Escrito por em 13 jan 2019 nas áreas Lateral, Programação, Rio de Janeiro, Show

Ou como sobreviver nesta selva oscura e desvairada

Com amor, Vinícius – Ou como sobreviver nesta selva oscura e desvairada

A peça-show “Com amor, Vinícius – Ou como sobreviver nesta selva oscura e desvairada” resgata o legado artístico de Vinícius de Moraes. Vinícius é vivido por Marcos França, que divide a cena com a cantora Luíza Borges, com o violonista Víctor Ribeiro e com percussionista e baterista Matias Zibecchi.

Com um quê de informalidade, além das canções, o protagonista recita poemas e tem com o público uma conversa franca, apresentando algumas das facetas que compuseram a persona do poetinha: firme, engajado, mas também terno e apaixonado pela vida. Musical mostra o lado mais humanista do poeta Vinícius de Moraes ao resgatar parte de seu legado artístico e simula o formato de um longevo show

A partir dos anos de 1970, quando os shows de música migraram em definitivo das boates para os teatros, Vinícius de Moraes (1913-1980) adotou um formato de apresentação que seria sua marca até morrer. O grande poeta e compositor subia ao palco tendo a companhia de um exímio violonista e de uma cantora de timbre marcante. Pois esse formato de show é o ponto de partida de “Com amor, Vinícius – Ou como sobreviver nesta selva oscura e desvairada”, novo musical de Hugo Sukman e Marcos França, que fecha a trilogia composta por “Deixa a dor por minha conta”, sobre Sidney Miller, e “Nara – A menina disse coisas”, sobre Nara Leão.

O espetáculo tem direção de Ana Paula Abreu e estará em temporada de 18 a 27 de janeiro no Teatro da UFF. As apresentações serão realizadas sempre às sextas e aos sábados, às 20h; e domingos, às 19h, com ingressos a partir de R$ 25.

 

Cena do espetáculo

O modelo de apresentação consagrado por Vinícius não era algo engessado. Tinha um quê de informalidade. Ele cantava, recitava poemas e tinha com o público uma conversa franca sobre temas que julgava pertinentes. Enquanto o violão era dedilhado, por exemplo, por Dori Caymmi num primeiro momento, e por Toquinho (um dos seus parceiros musicais mais frequentes), a cantoria ficava a cargo de nomes expressivos como Maria Bethânia, Maria Creusa, Clara Nunes, Marília Medalha, Joyce, Miúcha e até mesmo o Quarteto em Cy. Muitos desses encontros originaram LPs (o com Clara Nunes rendeu o histórico “O poeta, a moça e o violão”).

E é esse clima que autores, atores e direção de Com amor, Vinícius resgatam. O roteiro traz canções emblemáticas do poeta com seus muitos parceiros – Pixinguinha, Tom Jobim, Carlos Lyra, Baden Powell, Edu Lobo, Chico Buarque e o já citado Toquinho – misturadas a textos (poemas e trechos de cartas) e a algumas de suas falas, reproduzidas a partir de entrevistas dadas por ele. Estão lá, por exemplo, “Janelas abertas” (com Jobim), “Gente humilde” (com Chico Buarque sobre melodia de Garoto), “Maria Moita” e “Sabe você” (ambas com Lyra), “Mais um adeus” (com Toquinho) e “Berimbau” (com Baden), entremeadas a poemas como “Pátria minha”, “Poema de Natal”, “Operário em construção” e com “A carta que não foi mandada”, entre outros.

O musical não se atém somente a emular um formato de show. Também não se propõe a ser didático ou biográfico, seguindo a linha comum a muitos musicais de ir do início ao fim da vida artística de um personagem. O que o público irá conhecer são algumas das facetas que compuseram a persona de Vinícius de Moraes. Trata-se de um Vinícius terno (o poeta não era dado a rompantes e ataques, ao contrário de muitas celebridades de hoje), mas um Vinícius em total sintonia com questões sociais da vida, mais ligadas ao que conhecemos como direitos humanos, e também preocupado com o fim das liberdades, fossem elas a de expressão, artística, e mesmo a de ir e vir.

Para fazer deste retrato o mais fiel possível ao personagem, a dramaturgia tem como pilares três épocas diferentes. A montagem começa em 1969, com um esbaforido poeta chegando atrasado a um show devido aos protestos populares que ocorriam na cidade. Volta ao ano de 1964, quando o golpe militar instala-se derrubando assim o sistema democrático de governo, avançando em seguida até a década de 1970, onde a narrativa se estabelece. Nestes tempos em que muito se reivindica um “lugar de fala (ou da fala)”, o público poderá (re)conhecer um homem que, em nome do seu amor à vida e à liberdade, falou por todos nós, independentemente de etnia, credo e demais preferências. Com amor, sempre.

E quem é esse Vinícius afinal? Um cara que não fugia de questões importantes da vida (da sua própria e da dos cidadãos). Um Vinícius que sabia que a liberdade era peça-chave para uma sociedade mais igualitária. Um Vinícius que tinha na figura da mulher amada um objeto de total veneração (ele chegou a se casar nove vezes) e que, justamente por isso, foi vanguardista ao exigir respeito a elas (e às suas causas). E que ninguém pense que era ele um machista, como muitos homens de sua geração. Há na peça o trecho de uma entrevista em que o poeta defende o amor em sua liberdade, citando inclusive o amor entre pessoas do mesmo sexo. Vinícius não era de meias palavras. Há o Vinícius que é cassado do Itamaraty em razão do Ato Institucional nº 5 (AI-5). Apesar de avesso às formalidades daquele órgão (que o obrigava a se apresentar de terno e gravata) há, por outro lado, o reconhecimento de que o Itamaraty foi de extrema importância para moldar sua visão humanista. Foi como diplomata que ele viajou pelo país e conheceu, assim, suas desigualdades sociais. ‘Eu era um homem de direita tornei-me um homem de esquerda’, reconhece ele numa de suas falas”, afirmam os autores da montagem.

 

Ficha técnica

Elenco: Marcos França (Vinícius de Moraes), Luíza Borges (cantora), Víctor Ribeiro (violão) e Matias Zibecchi (bateria e percussão)
Roteiro e idealização: Hugo Sukman e Marcos França
Direção: Ana Paula Abreu
Direção musical: André Siqueira
Iluminação: Luiz Paulo Nenem
Cenografia: Pati Faedo
Figurinos: Marcela Poloni e Rafaela Rocha
Desenho de som: Branco Ferreira
Programação visual: Thiago Ristow
Fotos: Rafael Blasi
Operador de luz: Mário Júnior
Gestão de leis de incentivo: Natalia Simonete
Produção Executiva: Rayes Produções Artísticas
Direção de produção: Ana Paula Abreu e Renata Blasi
Produção: Diálogo da Arte Produções Culturais
Realização: Informal Produções Artísticas e Diálogo da Arte Produções Culturais

 

SERVIÇO

 

 

Com amor, Vinícius – Ou como sobreviver nesta selva oscura e desvairada

De 18 a 27 de janeiro de 2019 – Sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 19h

Teatro da UFF (Rua Miguel de Frias 9, Icaraí, Niterói – RJ)

Preços: 50,00 (inteira) / 25,00 (meia-entrada)

Classificação: Livre

 

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