Escrito por em 3 dez 2018 nas áreas Crítica

O início virtuosístico extrai o melhor de Glennie

Só me lembro de ver a plateia da Sala Minas Gerais tão ansiosa antes de um concerto quando Nélson Freire lá pisou pela primeira vez, há alguns anos. “Ela toca descalça ou com sapatilha para sentir as vibrações”, ouvi de um rapaz. “Como pode? É um milagre!”, exclamou uma senhora. “Ela tem que ficar de olho no regente, absolutamente concentrada, senão...”, explicou um conhecido estudante de música.

Ao 3º sinal, o burburinho deu lugar àquele sacro silêncio que precede a beleza, vencido com um golpe avassalador de gongo pela mítica percussionista escocesa Evelyn Glennie. Primeira solista de seu instrumento a criar e manter uma sólida carreira, Glennie, o maestro Fábio Mechetti e sua Filarmônica de Minas Gerais preencheram o espaço de cores com Veni, Veni Emmanuel, para percussão e orquestra, do britânico James MacMillan (1959). A obra de 1992 foi dedicada à própria solista e exige um aparato de instrumentos que inclui marimba, vibrafone, diversos tambores, blocos de madeira, pratos, sinos e companhia.

O início virtuosístico extrai o melhor de Glennie. As gradações dinâmicas únicas fazem cada golpe de suas baquetas ter um coração próprio. Nada é aleatório ou displicente. Ao mesmo tempo, soa tão natural e orgânico – será que os sons vindos do silêncio são assim, mais amorosos? Ao ouvi-la, perde-se a noção de ritmo como organização do tempo. Como se não houvesse chance de ter o “antes”, nem o “depois”. Tudo é para ser exatamente aquilo, naquele preciso instante; impossível imaginar outro pulso: há uma verdade convincente, quase absoluta. Na matemática inumerável dos afetos, ela “é” o próprio tempo.

Trafegando de um lado para o outro do palco, olhos fixos na condução disciplinada de Mechetti, Evelyn Glennie nos proporcionou um espetáculo de rara sensibilidade. Bastava ver uma célula apenas – um pequeno diminuendo da marimba, que conduz à parte lenta da obra, por exemplo – para se notar a musicalidade que emerge de seu mundo. E é nessa parte lenta que a orquestração mágica de MacMillan faz ouvir com mais clareza o motivo religioso que dá nome à sua peça, concedendo um pedal sonoro para as intervenções mais dramáticas da solista.

A ovação foi merecida. As emoções sinceras.

E depois deste caleidoscópio sonoro, como reagir ao Prelúdio para “A Tarde de um Fauno”, de Debussy (1892-1918)? Caberia questionar se tantas sutilezas seriam apropriadas para um mesmo programa, afinal ambas as peças exploram muito os coloridos timbrísticos, ainda que com idiomas diferentes. Porém, logo somos capturados pelo sopro diáfano e de linhas incorpóreas da flauta de Cássia Lima, evocando o universo embevecido do fauno em sua sesta. Alguns detalhes aqui e acolá, como uma entrada abrupta demais das trompas graves na retomada do solo de flauta, não comprometeram. Faltaram algumas nuances claro-escuro nas madeiras, mas as cordas formaram um tapete que voou na altura certa. Espero ouvir este Debussy chegar ao nível sublime com o amadurecimento contínuo de “nossa” orquestra!

Para fechar, uma surpresa. A primeira execução em Belo Horizonte – e uma das raras no Brasil e no mundo – da esquecida orquestração de Francisco Mignone (1897-1986) para a suíte Quadros de uma Exposição, de Modest Mussorgsky (1839-1874). Que joia! E que vergonha não a valorizarmos, a despeito da versão consagrada de Ravel. A partitura de Mignone só foi encontrada em 1986, numa gaveta, pela viúva do compositor, a pianista Maria Josephina Mignone. Acredita-se que tenha sido realizada nos final dos anos 40, mas os registros são escassos. Fato é que a transcrição brasileira do original para piano de Mussorgsky merece ser conhecida e apreciada. Não por patriotismo boboca, mas por suas qualidades sinceras.

Diferentemente de Ravel, Mignone explora texturas mais graníticas e sonoridades ricas, porém mais escuras. Seria ousado dizer que a “alma russa” – esta condição indefinível – é mais evidente na orquestração de Mignone? A sonoridade nada dolce das flautas, em duo, às vezes em trio; a bela escrita para as melancólicas violas; o espírito majestoso dos trombones… mesmo nos episódios que sugerem temas “alegres” (como o jardim, a dança dos pintinhos e o mercado) possuem uma aura de ironia, que, pessoalmente, me conecta bem mais objetivamente ao que imagino ser a “verdade” de Mussorgsky. O “quadro” do carro de boi é alegoricamente tétrico, o do mercado de Limoges o mais bem acabado; já o dos dois judeus é, para mim, o movimento mais fraco: o solo bizarro que Ravel extrai de um trompete com surdina, na versão de Mignone é confiado aos violinos com resultados menos impressionantes. Mas no movimento final, que retrata o grande portão de Kiev, Mignone dá um contorno não apenas apoteótico, mas marcial. E pra czar nenhum botar defeito!

Um detalhe que merece um parágrafo só para ele: Fábio Mechetti regeu esta raríssima versão dos Quadros de uma Exposição de cor. Algo mais precisa ser dito?

A noite terminou com as fanfarras bradando, mas eu tenho certeza de que na mente das pessoas ainda pairava a experiência de ter ouvido aquela moça descalça, com longos e lisos cabelos grisalhos, concentradíssima ao redor de seu jardim de peles, batuques, sinos, madeiras e metais…

Evelyn não é uma experiência de superação, mas de transformação. A música não substituiu o seu limite físico, mas se moldou dentro dele fazendo cantar seus silêncios… e a nós só resta aprender a ouvir com a sensibilidade dessa grande artista necessária ao mundo;  estética e eticamente necessária ao mundo.

Surdos somos nós”, resumiu uma senhora emocionada, ao final.

 

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