Escrito por em 12 nov 2018 nas áreas Crítica, Lateral, Ópera

Ópera de Britten tem elenco equilibrado e excelente encenação no Theatro São Pedro, que deverá apresentar títulos de Mozart e Janáček em 2019.

Três grupos de personagens se apresentam no palco: um de criaturas mágicas, outro de amantes e um terceiro de artesãos (também chamados de rústicos). Oberon, o rei das fadas, está enfezado com sua esposa, Tytania, porque ela não quer lhe ceder um jovem pajem indiano, e resolve pregar-lhe uma peça com a ajuda de Puck, um espírito mágico. Utilizando-se de uma erva encantada, faz com que Tytania se apaixone por Bottom, um dos artesãos que ensaiam uma peça de teatro que será apresentada nas bodas de Theseus, Duque de Atenas, e Hippolyta, Rainha das Amazonas. Bottom tem sua cabeça transformada na de um burro pelas artes de Puck, e é pelo Bottom transfigurado que Tytania se enamora. Em meio a tudo isso, temos os encontros e desencontros entre os amantes Lysander e Hermia e Demetrius e Helena. No fim, tudo se acerta, e durante as bodas a peça de teatro dos artesãos é apresentada. Tal peça é entendida, geralmente, como uma grande paródia à ópera italiana, beirando o burlesco.

Este é o resumo de A Midsummer Night’s Dream (Sonho de uma Noite de Verão), ópera em três atos de Edward Benjamin Britten, sobre um libreto adaptado pelo próprio compositor e por Peter Pears, seu companheiro, da peça teatral homônima de William Shakespeare (o libreto utiliza, praticamente, o texto shakespeariano). A obra encerra a temporada de quatro títulos encenados pelo Theatro São Pedro-SP em 2018, com récitas até 18 de novembro.

O que mais chama a atenção na música que Britten escreveu para esta ópera é a sua qualidade dramática inquestionável. O compositor trabalha com influências diversas para cada grupo de personagens: uma música de caráter mais burlesco acompanha os artesãos; outra de tom mais romântico, os amantes; e ainda outra, mais etérea, os seres mágicos. A orquestração costura brilhantemente essa trama intrincada.

 

Johnny França, Daniel Umbelino, Luciana Bueno e Manuela Freua


Visual deslumbrante

Na montagem da casa da Barra Funda, o encenador Jorge Takla posiciona a ação no começo do século XX e opta pela interação entre o mundo humano e aquele dos seres mágicos. As fadas que formam o séquito de Tytania durante a noite, por exemplo, disfarçam-se de criadas do palácio de Theseus durante o dia. Há também outras interações, que prefiro não entregar aqui, deixando-as para a percepção do espectador que ainda não assistiu ao espetáculo. Cabe ainda destacar a excelente direção de atores de Takla: todo o elenco apresenta ótimo rendimento cênico, totalmente integrado ao “espírito” (com duplo sentido, por favor) da encenação.

A equipe de criação contribui bastante para o resultado final. O cenário único de Nicolás Boni, que conjuga a grande escada de um palácio ao verde da floresta que se espalha pelo palco, é visualmente deslumbrante, como praticamente tudo o que este notável artista argentino faz. Alguns adereços complementam a ambientação conforme a necessidade. Sobre o cenário paira a luz sensível de Caetano Vilela, valorizando e enriquecendo cada cena da ópera. Uma grande, bela e quase hipnotizante lua cheia está sempre por perto, seja no centro do palco, seja entrevista através da janela do palácio.

Os belos e inspirados figurinos de Fábio Namatame contribuem não só para a encenação como um todo, mas, especificamente, para reforçar a supracitada interação entre os mundos dos humanos e dos seres mágicos: merece ser mencionado o capricho das barras verdes das saias das criadas, como que a deixar uma pista de seu segredo. A correta coreografia de Anselmo Zolla complementa a montagem.

Cabe ressaltar ainda que Jorge Takla e sua equipe propõem questões instigantes que não são respondidas de forma direta, deixando ao público a tarefa de completar as lacunas. O que vemos diante de nós é sonho ou realidade? É um palácio ou uma floresta? A riqueza da encenação reside exatamente nesta gama de possibilidades.


Música é bem defendida

Na estreia de 10 de novembro, o Coro arregimentado para a ocasião, formado por jovens cantoras, esteve muito bem (não há informação no programa de sala sobre quem preparou o grupo). O mesmo ocorreu com a Orquestra do Theatro São Pedro: depois da sua performance bem aquém do desejável na ópera Kátia Kabanová, em agosto, desta vez o conjunto rendeu muito mais sob a batuta atenta e sensível de Cláudio Cruz. Na maior parte da récita, o regente conseguiu extrair dos músicos da OTSP um som limpo, com boa articulação. Mesmo que aqui ou ali se pudessem perceber ligeiras derrapadas, o resultado final foi bastante satisfatório e consideravelmente superior àquele obtido na ópera de Janáček.

Nada menos que dezenove solistas participam da montagem, e pode-se dizer que há grande equilíbrio entre eles, uma vez que apenas dois dos que interpretam personagens de destaque apresentaram, na récita de estreia, performances vocais que podem ser consideradas bem abaixo da média, como veremos a seguir. Divido o elenco entre os três grupos de personagens para facilitar a identificação.

Nas pequenas partes das fadas Cobweb, Peaseblossom, Mustardseed e Moth, respectivamente, Tatiane Reis, Amanda Souza, Chiara Guttieri e Thaís Azevedo estiveram bem. A contralto Kismara Pessatti apresentou-se bem no geral, apesar de ter demonstrado certo desconforto em algumas passagens da parte de Oberon. Vale lembrar que este personagem foi escrito originalmente para contratenor. Por sua vez, a soprano Rosana Lamosa fez uma ótima Tytania, com uma voz sempre à vontade e bem projetada. Na importante parte falada de Puck, o ator Rodrigo López também se apresentou muito bem: caracterizado como um fauno, o artista imprimiu à sua interpretação um ar de curiosa estranheza.

Dentre os rústicos/artesãos, Jabez Lima (Snout/Muro) esteve um degrau abaixo de seus colegas Erick Souza (Starveling/Luar) e Luiz Guimarães (Flute/Tisbe), que estiveram bem. O baixo Saulo Javan apresentou-se muito bem como Peter Quince, assim como o Snug/Leão foi muito bem defendido pelo baixo Anderson Barbosa. O principal destaque deste grupo foi o ótimo Bottom/Píramo do barítono Homero Velho: a voz do artista, como já registrado neste espaço em outras oportunidades, funciona muito bem com boa parte do repertório do século XX, e desta vez não foi diferente. Exceto pelas poucas passagens em falsete, que não receberam emissão satisfatória, todo o restante de sua performance só merece elogios, com sua voz apresentando-se sempre segura e bem projetada.

Integram o grupo dos amantes as duas vozes que se apresentaram abaixo da média, conforme mencionado alguns parágrafos acima. O baixo Pedro Ometto (Theseus) ofereceu uma voz de sonoridade sempre opaca, sem nenhum brilho, sendo claramente suplantado pelos demais baixos do elenco. Por sua vez, a soprano Manuela Freua foi ainda menos satisfatória, compondo uma Helena com sérios problemas de afinação e uma emissão baseada em técnica bastante discutível.

Os demais solistas deste grupo apresentaram-se muito bem. A mezzosoprano Juliana Taino interpretou a pequena parte de Hippolyta com excelente voz, confirmando ser um talento em ascensão. O tenor Daniel Umbelino foi um corretíssimo e seguro Lysander. A mezzosoprano Luciana Bueno começou um pouco insegura como Hermia, mas rapidamente se ajustou e ofereceu uma das performances vocais mais gratificantes da noite. Também muito gratificante foi ouvir o Demetrius do barítono Johnny França: outro talento já há alguns anos em franca ascensão, o artista possui uma voz dotada de timbre marcante e invejável pasta baritonal.

Como se pode perceber pelo que foi acima exposto, a produção do Theatro São Pedro para A Midsummer Night’s Dream é um dos pontos altos da temporada lírica nacional de 2018, e confirma a boa relação da casa com a obra de Britten. A produção anterior do Theatro São Pedro para uma ópera do compositor (A Volta do Parafuso, de 2013) também ficou na memória. Que a próxima, portanto, não demore muito.


Óperas para 2019

O Theatro São Pedro ainda não anunciou oficialmente sua temporada lírica para o próximo ano, mas, nos bastidores, já começam a surgir as primeiras informações. Tudo indica que, se não houver mudança de última hora, a casa deverá apresentar no próximo ano as óperas La Clemenza di Tito, de Mozart, e O Caso Makropulos, mantendo Janáček no repertório. Comenta-se também a possibilidade de o São Pedro montar uma ópera de Rossini, corrigindo a falha de todos os principais teatros brasileiros em 2018, quando o compositor italiano não teve sequer uma ópera encenada no país no ano em que são lembrados os 150 anos de sua morte.

 

Fotos: Heloísa Bortz. Na foto do post, Rosana Lamosa e o belíssimo cenário da ópera.

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