Escrito por em 7 nov 2018 nas áreas Crítica, Festival, Lateral, Ópera

Festival Ópera na Tela apresenta montagem de Tristão e Isolda levada à cena em Bayreuth em 2015.

 

Para aqueles que não desejam esperar quase uma década por um ingresso para o célebre Bayreuther Festspiele – o festival anual criado pelo compositor Richard Wagner para apresentação de suas óperas –, o Festival Ópera na Tela traz ao Rio de Janeiro (e, posteriormente, a 20 cidades brasileiras) uma produção oriunda daquela cidade bávara: Tristão e Isolda.

Com direção cênica da bisneta do compositor, Katharina Wagner (1978-), e direção musical e regência de Christian Thielemann (1959-), a montagem foi levada à cena no Bayreuth Festspielhaus em 2015, por ocasião do sesquicentenário da estreia da ópera (que ocorreu em Munique em 10 de junho de 1865, no Teatro da Baviera, sob regência do maestro Hans von Bülow).

 

Trama

Evelyn Herlitzius (Isolda, em pé) e Christa Mayer (Brangäne)

A história, inspirada em uma narrativa medieval (a primeira versão remonta ao século 12), fala do trágico amor entre o cavaleiro Tristão, originário da Cornualha, e a princesa irlandesa Isolda. O libreto, do próprio compositor a partir de texto do poeta medieval alemão Gottfried von Strassburg, divide-se em três atos.

Tristão transporta Isolda em seu navio para casar-se com seu tio, o Rei Marke. Revoltada (e cônscia de sua paixão pelo jovem cavaleiro), a princesa pede a Brangäne que prepare uma taça com a poção da morte (Todestrank) para ela mesma e Tristão bebam – mas sua aia coloca na taça um filtro de amor preparado pela mãe da princesa, tornando irrefreável a atração entre os jovens. O êxtase dos dois é interrompido pelos gritos da tripulação, que anunciam a proximidade da costa da Cornualha.

O segundo ato se passa nos jardins do castelo do Rei da Cornualha, no qual Tristão e Isolda se entregam à paixão. Uma denúncia de Melot, um homem da corte do Rei, leva o cavaleiro à uma acusação de traição, crime que admite. Tristão dispõe-se a tomar o caminho do exílio, mas é ferido gravemente pela espada de Melot.

A ação do último ato ocorre no castelo de Tristão, na Bretanha. O cavaleiro, ferido e triste, é amparado por seu escudeiro Kurvenal e amigos. Isolda chega para tentar salvá-lo por meio de suas artes mágicas. Ao vê-la, o cavaleiro delira e arde até cair morto em seus braços. O Rei Marke, informado por Brangäne da ingestão da poção no navio, compreende a paixão dos dois jovens e chega disposto a perdoá-los. Foi assim que se dispôs a perdoar-lhes partindo ao seu encontro. Indiferente às palavras do Rei e de sua aia, Isolda contempla, em êxtase, o cadáver de Tristão, até que, sucumbindo à dor, cai morta sobre ele.

Ousado no texto, Wagner subverte as acepções castas do amor medieval (a Beatriz de Dante, a Laura de Petrarca), nas quais o sentimento nunca se concretiza, e abraça o desejo e o erotismo. A força da paixão sexual está nas palavras e na música. Mas tanto sentimento está fadado a nunca se realizar plenamente naquela sociedade cheia de preceitos e padrões: apenas na morte os amantes poderão encontrar-se verdadeiramente. O desejo é destilado e torna-se sumo concentrado, como as poções de amor e de morte das feiticeiras celtas, e torna-se renúncia. Embebida de conceitos filosóficos de Arthur Schopenhauer (1788-1860), a ópera amalgama a premissa de que é o nosso desejo que nos impulsiona em direção ao sofrimento – Eros e Tânatos freudianos. O amor é narcótico, a morte é libertação.

 

Partitura

Considerada por muitos o zênite da música ocidental, Tristão e Isolda trouxe tantas novidades – harmônicas, tímbricas, formais – que deixam os espectadores atônitos e seduzidos, de 1865 até hoje. Atração e repulsa, aversão e fascínio.

Abrindo caminho para a atonalidade e o dodecafonismo do século 20, Wagner expande, nesta obra, com audácia e inteligência, os limites do cromatismo. A estabilidade, como o gozo dos amantes, nunca vem. A música nunca chega a uma sensação de repouso (que ocorre com a resolução tonal): sempre que o encadeamento melódico insinua uma resolução, nova modulação para outra tonalidade impede a cadência conclusiva. Da mesma forma, os amantes vivem a angústia da consciência de que seu amor – condenado pelo sistema de valores do mundo em que vivem – não é possível no plano da realidade. A partitura, além de profética, é hipnótica, expressiva e com enorme papel dramático – a Gesamtkunstwerk, ou obra de arte total.

“É tudo tão rico, há tantos detalhes, tantas armadilhas (…) É uma música que você rege muitas vezes e muito mal ao longo da vida antes de entender sua magnitude”, disse sir Richard Armstrong acerca da partitura de Tristão e Isolda, em entrevista ao jornal O Estado de SP por ocasião de sua regência à frente da Osesp, em agosto de 2017. Para o maestro alemão Christian Thielemann, a música desta ópera ameaça dominá-lo a qualquer momento: “Minha tarefa com Tristão é dizer: ‘Como colocamos esse tigre em nosso aquário ou de volta a sua gaiola?’”.

 

Música

Stephen Gould (Tristâo, vendado), Georg Zeppenfeld (Rei Marke, de chapéu) e Raimund Nolte (Melot, de joelhos)

Thielemann não apenas doma esses tigres wagnerianos, como dança com eles. Sua condução para esta montagem de Tristão e Isolda, à frente da Orquestra do Festival de Bayreuth, exala intensidade. Da primeira à última nota, ao longo de mais de quatro horas de música incessante, a orquestra baila em uma espiral de sons e silêncios arrebatadores, mantidos sob rigoroso controle rumo ao único desfecho possível. Contenção e arroubo, luz e escuridão, solenidade e despojamento, fluxo e refluxo. Para muitos, Thielemann é considerado um dos melhores condutores de Wagner do mundo – não à toa, é conselheiro e diretor musical do Festival de Bayreuth.

Em cena, grandes cantores – a começar pelo monumental heldentenor norte-americano Stephen Gould como Tristão. Seu canto parece incansável – não há o menor sinal de fadiga física ou vocal no terceiro ato – e se mantém heroico e potente, sem jamais perder um toque de doçura (mesmo em sua desesperada derradeira cena).

A seu lado, a soprano dramática alemã Evelyn Herlitzius – que, ao que consta, substituiu, em quatro semanas, as escolhas anteriores para o papel: Eva-Maria Westbroek e Anja Kampe – deu vida à Isolda com assustadora intensidade. Ainda que seu ponto alto – o Liebestod, no terceiro ato – tenha soado um pouco frio, a cantora tem excelente projeção e volume, além de memorável entrega dramática ao trágico papel.

Como Brangäne, a mezzo-soprano alemã Christa Mayer se equipara a Herlitzius em termos de potencialidade dramática. Com angústia – expressa fisicamente em cena – pelo destino de sua senhora, a cantora tem atuação bastante convincente, além de ser dona de um canto redondo e cheio de nuances. No papel de Kurwenal está o baixo-barítono escocês Iain Paterson. O cantor tem belíssimo timbre e técnica impecável, além de ótima atuação. O baixo alemão Georg Zeppenfeld encarnou um Rei Marke nada ingênuo, pouco romântico e quase cruel. Seu canto tem uma superioridade que domina a cena tanto quanto seu olhar gélido e feroz. Completam o elenco os alemães Raimund Nolte (baixo-barítono, Melot), Tansel Akzeybek (tenor, Marinheiro e Pastor) e Kay Stiefermann (barítono, Timoneiro).

 

Cena

Katharina Wagner reafirma sua liderança à frente do Festival de Bayreuth (que está desde sempre na família) com mais esta montagem. Sua abordagem é criativa e subverte elementos-chave da história, trazendo frescor à densa e conhecida trama.

Tristão e Isolda, para começo de conversa, não bebem a poção do amor no primeiro ato – o que reafirma a fala do professor alemão Pierre-Paul Sagave (1913-2006), que constou do programa da montagem: “Assim que Tristão e Isolda bebem a poção mágica, cada um deles sente que, embora não esteja mais livre de si mesmo, ambos são livres do mundo externo, separados da moralidade do dia, do costume universal e da obrigação (a fidelidade do cavaleiro ao seu governante ou da esposa ao marido). A poção liberta uma paixão que já estava lá, mas reprimida, quando Tristão e Isolda trocaram seu primeiro olhar”.

Ao fim, enquanto cadáveres jazem espalhados no chão, a morte de Isolda ocorre apenas de modo simbólico: o Rei Marke a puxa em direção à escuridão para ela a princesa, enfim, retome seus deveres de esposa.

O cenário do ato I

Tudo avança de forma ao mesmo tempo sofisticada e econômica ao longo dos três atos. Os cenários concebidos por Frank Philipp Schlößmann e Matthias Lippert são limpos e elegantes. No primeiro ato, um emaranhado de escadas, inspirado nos labirintos do artista gráfico holandês Maurits Cornelis Escher (1898-1972), funciona como um beco sem saída que aprisiona os personagens. No ato II, os amantes – que deveriam estar em um jardim – parecem em um ambiente prisional, com luzes de vigilância constante e salas de observação no alto, na qual os capangas do Rei Marke acompanham tudo. Nesse ambiente opressivo e intimidador, Das Licht! Das Licht! ganha um sentido extra. No térreo, grandes arcos de metal remetem a objetos de tortura, que Tristão e Isolda usam para automutilação e também para a simulação de jogos eróticos (como a asfixia no “clímax” de seu dueto).

No derradeiro ato, a luz de Reinhard Traub traz inestimável contribuição para a mise-en-scène. A cena começa à direita, com uma iluminação amarelada como a luz de velas por sobre o que parece ser o velório de Tristão. Quando o cavaleiro levanta-se e começa a delirar, várias Isoldas vão surgindo em pirâmides holográficas, nas quais o herói adentrava para se deparar com a destruição do simulacro de seu desejo/amor.

Os figurinos de Thomas Kaiser são codificados por cores: os amantes vestem azul, os serviçais Kurwenal e Brangäne usam verdes, e o Rei Marke tem costume amarelo dourado.

 

Negócio familiar

Depois de Richard Wagner (1813-1883), seu filho Siegfried Wagner foi diretor artístico do Festival de Bayreuth de 1908 a 1930. Winifred Wagner assumiu a posição após a morte de seu marido Siegfried, em 1930, e converteu-se ao nazismo, tornando-se amiga de Adolf Hitler e garantindo a independência artística do festival durante o Terceiro Reich. De 1933 a 1942, os diretores do festival foram Karl Elmendorff e Hermann Abendroth.

Depois de um período que a Bayreuther Festspielehaus serviu de teatro para os soldados estadunidenses, Wolfgang Wagner, neto do compositor, assumiu a direção do Festival em 1951, inicialmente ao lado de seu irmão Wieland Wagner. Apresentando um festival novo e polêmico – mas ajudando a tornar Bayreuth um dos mais populares destinos no universo lírico –, ficou no cargo até 2008, quando sua filha Eva Wagner-Pasquier assumiu o posto, ao lado da prima Katharina Wagner (deixando para trás a sobrinha Nike Wagner).

“Só porque seu sobrenome é Wagner não significa necessariamente que você é uma artista”, diz Nike. No entanto, por esta montagem de Tristão e Isolda, Katharina Wagner mostra que tem talento de sobra para continuar, por muitos anos, à frente de um dos festivais de ópera mais famosos – e disputados – do mundo.

Isolda e Tristão não bebem a poção do amor

 

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