Escrito por em 2 nov 2018 nas áreas Crítica, Lateral

No “Festival Ópera na Tela”, um excelente elenco marca produção da Ópera de Paris

Dentre os 12 títulos líricos que integram a edição 2018/2019 do Festival Ópera na Tela, o mais raro para nós, brasileiros, é sem dúvida Borís Godunóv. E foi exatamente essa raridade que me levou ao Parque Lage, no Rio de Janeiro, para assistir à projeção da ópera no dia 31 de outubro. A montagem que nos chega da grande obra-prima do compositor russo Modest Mússorgski, sobre seu próprio libreto, com base no drama homônimo de Púchkin, foi apresentada entre junho e julho deste ano na Opéra Bastille, em Paris, em sua versão original (1869).

Esta versão originalíssima da ópera, com orquestração do próprio compositor e dividida em quatro partes e sete quadros (portanto sem o ato polonês e sem a cena posterior à morte de Borís – que são acréscimos da versão de 1872), funciona maravilhosamente bem, dando à obra grande unidade dramática.

A ópera conta a histórica do homem (Borís) que, para ascender ao trono russo, teria assassinado Dmitri, o herdeiro do falecido Czar, então apenas uma criança. Anos depois, um jovem monge, Grigori, ao tomar conhecimento desse assassinato, e tendo a mesma idade que a criança teria se viva fosse, se faz passar pelo herdeiro e, com a ajuda da Polônia, então rival da Rússia, reivindica o trono.

A produção assinada pelo belga Ivo van Hove para a Opéra Bastille é minimalista, com figurinos contemporâneos de An D’Huys. O cenário único de Jan Versweyveld é centrado em uma grande escada que domina toda a encenação, e que pode ser entendida como a representação tanto da ascensão, quando da queda do trono. Alguns poucos elementos complementam cada cena. O desenho de luz do próprio cenógrafo funciona muito bem, assim como as projeções de imagens (do povo ou de paisagens) na parte superior do fundo palco (a cargo de Tal Yarden).

A referida economia cenográfica poderia levar a certa monotonia, mas isso não ocorre devido à preciosa direção de atores da produção, realizada pelo holandês Jan Vandenhouwe, parceiro de van Hove na empreitada. Todos os solistas apresentam um desempenho cênico irrepreensível, com gestos, movimentos e olhares repletos de significado.

Um ponto menos feliz da produção, aparentemente por decisão da direção cênica, é o corte de alguns compassos (e de algumas falas) no final da cena na fronteira com a Lituânia. Nada, nem mesmo a opção da direção para a conclusão dessa cena, justifica o corte. Apesar disso, a decisão, claro, não chega a prejudicar o espetáculo.

 

Ildar Abdrazakov e Ruzan Mantashyan


Vozes privilegiadas

O Coro da Ópera Nacional da Paris, preparado por José Luis Basso, está sempre muito bem nesta verdadeira ópera-coral (ópera em que o coro tem grande e importante participação). Por sua vez, a Orquestra da Ópera Nacional oferece uma performance excelente sob a condução de Vladimir Jurowski, que extrai do conjunto um som homogêneo e bem articulado, por vezes propositalmente seco. A dinâmica empregada pelo regente é bastante operística, servindo muito bem ao palco.

O elenco de 15 solistas é de encher os ouvidos. Como avaliar a qualidade vocal de cantores líricos por gravação está longe do ideal, faço aqui apenas uma breve análise das performances dos principais cantores.

Nas partes secundárias, destacam-se a jovem (apenas 16 anos) mezzo-soprano Evdokia Malevskaya, como Fiódor (filho de Borís); o ótimo baixo-barítono Evgeny Nikitin, como o monge Varlaam; o não menos ótimo tenor Vasily Efimov, como o Idiota (ou o Inocente, a depender da tradução); e a excelente mezzo-soprano Alexandra Durseneva, como a ama de Fiódor e Xenia. Ainda nas partes menores, interpretando muito bem o monge bêbado Missail, destaca-se também um cantor conhecido do público brasileiro: o excelente tenor inglês Peter Bronder, que em anos recentes cantou em São Paulo os personagens Herodes, em Salomé, e Mime, em O Ouro do Reno (esta última em forma de concerto).

A soprano armênia Ruzan Mantashyan exibiu uma voz fabulosa como Xenia, filha de Borís, enquanto o barítono russo Boris Pinkhasovich viveu um convincente Andréi Shchelkálov. O tenor russo Dmitry Golovnin está muito bem como o jovem monge Grigori Otrepiev (o falso Dmitri). Também tenor, o ucraniano Maxim Paster faz um Príncipe Shuiski exemplar, especialmente em termos cênicos, ao conseguir transmitir de forma brilhante a dúbia personalidade do Príncipe. O excelente baixo estoniano Ain Anger enfrenta com bravura e requintes de expressividade a parte do velho monge Pimen.

Chegamos ao protagonista. Eu já tinha ouvido Ildar Abdrazakov ao vivo, em janeiro de 2017, quando estava de férias na Itália. Na ocasião, o artista interpretou por uma récita (substituindo um colega que estava doente) o rei Felipe II no Don Carlo, de Verdi, apresentado então pelo Teatro alla Scala. Conheci ali, portanto, a imensa qualidade da sua voz, dotada de afinação precisa, grande segurança técnica e amplos recursos expressivos.

Agora, em Borís Godunóv, este grande baixo russo demonstra de maneira brilhante os sentimentos experimentados pelo czar: é amoroso com os filhos, duro e violento com o conspirador Shuiski, profundamente angustiado diante da lembrança do assassinato que cometeu para ser alçado ao trono. Na cena final, dá uma aula de como dominar o palco. Abdrazakov é o líder de um elenco espetacular, coeso e equilibrado.

 

Ain Anger (na escada à frente); abaixo, à direita: Maxim Paster e Ildar Abdrazakov


Ópera e “fake news”

Não posso encerrar esta resenha sem relatar uma sensação bastante curiosa que experimentei: ao assistir à ópera, notei um interessantíssimo ponto de contato entre a obra e os tempos atuais, motivo do título deste texto.

Há uma cena, no começo da quarta parte da ópera, em que o sofrido povo russo de então demonstra acreditar quase religiosamente que o falso Dmitri é realmente quem diz que é. Em outras palavras, as circunstâncias difíceis levam o povo a crer em algo que não é verdade, mas que, vindo ao encontro do que ele (povo) gostaria que fosse real, passa a ser uma “verdade compartilhada” entre a população. Qualquer semelhança com os nossos dias não é coincidência.


Borís Godunóv nos cinemas

Quem perdeu a projeção de Borís Godunóv no Parque Lage não precisa se preocupar. Agora, o filme da produção parisiense será apresentado em diversos cinemas do país. O leitor encontra aqui a programação detalhada, com cidades, cinemas, datas e horários. Em Aracaju, Petrópolis, Porto Alegre, Rio de Janeiro e São Paulo as datas já estão definidas. Nas demais cidades que integram o Festival Ópera na Tela, a programação ainda será divulgada.

 

Fotos: divulgação.

Nota do autor: Os nomes do compositor e de alguns personagens e ainda o título da obra analisada nesta resenha foram escritos, na medida do possível, segundo o sistema de transliteração do idioma russo elaborado por estudiosos da Universidade de São Paulo (USP). Já os nomes dos artistas foram mantidos com a grafia pela qual são conhecidos internacionalmente. Agradecimentos ao amigo e colega Irineu Franco Perpétuo pela pronta disponibilidade em auxiliar-me com questões referentes à transliteração.

 

Faça seu comentário