Escrito por em 5 dez 2018 nas áreas Crítica, Lateral, Ópera, Rio de Janeiro

Música exuberante de João Guilherme Ripper encontra excepcionais intérpretes em montagem de Piedade na Sala Cecília Meireles.

 

Estavam todos lá: os compositores Edino Krieger, Alexandre Schubert, Ernani Aguiar; os maestros Roberto Duarte, Ricardo Rocha, André Cardoso, Tobias Volkmann, Guilherme Bernstein; os cantores Inácio de Nonno, Murilo Neves, Fabricio Claussen. Na noite de 30 de novembro, a Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, parecia uma constelação de estrelas da música de concerto brasileira. Tantos talentos reunidos, junto a um público excitado, para conferir mais uma estreia da ópera Piedade, do compositor carioca João Guilherme Ripper.

A obra já tem alguma estrada: estreou em 2012 no Rio de Janeiro, em versão semiencenada dirigida por André Heller-Lopes; foi apresentada em forma de concerto em Campos do Jordão no mesmo ano e, em 2018, no Theatro Municipal de São Paulo; em 2017, entrou para a história como o primeiro título brasileiro encenado no Teatro Colón, de Buenos Aires, na série Ópera de Câmara (palco ao qual retornou este ano para mais quatro récitas).

Composta em 2012, Piedade é a terceira ópera de Ripper e foi escrita por encomenda da Orquestra Petrobras Sinfônica. Antes dela, Domitila (2000) e Anjo Negro (2003); posteriormente, O Diletante e Onheama (2014), e Kawah Ijen – O Vulcão Azul (2018), as duas últimas encomendas do Festival Amazonas de Ópera.

A atual produção é fruto de patrocínio obtido por meio de leis de incentivo e do apoio da Sala Cecília Meireles e da Associação de Amigos da Sala. Além de seus méritos musicais, reafirma que sim, há produção lírica contemporânea no país e sublinha a riqueza da vasta e bela obra de João Guilherme Ripper.

 

Tragédia

A trama da ópera concentra-se no ápice do trágico triângulo amoroso entre o escritor carioca Euclides da Cunha (1866-1909); sua esposa, a gaúcha Anna de Assis (1872-1951), a S’Anninha; e o também gaúcho cadete Dilermando de Assis (1888-1951).

Aos 17 anos de idade, em 1905, o cadete, descrito como alto, loiro e forte, apaixonou-se pela esposa autor de Os Sertões, então com 33 anos. Durante as longas ausências de Euclides, os amantes encontravam-se na Pensão Monat, na R. Senador Vergueiro, onde o jovem morava. Depois alugaram uma casa na R. Humaitá, na qual passavam longos períodos juntos. Anna teve dois filhos do amante, que foram registrados pelo marido (um deles morto aos sete dias de idade). Luís, nascido em 1907, foi o estopim para o ciúme do marido traído, pois a criança era loira em uma família de morenos. Foram anos de dúvidas e brigas.

Após um período em Porto Alegre, o então tenente Dilermando, de volta ao Rio, passou a morar com o irmão Dinorah em uma casa na Estrada Real de Santa Cruz, 214 (depois Av. Suburbana, atual Av. Dom Hélder Câmara), no bairro da Piedade. Ali passou a novamente encontrar-se com Anna até que, em um domingo, 15 de agosto de 1909, Euclides, armado, gritou, à porta, que ali estava para “matar ou morrer”. Enfurecido, acertou Dinorah na nuca (deixando-o parcialmente paralisado, causa de seu suicídio em 1921) e feriu o amante da esposa com três tiros. Mas o jovem, campeão de tiro, alvejou mortalmente o escritor.

Consta que Dilermando foi alvo da fúria nacional, por ser razão da traição de Anna e pelo assassínio de um escritor “imortal”. Alegando legítima defesa, foi absolvido a muito custo. Uma semana depois, casou-se oficialmente com Anna, com quem teve, ao longo de 14 anos, mais cinco filhos– eram 11 rebentos no total: sete de Dilermando e quatro de Euclides.

Em 1916, Dilermando sofreu novo atentado: desta vez foi alvejado pelas costas por Euclides da Cunha Filho, de 22 anos. Mesmo ferido, o militar reagiu, matando seu agressor e criando novo escândalo judicial.

O casamento durou até 1926, quando a cinquentona Anna descobriu que Dilermando tinha uma amante: Marieta, com a qual se casou após a separação. Dilermando chegou a general e morreu em 1951, aos 63 anos de idade, de ataque cardíaco. No mesmo ano, Anna morreu de câncer.

 

Momentos cruciais

Ripper condensou a história em quatro cenas (quatro atos). Na primeira, Euclides, em casa, escreve Os Sertões, e é amparado por Anna quando a angústia das visões de Canudos o assalta. A segunda cena situa-se na Pensão Monat e retrata o encontro entre Anna e Dilermando, no qual nasce a paixão. Na terceira cena, Euclides chega de uma viagem e encontra Dilermando, que havia sido enviado por Anna ao Cais Pharoux para buscá-lo. No confronto, brilham os olhos verdes do ciúme: Euclides diz ao rapaz que “seu nome chegou aos meus ouvidos envolto em infâmia”. A derradeira cena apresenta o cerne da tragédia da Piedade e sua fatídica resolução.

Homero Velho em meio ao povo de Canudos

 

É notável o poder de concisão do compositor e autor do libreto. São apenas quatro momentos, mas estão presentes inúmeras as emoções que orbitam pela vastidão da dimensão humana – amor, paixão, solidão, fúria, tristeza, ciúme, medo, soberba, vingança, arrependimento… As pinceladas da história real, ainda que adaptadas, são breves, mas suficientes para apresentar esse rubro painel de vicissitudes.

Além do preciso olhar dramatúrgico, Ripper demonstra também sua habilidade com as palavras – elas ferem, acalentam, sangram e acariciam, com lirismo e força dramática. Algumas expressões têm grande potência, como “a mão ácida da morte”, “rasga os meus véus” e, por fim, “piedade, Senhor, que nos criaste humanos demais”.

 

Força reverberada

O libreto ganhou ressonância com a direção cênica de Daniel Herz. Já na primeira cena, o sertão de Canudos surgiu no palco quase como um tableau vivant de Os Retirantes, de Portinari. A movimentação do chamado coro cênico (um grupo de cerca de 20 atores) funcionou bem – com a ótima contribuição dos figurinos de Marcelo Marques (que assina toda a direção de arte) –, mas era nos detalhes que impressionava: quando Anna clama que seu marido olhe para ela, o coro virou-lhe as costas; casais se formavam enquanto a esposa revelava sua solidão. E havia ainda o gestual que se repetia, como um círculo vicioso e trágico do qual não se consegue escapar.

Diz-se que apenas três coisas podem mudar uma vida: um grande amor, uma tragédia, ou terapia. No caso de Euclides da Cunha, o desvio de rota foi a visão da tragédia de Canudos, narrada n’Os Sertões. As feridas foram profundas e nunca mais se fecharam. A cada curva do destino, o parafuso apertava mais, até o sangrento fim. Herz levou Canudos à cena o tempo todo, como se aquele evento e seus mortos estivessem na gênese dos descompassos que viriam.

Sob a bonita luz de Aurélio de Simoni, três excelentes cantores-atores personificaram os vértices do triângulo amoroso. Em cada cena, dois protagonistas: Euclides e Anna na cena 1; Anna e Dilermando na cena 2; o marido e o amante na cena 3; e, por fim, o trágico trio no derradeiro quadro. Em todos os momentos, atuação harmoniosa, com alternância equilibrada de brilho entre os intérpretes.

O barítono Homero Velho entregou-se visceralmente ao imortal escritor, personagem que interpreta desde a primeira récita da obra. Em cena, alcançou os extremos da angústia existencial (“Larga-me, deixa-me, este fogo me consome”) com a mesma intensidade que despencou ao lodo pegajoso do ciúme (“Sou Euclides da Cunha, a quem, mesmo desconhecendo, as costas apunhalou”). Seu belo timbre passeou generosamente pela Sala, com destaque para os graves bem projetados, e sua articulação foi irretocável, pronunciando e valorizando cada frase de seus diálogos – algo imprescindível tratando-se de uma ópera em português para uma plateia brasileira.

A soprano argentina Laura Pisani deu vida à Anna de Assis pela segunda vez – a primeira foi na montagem realizada em sua terra natal. Sua excelente dicção e prosódia em quase nada deixavam transparecer que se trata de uma estrangeira. Exalando sentimentos profundos e verdadeiros, sem qualquer traço de pieguismo, a cantora emitiu um timbre matizado, com agudos brilhantes que escalaram as dificuldades da partitura sem esforço aparente. Brilhou em momentos de contida dor, como a ária “É preciso morrer quando o amor parte”, na qual fala do inverno que carrega n’alma; e na pungente ária final, em que pede clemência aos céus (“Piedade, Senhor, que nos criaste humanos demais”).

Fazendo certo contraponto à densidade dos demais personagens, Dilermando de Assis foi vivido pelo tenor Daniel Umbelino. De postura mais jovial e, inicialmente, inconsequente, o cantor mostrou voz clara e límpida, com linha de canto precisa. Seu dueto com o barítono na terceira cena seguiu, em crescente espiral de tensão, aos limites do insuportável: os dois homens, lançando faíscas pelas vistas, expressavam sentimentos similares, ainda que situados em posições diametralmente opostas. Foi na voz de Umbelino um dos momentos mais sublimes da noite: a seresta “Quando a manhã me desperta falando de amor”, arrebatadora melodia digna de Francisco Alves.

Daniel Umbelino e Laura Pisani em pleno romance

 

Destilado de referências

No palco, sob a regência segura e elegante de Priscila Bomfim, um ensemble de 13 músicos: Ivan Scheinvar e Ayran Nicodemo (violinos), Marcos Catto (viola), Mateus Ceccato (violoncelo), Rodrigo Favaro (contrabaixo), Sofia Ceccato (flauta), Jeferson Nery (oboé), Marcio Costa (clarinete), Paulo Andrade (fagote), Tiago Carneiro (trompa), Wellington Moura (trompete), Edvan Moraes (piano) e Paulo Pedrassoli (violão). Este foi responsável pelos belíssimos interlúdios ao violão que abriram cada cena – sua interpretação foi excepcional.

Além dos delicados solos de violão, que têm a alma dos prelúdios villa-lobianos, toda a partitura de Piedade recende a jenipapo, banho de rio, mato molhado, conversa de subúrbio, tristeza do jeca, luar do sertão. A música é de enorme brasilidade e sensível riqueza de cores, e transita com brilho por choros, serestas, nacionalismo e contemporaneidade. Com suaves melodias ou harmonias angulosas, Ripper condensa e destila tantas tradições e movimentos da nossa música. Estão todos lá: além de Villa-Lobos, Edino Krieger, Alexandre Schubert, Ernani Aguiar, César Guerra-Peixe, Francisco Mignone, Alberto Nepomuceno, Radamés Gnattali, Claudio Santoro, Ronaldo Miranda e tantos outros. Lírica, trágica e brejeira, Piedade deixa marcas profundas na memória e no coração, feito mancha de café ou nódoa de sangue.

 

Fotos: Vitor Jorge

 

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