Escrito por em 6 dez 2018 nas áreas Lateral, MPB, Notícia

Artista relança pela álbum que encerra as comemorações de 60 anos da Bossa Nova

O álbum ‘Eugénia Melo e Castro canta Vinícius de Moraes’ chegou ao público no ano de 1994, há exatamente 24 anos. Produzido por Wagner Tiso o disco se tronou histórico não apenas pelo repertório do poetinha em voz lusitana, mas por trazer o piano do mestre Tom Jobim na faixa ‘Canta Mais’, em uma de suas últimas gravações e Egberto Gismonti em duas faixas. A Som Livre relança esse projeto encerrando as comemorações dos 60 anos da Bossa Nova.

Além dele, a cantora e compositora Eugénia Melo e Castro acaba de lançar pelo Selo Sesc o álbum Mar Virtual, no qual revisita a obra de seu pai, o poeta concreto português E. M. de Melo e Castro, musicando 10 poemas, na companhia de Emilio Mendonça (piano) e mais duas autorias em parceria com Mário Laginha, uma de Gil Assis, e uma de Ana Deus/ Alexandre Soares (14 poemas musicados, no total). Neste genuíno encontro entre pai e filha; entre voz e poema; entre experimentação e desafio, filha e pai conjugam, em uníssono, o amor e o afeto pela palavra e a música, avalia o jornalista Jorge Henriques Bastos.

 

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Sobre a gravação de Vinícius, Eugénia relembra o processo de escolha e gravação

A ideia de gravar um disco de homenagem a Vinícius de Moraes cada vez fazia mais sentido para mim. Desde sempre eu imaginava aqueles poemas cantados por mim, no som da língua portuguesa que se fala em Portugal, no som diferente das palavras, das sílabas, nas divisões, no tempo dos verbos, na intenção e na construção das frases. Cheguei a imaginar Vinícius a escrever com a nítida intenção de um dia ouvir um cantor português cantar os seus poemas.

Fiz a seleção das músicas sempre com essa sensação.  Descobri em Vinícius um Poeta também compositor de música, senhor da melodia das palavras, parceiro de si mesmo, parceiro também de Tom Jobim, de Cláudio Santoro, de Baden Powell e de Edu Lobo. O meu disco “Canta Vinícius” estava desenhado na minha cabeça. Acordava Vinícius e dormia Vinícius.

Convidei Wágner Tiso para dividir a produção comigo. Construímos um conceito camerístico, quase solene, que se desenvolveu e cresceu com as participações brilhantes de todos os músicos convidados. Aproveitamos e gravamos o disco inteiro no piano do Tom Jobim, que ainda estava no estúdio desde a última gravação do disco dele, pedimos autorização para usar, e assim foi, tudo meio secreto.

Um dia o Tom Jobim e o Chico Buarque pediram para invadir uma tarde de estúdio, e do piano, dentro do meu horário, porque precisavam gravar “Choro Bandido” para o Songbook do Edu Lobo. Eu “autorizei” e o primeiro a chegar foi o Tom. Ele entrou no estúdio, estávamos a trabalhar numa música, e ele perguntou, que música é essa? Era dele……. rimos, e ele perguntou: Géninha, o que você está gravando  exatamente? E eu contei, estou a gravar um disco em homenagem a Vinícius e por acaso 60% das músicas são suas. Ele riu e perguntou: Quais músicas minhas ainda não foram gravadas? Eu respondi, CANTA MAIS. Ele levantou-se, olhou para o Paulinho Jobim, que estava com ele, e disse, Paulinho, por favor tira o tom dela, amanhã estamos aqui às 11 da manhã. E foi o primeiro a chegar no dia seguinte. Estávamos no final de Agosto de 1994.

Nesse ano de 94, a gravadora Som Livre iria abrir a sua filial em Portugal, e João Araújo adorou a ideia de entrar em Portugal com o lançamento de um disco que fosse brasileiro e português, ao mesmo tempo. Não revelei nada a João Araújo, sobre o repertório por mim escolhido. Quando ele me perguntava eu revelava apenas que estava tudo muito bonito. No final da gravação, na audição do disco na cobertura da Som Livre em Botafogo, João Araújo levou um susto. Era um disco bem diferente do que ele tinha imaginado. Faltava o samba. Mas eu não poderia cantar samba, não ficaria natural uma cantora portuguesa a cantar samba, argumentava eu. No final ele concordou.

E o dia amanheceu em paz.

Hoje, passados 24 anos, e analisando a obra de Vinícius, sei que poderia e gostaria de ter gravado, pelo menos, mais umas 20 músicas. Faltou, sem dúvida, “Chega de Saudade”, que nasceu no mesmo ano que eu, 1958. Acho que ainda vou a tempo.

Eugénia Melo e Castro
São Paulo, 30 de Junho de 2018

 

Faixas CD

  1. Eu Sei Que Vou Te Amar
  2. Canta, Canta Mais – Part. Especial: Tom Jobim
  3. Chora Coração
  4. Canção Do Amor Ausente – Part. Especial: Eduardo Álvares
  5. Derradeira Primavera – Part. Especial: Adriano Jordão
  6. Modinha – Part. Especial: Egberto Gismonti
  7. Por Toda A Minha Vida (Exaltação Ao Amor)
  8. Medo De Amar (Vire Essa Folha Do Livro)
  9. O Que Tinha De Ser
  10. Serenata Do Adeus
  11. Amor e Lágrimas
  12. Canção do Amanhecer
  13. Valsa de Eurídice
  14. Soneto de Separação
  15. Canção Do Amor Demais – Part. Especial: Egberto Gismonti

 

Eugénia Melo e Castro 

Inaugurou a sua carreira pioneira entre Portugal e Brasil em 1982. Ao longo deste  35 anos de carreira, Eugénia fez centenas de shows e lançou 26 CDs em ambos os países.

No Brasil fez parcerias autorais, entre outros, com Caetano Veloso, Toninho Horta, Francis Hime, tendo gravado em duetos com Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Ney Matogrosso, Adriana Calcanhoto, Gonzaguinha, Gal Costa, Egberto Gismonti,  Wágner Tiso, Jacques Morelembaum, Jorge Ben Jor, Carlos Lyra, Chico César, Moska.

Em Portugal trabalhou com Júlio Pereira, Mário Laginha, Jorge Palma, António Pinho Vargas, Pedro Caldeira Cabral, Sérgio Godinho, Fausto, Carlos Zingaro, e Zeca Afonso.

www.eugeniameloecastro.com

 

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