Escrito por em 19 fev 2019 nas áreas Crítica, Lateral, Ópera

No Theatro Municipal SP, um “Barbeiro” bem encenado e bem cantado, apesar das papagaiadas de sempre


Em 2018, o mundo lembrou os 150 anos da morte de um dos maiores compositores da história da ópera, o italiano Gioacchino Antonio Rossini. Melhor dizendo, boa parte do mundo civilizado se lembrou, no ano passado, do gênio nascido na cidade de Pesaro, porque aqui no Brasil nenhum dos nossos seis principais teatros de ópera se lembrou dele. Simplesmente nenhum!

No presente ano, pelo menos dois desses seis teatros agendaram óperas de Rossini para a temporada, pagando assim a dívida do esquecimento imperdoável de 2018. Embora ainda não tenha divulgado oficialmente a sua temporada, o Theatro São Pedro-SP encenará L’Italiana in Algeri no segundo semestre.

E agora, neste fevereiro, com récitas até o dia 22 (já incluindo uma função extra), o Theatro Municipal de São Paulo está apresentando a mais famosa obra do compositor: Il Barbiere di Siviglia (O Barbeiro de Sevilha), ópera-bufa em dois atos e três cenas de Rossini sobre libreto de Cesare Sterbini, com base na comédia Le Barbier de Séville, de Pierre Augustin Caron de Beaumarchais.

Rossini foi um gênio musical que encontrou na ópera-bufa o veículo mais adequado ao seu estilo. Além de sua verve naturalmente irônica e sarcástica, os melhores libretos que ele musicou eram cômicos, e por isso as óperas-bufas acabaram se destacando em sua produção.

Naquela época, óperas eram compostas praticamente em escala industrial, e os compositores musicavam todos os libretos que lhe caíssem nas mãos, por piores que fossem. Dentre os libretos cômicos que Rossini musicou, o melhor de todos é o do Barbeiro, que tem personagens bem delineados e situações dramáticas magnificamente entrelaçadas. Na partitura, encontramos todos os ingredientes da ópera-bufa elevados à máxima perfeição: estão lá alegres cavatinas, magníficos ensembles, ataques de tagarelice, hilaridade rítmica e, claro, a deliciosa escrita vocal rossiniana.

Rossini não era um dramaturgo do calibre de Verdi, e compensava esta deficiência com uma musicalidade pura e genuína. Uma característica marcante do seu estilo, que nem sempre é lembrada, é a energia de sua orquestração. Um ótimo exemplo é a popularíssima cavatina de Figaro, Largo al factotum. Aqui, a ária alcança o efeito desejado não somente pela melodia ou pelo ritmo, mas também através de um apoio orquestral enérgico e inabalável.

Na atual produção do Theatro Municipal de São Paulo, o encenador Cléber Papa também pagou uma dívida. Depois daquele Nabucco problemático que ofereceu ao público em 2017, o diretor volta ao TMSP com uma concepção corretíssima. Sem invencionices e com roupagem tradicional, o Barbeiro de Papa funciona bem do início ao fim, com ótima direção de cena: todos os solistas (cantores e atores) oferecem rendimentos eficientes e com ótimo tempo de comédia.

Os belos e funcionais cenários de José de Anchieta ambientam a ação com grande eficácia, enquanto os figurinos, também de Anchieta e complementados pelo ótimo visagismo de Westerley Dornellas, dão um visual caricato aos personagens, em consonância com a proposta da direção. A correta iluminação de Joyce Drummond complementa bem a encenação.

Na récita de 16 de fevereiro, o Coro Lírico, preparado por Mário Zaccaro, apresentou-se bem em suas intervenções. A Orquestra Sinfônica Municipal ofereceu uma Sinfonia correta e, ao longo da récita, apresentou-se bem no geral. O maestro Roberto Minczuk, ao contrário do que havia ocorrido na montagem de Turandot em novembro passado, fez o dever de casa e cuidou do volume da orquestra (terá lido algumas críticas sérias, talvez?). Os desencontros entre o fosso e o palco, porém, se fizeram presentes – o que já se tornou um hábito nas produções líricas do TMSP quando é Minczuk que está no pódio (leia mais sobre o maestro no próximo subtítulo desta resenha).

Os atores Sérgio Seixas (um notário) e Frabrízio Santos (Ambrogio) cumpriram bem suas partes mudas, especialmente este último, presente em cena durante boa parte da ópera. O baixo Andrey Mira (um sargento) não comprometeu, enquanto o barítono Vítor Mascarenhas esteve bem na pequena parte de Fiorello.

A soprano Débora Dibi deu boa conta da criada Berta, especialmente sob o aspecto cênico, sem deixar de aproveitar bem a sua ária do segundo ato, Il vecchiotto cerca moglie. O baixo Carlos Eduardo Marcos fez um Don Basilio correto, e correta também foi a sua grande ária, La calunnia (atualíssima em tempos de fake news – eu diria até que o texto da ária descreve maravilhosamente como as mentiras de hoje em dia se espalham, sobretudo pelas redes sociais, até se tornarem “um terremoto, um temporal, um tumulto generalizado”).

O baixo Sávio Sperandio ofereceu uma ótima composição do Dr. Bartolo, com trejeitos que reforçaram o tom caricato da montagem, e sem descuidar do canto, destacando-se tanto em sua ária, A un dottor della mia sorte, quanto nos números de conjunto, dentre os quais todo o finale do primeiro ato e o dueto com o tenor, Pace e gioia sia con voi, que abre a segunda parte da ópera.

Falando nele, o tenor norte-americano Jack Swanson (Conde de Almaviva) exibiu uma voz leve, bem afinada e de bonito timbre em passagens como a cavatina Ecco, ridente in cielo e a canção Se il mio nome saper voi bramate. Pôde-se notar, especialmente nos números de conjunto, que ainda há o que evoluir em termos de volume e projeção, mas o artista é jovem, tem técnica sólida, boa presença de palco e ainda pode crescer bastante. Quase no fim da ópera, ao contrário do que fazem muitos tenores, Swanson não fugiu da ária Cessa di più resistere, nem da cabaletta Ah, il più lieto, il più felice (ainda que esta tenha sido apresentada em versão reduzida).

Ao barítono Michel de Souza coube a responsabilidade de interpretar Figaro, o barbeiro da cidade de Sevilha. Seu cartão de visitas, a célebre ária Largo al factotum, passou apenas correta, mas o artista cresceu ao longo da récita e, com ótima presença e importantes participações nos números de conjunto, ofereceu uma performance bastante consistente. Passagens como o dueto com o tenor (All’idea di quel metallo) e aquele com a mezzosoprano (Dunque io son…), além do finale do primeiro ato (especialmente a partir da frase Guarda don Bartolo!), comprovaram, uma vez mais, a qualidade da sua arte.

Indicada pelo Movimento.com como melhor cantora de 2018, a mezzosoprano Luisa Francesconi manteve o alto nível do ano anterior no começo da atual temporada, ao viver a espevitada Rosina com a precisão musical e o domínio cênico que lhe são peculiares. Desde a sua cavatina, Una voce poco fa, passando por todos os números de conjunto e pela ária da aula de música (Contro un cor che accende amore), sua voz ágil passeou com elegância e destreza pela música de Rossini, encantando os ouvidos e dominando o palco. Francesconi vive a sua plena maturidade artística e, quando um artista atinge este nível, estar diante dele ou dela enquanto exerce o seu ofício é sempre uma experiência extremamente gratificante.

Como se pode observar, O Barbeiro de Sevilha abre bem a até agora incerta temporada lírica do Theatro Municipal de São Paulo em 2019, e merece a visita do público, apesar dos problemas narrados abaixo.

 

Cena da ópera


(…) Narciso acha feio o que não é espelho” (C. Veloso)

A Sinfonia (ou Abertura) de O Barbeiro de Sevilha, foi interpretada com o elevador do fosso da orquestra suspenso. Tal prática não é habitual em nenhum grande teatro lírico do mundo. Fica a impressão de que assim foi feito única e exclusivamente para que o público pudesse ver o regente durante a execução da peça.

Encerrada a execução, e antes de o primeiro ato começar no palco, tivemos que aguardar o elevador do fosso descer, enquanto um burburinho tomava conta do público, quebrando, assim, aquilo que deveria ser o mais importante para a audiência: a concentração na obra de arte que estava sendo apresentada. Mas isso, claro, não tem a menor importância. O importante é o maestro ser bem visto. O resto é o resto.

É triste ver uma orquestra de qualidade como a OSM ter que se sujeitar a fanfarronices desse tipo. Já não basta a verdadeira cafonice popularesca que é o tal “Bis no Municipal”. Fico imaginando aqui como seria um bis depois de uma Salomé, por exemplo… cortar-se-ia novamente a cabeça de João Batista? A protagonista dançaria de novo, depois de toda aquela música arrebatadora e delirante que a leva à morte? Sei lá como seria, mas Roberto Minczuk deve saber, pois o regente certamente daria um jeito de executar um bis, só para poder falar no microfone no final.

Enquanto o Theatro Municipal de São Paulo não tiver um verdadeiro regente de óperas, que entenda e respeite a ópera enquanto arte, ou um verdadeiro diretor artístico, que realmente responda e se responsabilize pelo nível artístico da casa, seremos obrigados a conviver com tais papagaiadas.

Parte do público, pelo menos, parece que já começa a se cansar de tais práticas questionáveis. Na récita do dia 16, depois de o regente falar ao microfone, parte considerável do público se levantou e foi embora, não esperando pelo bis.

Será que alguém, um amigo próximo talvez, poderia ter a bondade de informar ao regente que, na ópera, as estrelas costumam ser os cantores? Sim, porque parece que ele ainda não percebeu…


Os imbróglios do TMSP

A Folha de São Paulo trouxe uma boa notícia nesta segunda-feira. Segundo o jornal, o Ministério Público finalmente apresentou uma denúncia a respeito da roubalheira de que foi vítima o TMSP ainda durante a gestão da Instituto Brasileiro de Gestão Cultural. Cabe agora ao juíz aceitar ou não a denúncia. O desenrolar do processo deixará claro se o maestro John Neschling teve ou não participação na roubalheira. Com a palavra, a Justiça.

Já a gestão atual, do Instituto Odeon, teve a sua continuidade mantida, pelo menos por ora, após a troca de titular na secretaria de Cultura. O novo secretário, Alê Youssef, suspendeu a denúncia do contrato, que havia sido decidida pelo ex-secretário, André Sturm, alegando que o encerramento abrupto da parceria com o Odeon poderia ensejar a interrupção das atividades do TMSP.

Muito bem, mas cabe agora a Youssef apurar as denúncias que envolvem o Instituto Odeon, inocentando-o ou acusando-o de maneira formal. E cabe ao Instituto Odeon, que não tem mais a figura de Sturm para se meter na gestão do TMSP, indicar finalmente um diretor artístico que responda pela programação da casa. O Odeon finalmente fará essa indicação, ou continuará fugindo dessa responsabilidade?

Por falar em programação, cadê a programação 2019 do TMSP e também do Theatro São Pedro? E ainda tem gente que fala de profissionalismo na “gestão” da ópera no Brasil. Qual profissionalismo? Quando algum leitor encontrar esse profissionalismo por aí, por favor, me apresente.

 

Fotos: Fabiana Stig. Na foto do post, Luisa Francesconi e Michel de Souza

 

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