Escrito por em 25 nov 2018 nas áreas Lateral, Ópera, Programação, Rio de Janeiro

Piedade, uma ópera brasileira redondinha


Sobre esta ópera, leiamos o que nos diz Clóvis Marques.

João Guilherme Ripper mostra grande maturidade como compositor em obra encomendada pela Petrobras Sinfônica.

Não é todo dia que assistimos a uma nova ópera brasileira. Quando então uma obra como Piedade, estreada dias atrás em concerto da Orquestra Petrobras Sinfônica, junta um drama forte arraigado no imaginário nacional, uma partitura urdida com esplêndida inventiva por um compositor no auge de suas possibilidades e o gosto de explorar a vocalidade mais desabrida, não pode deixar de ser motivo de comemoração.

João Guilherme Ripper ofereceu ao público, na década passada, dois títulos que marcavam a intenção de não permitir que a dificuldade de montar uma ópera se interpusesse no caminho do seu talento preferencial: a música dramático-vocal. Domitila, inspirada na relação amorosa da Marquesa de Santos com Pedro I, tinha formato de bolso; anos depois, O Anjo negro, baseada na obra de Nélson Rodrigues, já adquiria contornos mais ambiciosos.

Piedade surgiu outro dia no palco do Vivo Rio, sob a regência de Isaac Karabtchevsky, como uma joia redonda em seu desígnio e acabamento. Em torno do enredo verista do rumoroso caso da morte de Euclides da Cunha, Ripper foi capaz de — manuseando apenas três personagens em quatro cenas — sustentar num só arco a atenção do público, que evidenciou seu entusiasmo.

Famoso desde 1902 com a publicação dos Sertões, sobre a saga de Antônio Conselheiro na Guerra de Canudos, Euclides da Cunha viajava muito para demarcação de fronteiras, e sua mulher, Anna, se envolveu com o cadete Dilermando de Assis. Notícias do romance chegaram aos ouvidos de Euclides, e o desfecho sanguinolento — batizado pela imprensa na época de “A tragédia da Piedade”, bairro onde morava Dilermando — deu-se na manhã de um domingo de 1909, quando Euclides chegou armado à casa do rival.

Ripper abraçou um desafio e tanto: lançar as bases do entrecho, contextualizar, conferir interesse e dar estofo aos personagens, sustentando o drama em pouco mais ou menos hora e meia. Na sucessão das cenas, vemos Euclides todo voltado para a exploração humana e geográfica do Brasil enquanto a mulher pede: “Olha para mim”; o encontro dela, fragilizada, com o militar muito mais moço e o início da sua história de amor; um confronto entre Euclides e Dilermando, cheio de tensão; e o desfecho trágico precedido de novas efusões amorosas de Dilermando e Anna.

O compositor, que chegou à música pela poesia, é também o autor do libreto. Em linguagem de evocação poética na medida justa, nos recitativos, árias e ariosos, seu texto dá asas à expressão dos protagonistas e à imaginação do público. Mas é na música que ele demonstra uma maturidade admirável.

A partitura de Piedade carreia uma mistura de linguagens — tonalismo expandido, discreto serialismo, influências brasileiras e talvez do musical — que serve magnificamente à comunicação. A orquestra, portadora do drama mas também de uma fervilhante vida própria, não raro ganha uma densidade sinfônica que contrasta com os interregnos a cargo do violão e a eloquência diamantina da escrita para os cantores — em si um prazer à parte nesta ópera”.

 

João Guilherme Ripper

João Guilherme Ripper

Estudou na Escola de Música da UFRJ, instituição na qual atuou como professor e diretor (entre 1999 e 2003). Cumpriu doutorado na The Catholic University of America, nos Estados Unidos. Frequentou cursos de Regência Orquestral na Universidad de Cuyo e Teatro Colón, Argentina, e Financiamento e Economia da Cultura, na Université Paris-Dauphine, na França.

Colabora frequentemente com solistas, grupos de câmara e orquestras na criação de novas obras como Concerto a Cinco, encomendado pelo Quinteto Villa-Lobos, Olhos de Capitu, encomendada pela Orquestra Sinfônica Brasileira, Desenredo e Cinco canções de Vinicius de Moraes, encomendadas pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

É um dos mais destacados compositores de ópera no país, sendo o autor do libreto e da música de Domitila (2000), Anjo Negro   (2003/2012), Piedade (2012), Onheama (2014), estreada em maio no 18° Festival Internacional Amazonas de Ópera. É

 

FICHA TÉCNICA

Direção cênica: Daniel Herz
Direção musical: Priscila Bomfim
Direção de arte: Marcelo Marques

Elenco

Laura Pisani – Anna da Cunha
Homero Velho – Euclides da Cunha
Daniel Umbelino – Dilermando de Assis

 

SERVIÇO

 

Série Sala Lírica – ópera “Piedade” de João Guilherme Ripper

Dias 30/11 (sexta-feira) e 01/12 (sábado), às 20h

Sala Cecília Meireles (Largo da Lapa, 47 – Centro – Rio)

Ingresso: R$ 40,00 e R$ 20,00 (meia)

 

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