Escrito por em 15 dez 2018 nas áreas Lateral, Notícia, Ópera

“O Escravo”, com regência de Luiz Fernando Malheiro, integra a temporada 2019 do Teatro Lírico de Cagliari

Sétima ópera de Antônio Carlos Gomes, Lo Schiavo (O Escravo) finalmente estreará na Itália – país para o qual foi originalmente composta, mas onde nunca foi apresentada. O Teatro Lírico de Cagliari anunciou esta semana a sua temporada lírica de 2019, que será aberta exatamente com a obra de Carlos Gomes, que será encenada entre os dias 22 de fevereiro e 03 de março, com um total de nove récitas.

O maestro Luiz Fernando Malheiro, um dos maiores especialistas brasileiros em ópera, será o diretor musical e regente da montagem, que terá direção cênica do italiano Davide Garattini Raimondi. Até o presente momento, a casa de ópera da capital da ilha da Sardenha ainda não divulgou o elenco da produção. Informações oficiais podem ser consultadas, em italiano, aqui e aqui.

O texto divulgado pelo Teatro Lírico de Cagliari no primeiro link acima informa que a referida montagem de Lo Schiavo é uma coprodução entre a casa italiana, o Festival Amazonas de Ópera e o Theatro São Pedro-SP, contando com patrocínio da Embaixada do Brasil na Itália. O Movimento.com apurou, porém, que o Theatro São Pedro-SP não integra mais a parceria, que foi negociada há cerca de dois anos, quando o maestro Malheiro ainda era o diretor artístico da casa da Barra Funda. Ainda segundo pudemos apurar, já foi solicitado ao Teatro Lírico de Cagliari que corrija a informação em seu texto de divulgação da temporada.


Gênese conturbada

A gestação de Lo Schiavo foi longa. O Visconde de Taunay, um abolicionista, esboçou a trama em 1880 (segundo Marcos da Cunha Lopes Virmond, em texto no programa de sala da produção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro de 2016) ou 1882 (segundo Lauro Machado Coelho, em A Ópera Italiana após 1870), com um protagonista negro. Apoiador da causa, ainda que sem se engajar nela diretamente, Gomes levou a ideia para a Itália e a confiou ao libretista Rodolfo Paravicini. Do outro lado do Atlântico, o compositor foi convencido de que trocar o protagonista de um homem negro para um índio faria com que a obra fosse mais bem aceita pelo público europeu.

Com a mudança da etnia do protagonista, foi-se buscar na História do Brasil e em um poema de Gonçalves de Magalhães (A Confederação dos Tamoios) o fato histórico que serve de pano de fundo para a obra. Iberê, o protagonista escolhido, foi um personagem real: o tupinambá Aimberê, um dos líderes da revolta, que teve o nome alterado na ópera por questões fonéticas. Além dessas fontes, estudos indicam que a elaboração do libreto baseou-se também em Les Danicheff, de Alexandre Dumas, filho.

A troca de um negro por um índio fez com que o Visconde de Taunay solicitasse a retirada de seu nome do projeto – o que acabou não acontecendo, e seu nome constou junto ao de Paravicini nas primeiras edições, pela Casa Ricordi, do libreto e da redução para canto e piano. Entre idas e vindas, a composição de Lo Schiavo foi problemática, incluindo uma disputa judicial entre o compositor e seu libretista italiano, que não aceitou o fato de Gomes ter substituído, no segundo ato da ópera, a sua versão do Hino à Liberdade pela de Francesco Giganti (ou Gigante, dependendo da fonte de pesquisa). Tendo perdido a batalha nos tribunais, e vendo cancelada a estreia da ópera em Bolonha, restou a Carlos Gomes trazer sua nova obra para o Brasil.

Depois de uma campanha de arrecadação de fundos, capitaneada pelo próprio imperador, D. Pedro II, a ópera, dedicada à princesa Isabel, estreou em 27 de setembro de 1889, sob a regência do próprio compositor, no então Theatro D. Pedro II do Rio de Janeiro. Desde então, a ópera nunca foi levada na Itália, e somente agora, com esse anúncio da montagem de fevereiro de 2019 na Sardenha, o público italiano poderá apreciá-la pela primeira vez.

Se Lo Schiavo não chega a ser uma obra-prima, isso se deve principalmente ao libreto de Paravicini, que está longe de ser um exemplo do gênero e contém passagens um tanto confusas. Se, por outro lado, é uma obra belíssima, isso se deve especialmente à inspirada música de Carlos Gomes, que escreveu para ela algumas das mais belas páginas que saíram de sua pena.

Árias primorosas, como Quanto nascesti tu (Américo), O ciel di Parahyba (Ilara) e Sogni d’amore (Iberê) expressam com mestria toda a verve lírica do compositor, ao mesmo tempo em que as passagens corais (e não seria exagero algum afirmar que Lo Schiavo é uma ópera-coral) são exemplos de construção melódica, harmônica e dramática. Tudo conduzido por uma orquestração em sua maior parte riquíssima, com especial destaque para o prelúdio que inicia a obra e para o intermezzo do quarto ato: a magnífica Alvorada, talvez a mais bela e fascinante joia que Carlos Gomes tenha legado ao mundo.

O público de Cagliari não perde por esperar.

 

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