibilizadas posteriormente, alteraremos esta postagem, incluindo pelo menos uma foto oficial da apresentação.

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