Escrito por em 21 fev 2019 nas áreas Artigo, Lateral, Rio de Janeiro

Possível absorção da Sala Cecília Meireles pela “máquina” pesada do TMRJ pode ser ruim para a Sala

 

As últimas notícias a respeito do Theatro Municipal do Rio de Janeiro divulgadas pela imprensa não chegam a ser animadoras. Uma reportagem do jornal O Globo informa que, apesar da recente mudança no governo do estado (com a posse do novo governador, Wilson Witzel), a secretaria de Cultura e, particularmente, o Theatro Municipal permanecem sob a “gestão” do mesmo grupo político que já os controlava durante o governo do agora presidiário Luiz Fernando Pezão.

O atual secretário de Cultura, Ruan Lira, já havia trabalhado na mesma pasta como assessor do ex-ocupante do posto André Lazaroni (este o analfabeto cultural que confundiu o grande Bertolt Brecht com o personagem humorístico “Bertoldo Brecha”). O “novo” presidente do Theatro Municipal, Aldo Mussi, confirmado no cargo após um período de interinidade, foi vice-presidente da casa durante a descartável presidência de Fernando Bicudo, que por sua vez voltou agora ao posto de assessor na mesma secretaria de Cultura – cargo que já havia ocupado sob Lazaroni.

Se isso não é um carrossel que roda, roda, e para sempre no mesmo lugar (ainda que com os cavalinhos em posições trocadas), eu não sei dizer o que é isso. A impressão que fica é que, no âmbito do estado do Rio de janeiro, a Cultura e o Theatro Municipal se tornaram um feudo político. Isso, porém, não chega a espantar, ou algum leitor acreditava (acredita?) que o tal Witzel fosse fazer algum milagre? Espantoso mesmo é que, até agora, ninguém tenha arrumado um carguinho para André Lazaroni neste feudo, depois de o ex-deputado estadual ter perdido a eleição para a Câmara Federal.

Curiosamente, também até agora, não se viu nenhum artista ou funcionário do Municipal comentando nada a respeito publicamente. Parece que, para artistas e funcionários da casa, está tudo muito bom, tudo muito bem. Aceitam numa boa serem presididos pelo (até outro dia) desconhecido Mussi, e vida que segue.

Particularmente, não tenho nada contra Aldo Mussi, não o conheço, assim como também não conheço a qualidade do seu trabalho. Pode ser muito competente, ou pode ser apenas mais um apadrinhado político. O tempo dirá, até porque uma coisa é certa: é a qualidade do seu trabalho à frente do TMRJ que o deixará marcado, para o bem ou para o mal. Oremos.


Orçamento maior, mas contingenciado

No orçamento estadual para 2019, a verba destinada especificamente à programação artística do Theatro Municipal do Rio de Janeiro é a maior desde Deus sabe quando: nada menos que R$ 10,4 milhões. Para os padrões nacionais, é um valor considerável, que poderia proporcionar ao TMRJ uma temporada, no mínimo, de respeito. O problema é que o orçamento do governo do Rio, na prática, é fictício. Todo o orçamento estadual está contingenciado e deve ser liberado aos poucos. Assim, se torna muito difícil planejar e realizar adequadamente qualquer programação. E a possibilidade de cancelamento daquilo que vier a ser anunciado aumenta exponencialmente.

Em entrevista ao jornal O Globo, Mussi disse que, do orçamento total para o ano (R$ 96,1 milhões), ele só tem liberado até agora R$ 9,3 milhões. Complemento eu: a maior parte desse montante vai para a folha de pagamento. Para que se tenha uma ideia, a folha de pagamento do Municipal (incluindo salários, benefícios, obrigações patronais, ressarcimentos, encargos, etc.) equivale a aproximadamente 59% do seu orçamento total. Com as despesas contingenciadas, e sendo os gastos com pessoal obrigatórios, não é preciso muito esforço para concluir que o que está realmente contingenciado é a verba de programação e de manutenção da casa.

Por conta disso, a programação deve ser divulgada por semestre. Na mesma entrevista supracitada, Mussi diz que pretende anunciar metade da programação do ano (até julho, aproximadamente) antes do Carnaval, e espera contar com patrocínios para o segundo semestre. Este, a propósito, é um problema crônico do Municipal: a falta de patrocínio continuado. A casa, via de regra, só consegue patrocinadores a conta-gotas, por obra apresentada ou coisa que o valha. Não há patrocínio institucional de longo prazo.

O TMRJ precisa, na verdade, buscar patrocinadores que aceitem apostar na casa por mais tempo que a duração de uma montagem de ópera ou de balé. Para isso, porém, seria preciso também apresentar a esses possíveis patrocinadores projetos sólidos. Como convencer possíveis patrocinadores a apoiar uma casa que troca de presidente a toda hora e está sempre submetida às intempéries da política? Tarefa inglória.

E, a propósito, o Carnaval está chegando. Cadê a programação???


A segunda chance de André

O encenador André Heller-Lopes terá uma segunda chance como diretor artístico do Theatro Municipal. É preciso reconhecer que a sua primeira passagem pelo cargo teve muitas dificuldades, mas teve também decisões seriamente questionáveis. Uma delas foi escalar um mesmo cantor para vários espetáculos da temporada; outra foi ele mesmo dirigir as duas únicas óperas daquele ano (2017).

Nesta segunda oportunidade, caberá a Heller-Lopes demonstrar que tem realmente habilidade para exercer o cargo, escalando elencos de forma adequada, e evitando se autoescalar para todas as óperas de cada temporada. Há muitos encenadores brasileiros competentes, e é função de um diretor artístico reconhecê-los e convidá-los para participar das temporadas do Municipal. É também função do diretor artístico primar pela diversidade de ideias e linguagens na programação sob sua responsabilidade. Do contrário, o que deveria ser uma direção artística pode passar a ser apenas um exercício de egocentrismo e autorreconhecimento.

Nesse sentido, Heller-Lopes pode trocar figurinhas com o maestro Luiz Fernando Malheiro, um dos nossos maiores especialistas em ópera e recentemente nomeado para a função de regente titular da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal. Malheiro sempre foi um ótimo escalador de elencos, apesar de algumas derrapadas nos últimos anos.

Na já mencionada entrevista de Aldo Mussi ao Globo, o presidente do Municipal afirmou que a programação 2019 deve contar com uma obra de Gounod. Não seria surpresa para este autor se tal obra fosse Fausto.


Possível absorção da Sala Cecília Meireles pelo Theatro Municipal

Outra notícia que apareceu na imprensa informa que a administração da Sala Cecília Meireles poderá ser absorvida ou unificada com a do Theatro Municipal. Tal hipótese pode ser perigosa. Explico: em termos de administração pública, o Municipal é uma máquina extremamente pesada de ser conduzida, enquanto a Sala é leve como uma pluma. É muito mais fácil administrar a Sala, com poucos funcionários e estrutura administrativa relativamente simples, do que o Municipal, com funcionários que não acabam mais e estrutura extremamente burocrática sob todos os aspectos.

Dentre outros fatores, é por isso que, muitas vezes, enquanto o Municipal patina e sofre com maus governos e/ou péssimas “gestões”, a Sala salva a música clássica e lírica no Rio de Janeiro. Foi o que aconteceu nos últimos dois anos: enquanto o Municipal pouco ou nada apresentava de bom em termos de ópera, guardadas as devidas proporções, a Sala dava aula com a sua Série Lírica.

Não sou adivinho e, claro, posso estar enganado, mas temo que, com a administração unificada, essa característica da Sala de permitir uma gestão mais fluida possa se perder – especialmente quando o Municipal estiver passando por uma fase fraca (o que é extremamente frequente nas últimas décadas).

Todos nós que temos uma capacidade mínima de observação sabemos como a vaidade dos “gestores” quase sempre atrapalha a administração das casas de ópera no Brasil: será que, em um período em que o Municipal estiver mal das pernas, interessaria à direção unificada trabalhar direito pela Sala? Difícil dizer.


Enquanto isso, em São Paulo…

Através de uma empresa de recrutamento, o Instituto Odeon, gestor do Theatro Municipal de São Paulo, está procurando um “assessor artístico”. A descrição sumária do cargo informa que o profissional selecionado atuará “junto ao diretor artístico e o (sic) regente titular, administrando informações referentes a temporadas, repertórios e agenda de ensaios”.

Ok, mas… que diretor artístico será assessorado pelo profissional que vier a ser recrutado? Até hoje, quase um ano e meio depois de assumir a administração do TMSP, o Instituto Odeon não nomeou um diretor artístico para responder pela programação da casa, escolha de elencos, etc. Está cada vez mais difícil aturar as “odeonzices” do Odeon.

De qualquer forma, interessados na vaga têm até o dia 1° de março para se cadastrarem, e podem verificar maiores detalhes aqui.

 

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