Escrito por em 22 nov 2018 nas áreas Artigo, Lateral

Corpos artísticos da casa precisam lutar por sua relevância.

Como foi amplamente divulgado, na segunda-feira da semana passada, dia 12 de novembro, o diretor e produtor Fernando Bicudo foi exonerado do cargo de presidente da Fundação Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Em seu lugar, foi nomeado Ciro Pereira da Silva, servidor de carreira do Municipal, que é nada menos que o sexto presidente da casa desde o início do atual mandato do governador Luiz Fernando Pezão.

O motivo principal da exoneração de Bicudo foi o de sempre: política. É fácil retirar do Municipal qualquer pessoa que ocupe a presidência da casa: basta que o secretário de Cultura queira se livrar do profissional, seja por que motivo for, e que o governador assine embaixo. Foi assim com João Guilherme Ripper no começo do ano passado, e foi assim de novo com Fernando Bicudo este mês. Pronto, está feito. O que isso demonstra? Dentre outras coisas, que o modelo de gestão do Theatro Municipal do Rio de Janeiro está falido.

 

O modelo de gestão atual

Como funciona hoje (e já há muito tempo) a cadeia de comando do Municipal? O governador nomeia o secretário de Cultura, que por sua vez nomeia o presidente da Fundação Teatro Municipal, que monta a sua equipe e começa a tocar o barco. Esse modelo, baseado na política, sempre gerou a chamada “falta de continuidade”, uma vez que o gestor do TMRJ era trocado a cada quatro anos, e quem entrava sempre recomeçava do zero. Das duas, uma: ou quem saía nada deixava que pudesse subsidiar o começo do trabalho do seu sucessor; ou até deixava, mas o sucessor, por pura vaidade, descartava sumariamente o que fora preparado por quem estava de saída, preferindo ele mesmo recomeçar do zero para “dar a sua cara” ao Municipal – seja lá o que essa abstração queira dizer.

O preço era pago a cada troca de mandato, até a chegada de Carla Camurati à presidência do Municipal. A diretora se manteve no cargo durante os dois governos do hoje reconhecidamente corrupto Sérgio Cabral Filho, conseguindo a proeza de ficar pouco mais de sete anos à frente do Municipal (entre o fim de 2007 e os primeiros dias de 2015), mantendo, pela primeira vez desde Deus sabe quando, certa continuidade na gestão da casa.

E o que Camurati conseguiu ao garantir essa continuidade? Não muita coisa: reformou o prédio do Municipal, que já começa a apresentar novamente os primeiros sinais de deterioração; construiu uma nova central técnica de produções, que até hoje parece que não ficou totalmente pronta, uma vez que não é utilizada pela casa; tocou uma programação mediana, recheada de altos e baixos, e sempre muito criticada. Camurati, até onde se sabe, tinha contato direto com o então governador e, apesar disso, nunca conseguiu melhorar as condições de programação da casa. Na maior parte de sua gestão, ofertou apenas duas ou, quando tanto, três produções líricas por ano.

No fim das contas, Carla Camurati fez pouco, muito pouco, pelo Municipal. Se a sua gestão serviu para alguma coisa, foi para mostrar que, no modelo atual, de total dependência da política, mesmo com continuidade, a casa não tem como andar para a frente. E, quando não anda para trás, o máximo que consegue é andar para os lados: o Municipal não evolui, não sai do lugar.

 

A última “gestão”

Quando Luiz Fernando Pezão assumiu o seu novo mandato de governador em 2015 (ele, então vice-governador, havia assumido o governo estadual nos últimos meses do segundo mandato de Cabral Filho), e com a saída de Camurati, começou uma série que levaria o Theatro Municipal a ter seis presidentes em menos de quatro anos, a saber: Isaac Karabtchevsky (de janeiro a junho/2015); João Guilherme Ripper (de junho/2015 a fevereiro/2017); André Lazaroni (de março a novembro/2017); Leandro Monteiro (interino, de novembro/2017 a janeiro/2018); Fernando Bicudo (de janeiro a novembro/2018); e agora Ciro Pereira da Silva (de novembro/2018 até, muito provavelmente, ser exonerado pelo novo governo que assume em 2019).

De todos esses presidentes, a única gestão bem avaliada foi a de Ripper, mas o maestro e compositor, mesmo elogiado pela imprensa e pela crítica, foi vítima de politicagem, como todos sabemos. Karabtchevsky tinha boas intenções, mas não sabia como fazer o Municipal funcionar administrativamente. Lazaroni não tinha tão boas intenções assim e, após exonerar Ripper e ter fracassada a sua tentativa de nomear o ator Milton Gonçalves para a função, passou o ano de 2017 enxugando gelo na casa, em meio à sua ignorância brechtiana e à crise que atrasou bastante os salários dos artistas e funcionários do Municipal. Leandro Monteiro, por sua curta interinidade, não conta, e Fernando Bicudo concentrou-se mais na sua verdadeira especialidade: aparecer na mídia.

Como as gestões anteriores já foram bem esmiuçadas neste espaço, concentremo-nos na de Bicudo, citando os principais fatos que a marcaram:

1- Em 10/01/2018, Bicudo emitiu a Portaria FTM/RJ N° 302, na qual elevava o valor do aluguel do Municipal para R$ 90 mil ou 25% da bilheteria, o que fosse maior – ato este que lhe rendeu importantes elogios (leia aqui), uma vez que o valor do aluguel da casa sempre foi considerado muito baixo.

2- Em março, anunciou uma temporada que ele sabia ser irrealizável em meio ao caos das finanças estaduais. Mais detalhes aqui e aqui.

3- Decidiu encerrar as atividades da Academia de Ópera Bidu Sayão, projeto iniciado na elogiada gestão de João Guilherme Ripper (na época, Bicudo chegou a afirmar ao Movimento.com que uma de suas metas de “gestão” era recriar a Escola de Canto Lírico Carmen Gomes, mas, até hoje, não se tem qualquer notícia de nenhuma ação real para a recriação da citada Escola. Leia mais aqui.

4- Decidiu montar uma ópera (Un Ballo in Maschera) cujo custo elevado inviabilizou a realização de parte da temporada anunciada, uma vez que a programação inteira, como já mencionado no item 2, era irrealizável. Como agravante, cite-se que a ópera recebeu montagem de qualidade bastante duvidosa e foi mal cantada pelos dois solistas estrangeiros convidados para o elenco principal (inicialmente o custo da produção foi da ordem de R$ 2,19 milhões, mas depois foi reduzido para R$ 1,67 milhão, exclusivamente por determinação expressa do secretário estadual de Cultura). Leia mais aqui (o texto deste link foi publicado antes da revisão aqui mencionada). Para efeito de comparação, a montagem de Un Ballo in Maschera realizada no Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém, custou R$ 936 mil, conforme informações da secretaria estadual de Cultura do Pará.

5- Em 12/07/2018, através da Portaria FTM/RJ N° 331, revogou a Portaria N° 302, citada no item 1, que aumentava o valor dos aluguéis do Municipal e que fora o único real motivo de elogios recebidos pela sua gestão. Questionado pelo Movimento.com em 05/09, através da Assessoria de Imprensa da casa, sobre o motivo dessa revogação, Fernando Bicudo não respondeu, apesar de nossa insistência.

6- Por fim, mesmo com o Theatro Municipal sem dinheiro, sem condições de apresentar uma programação própria digna, praticamente no fundo do poço, Fernando Bicudo parecia considerar normal posar mais de uma vez para a imprensa todo sorridente como se tudo estivesse indo muito bem, inclusive para divulgar certa ópera em processo de composição por Gilberto Gil e que seria apresentada na casa. Recentemente, ele mesmo publicou em seu perfil em uma rede social uma foto em que estava feliz da vida ao lado do cantor Zeca Pagodinho, que se apresentaria no Municipal em noite de aluguel. Como poderia estar Bicudo feliz e sorridente com a paupérrima programação própria da casa? Qual a necessidade de Bicudo de ter tanta exposição em meio à sua “gestão” insípida?

E isso para não dizer que, ao aceitar se tornar assessor de André Lazaroni na secretaria de Cultura no começo de 2017, Bicudo, de certa forma, demonstrou concordar com a exoneração do gestor mais bem avaliado do Municipal em mais de uma década. Além disso, para não me alongar muito nas contradições de Bicudo, cito apenas mais uma: depois de passar quase dois anos (primeiro como assessor da secretaria de Cultura e depois como presidente da Fundação Teatro Municipal) fazendo elogios públicos ao péssimo governador Pezão, agora, tão logo foi confirmada a eleição de Wilson Witzel para o governo estadual, passou a elogiar este último abertamente nas redes sociais, sem medo de ser feliz. Há quem diga que este foi o motivo principal de sua exoneração. Como o agora ex-presidente faz parte da equipe de transição de Witzel, está explicado o excesso de elogios nas redes sociais. O leitor inteligente saberá interpretar este fato.

 

Modelos alternativos

Pelo exposto até aqui, não é preciso muito esforço para concluir que o modelo atual de gestão do TMRJ está falido, pois mesmo que haja vontade política de um governante para fazer o Municipal prosperar, basta uma troca de governo para tudo retornar à estaca zero. Ou então, mesmo quando um gestor como João Guilherme Ripper faz um bom trabalho, basta uma mudança política na secretaria de Cultura para que este gestor seja exonerado e para que o seu cargo seja oferecido a um apadrinhado qualquer.

No Brasil, atualmente, só há dois modelos de gestão vigentes para teatros líricos: o primeiro é este, falido, acima retratado. O segundo é por meio de Organizações Sociais, as chamadas OS. O problema é que esse outro modelo também tem os seus pontos fracos. E, se há gestões que deram certo no longo prazo através do modelo por OS, como são os casos da OSESP e da OFMG, há também exemplos problemáticos, como o do Theatro Municipal de São Paulo, onde, na gestão Instituto Brasileiro de Gestão Cultural, ocorreram sérias irregularidades, e, agora, com o Instituto Odeon, a casa está sob a gestão de uma instituição que, desde o início, não se mostrou familiarizada com a ópera, nem fez questão de se cercar de profissionais capacitados para a gestão específica de um teatro de ópera.

Durante muito tempo, cogitou-se nos bastidores que o secretário municipal de Cultura de São Paulo, André Sturm, se intrometia na gestão do Instituto Odeon. Hoje, após as revelações da semana passada, segundo a qual Sturm estaria pressionando o Odeon a deixar a gestão do TMSP, o próprio Instituto já reconhece publicamente que a intromissão do secretário é, de fato, verdadeira. Ora, para a secretaria se intrometer na gestão, para que precisa de OS? E, se considerarmos que até gestões que deram certo por esse modelo, como a da OSESP, sofreram com cortes unilaterais de verbas, com a parte prejudicada aceitando calada tal corte, podemos concluir que tal modelo não é exatamente a maravilha que muitos apregoam.

Há quem defenda que, no caso de teatros de grande porte como o Municipal do Rio, e descartada a hipótese de gestão por OS, o gestor deveria ter um mandato, como ocorre nas agências reguladoras (ANATEL, ANEEL, etc.), blindando-o de eventuais mudanças políticas. Por exemplo, com um mandato de seis anos, o gestor entrará seguramente pelo governo seguinte, que não teria como tirá-lo do cargo. Para isso, e no caso específico do TMRJ, seria necessária a aprovação de uma lei estadual para alterar seu estatuto, estabelecer esse mandato e ainda regulamentar como se daria a escolha do gestor: de que forma seria feita? Haveria a participação dos funcionários e artistas da casa na escolha? O governador escolheria por lista tríplice? Etc…

De qualquer forma, o que não se pode mais negar é que o modelo atual está com a validade vencida. Frequento o Municipal desde o começo de 1996 e, nesses mais de 20 anos acompanhando a programação da casa, exceto pelo ano em que o Municipal ficou fechado para reformas, não houve nenhuma temporada (nenhuma!) em que ali fosse apresentada somente uma ópera encenada. Em alguns anos até aconteceu de apenas dois títulos serem encenados. Ano passado, por exemplo, mesmo com todas as dificuldades de atraso de salários, duas óperas foram apresentadas. Até chegarmos a 2018, quando tivemos uma única ópera completa, com os cumprimentos de Fernando Bicudo, que gastou boa parte da verba que tinha em uma única produção.

 

Corpos artísticos precisam se mostrar relevantes

Não sei qual é o melhor modelo de gestão para o Municipal, mas sei que o modelo atual não se sustenta mais. O governador eleito disse à imprensa que faria um “choque de gestão” na casa, seja lá o que isso quer dizer, já que ele não detalhou as ações que pretende tomar, nem a jornalista que colheu o depoimento se interessou em perguntar o que ele queria dizer com isso.

O que sei é que está na hora de os funcionários e os artistas do Theatro Municipal tomarem uma decisão, que envolve o seu engajamento na elaboração de um novo modelo de gestão para a casa. Não adianta esperar que o governo faça isso, pois dificilmente políticos terão tal iniciativa. Os corpos artísticos deveriam se perguntar: para que servem? Para ensaiar muito e se apresentar pouco? Qual a função do Theatro Municipal na sociedade carioca? Ser alugado para terceiros na maior parte do ano? Os bailarinos são pagos mensalmente com dinheiro público para quê? Para apresentar dois ou três balés por ano? Os coristas são pagos mensalmente com dinheiro público para quê? Para se apresentarem em uma ou duas óperas encenadas por ano e em mais meia dúzia de concertos de apresentação única cada um?

As perguntas acima podem parecer desagradáveis, mas eu creio que bem mais desagradável seria se a sociedade começasse a pensar que os corpos artísticos do Theatro Municipal são dispensáveis ou irrelevantes, devido ao fato de serem pouco utilizados. Afinal, em algum momento a sociedade poderia, sim, se perguntar: “o estado paga o salário de artistas (com dinheiro público e com direito a décimo terceiro) para eles pouco ou nada se apresentarem?”. Como vivemos tempos estranhos, em que a principal lei de fomento à Cultura do país é abertamente questionada, não me surpreenderia se a sociedade começasse a pensar assim, se começasse a se perguntar sobre a relevância de se manter corpos artísticos como os do Municipal, por mais absurdo que isso possa parecer.

Dou um exemplo prático: o Theatro São Pedro-SP, que nem coro oficial tem, é, nos dias de hoje, mais relevante para a ópera no Brasil do que o Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Isso não é discutível, é fato consumado: basta comparar as temporadas líricas das duas casas nos últimos anos (gestão Ripper à parte). O TMRJ vive muito mais da sua história, e muito menos do que produz hoje.

Exatamente por isso, os seus corpos artísticos precisam lutar pela sua relevância, precisam lutar para exibir ao público a sua arte, engajando a parte da sociedade que ainda se importa com eles e com o Theatro Municipal. Ninguém fará isso por eles, muito menos os políticos.

 

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