Escrito por em 16 fev 2019 nas áreas Crítica, Lateral, Música sinfônica, Rio de Janeiro

Orquestra Sinfônica Brasileira estreia temporada 2019 com festival de sinfonias do gênio alemão.

 

No próximo ano, o mundo todo vai render homenagens a um dos maiores compositores de todos os tempos: o alemão Ludwig van Beethoven. Os 250 anos do nascimento do Gênio de Bonn (1770-1827) serão celebrados em diversas partes do planeta – inclusive em iniciativas que unirão diversos países e artistas, como a da qual participará a Osesp (saiba mais).

A Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) adiantou-se às comemorações e programou, para este mês de fevereiro, na Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro, uma série de concertos com seis das nove sinfonias do compositor alemão. A estreia do Festival Beethoven ocorreu no dia 9, com as Sinfonias n. 1 e n. 7 (com reapresentação de trechos do repertório no domingo seguinte, em Concerto da Juventude). A Quarta e a Quinta Sinfonias compõem o programa do dia 16 (com Concerto da Juventude no dia 17). O Festival termina no dia 22/2, com as Sinfonias n. 8 e n. 3. Na regência, Lee Mills.

Os concertos marcam também a retomada de uma temporada regular da Orquestra – que vinha, desde 2016, sofrendo com uma grave crise financeira interna, tornada pública pela Fundação OSB (FOSB) em carta aberta. A crise gerou, inclusive, ação de endowment em outubro do mesmo ano e campanha pública de financiamento para pessoas físicas.

Os problemas financeiros vêm sendo resolvidos, segundo Ana Flávia Cabral Souza Leite, diretora executiva contratada em dezembro/2016 com a missão de reestruturar a instituição nos âmbitos executivo e organizacional. No ano seguinte, a Orquestra passou a ter nova empresa mantenedora – a Nova Transportadora do Sudeste (NTS) – e, desde 2018, conta com o patrocínio da empresa Eneva – antes chamada MPX Energia S.A. e fundada por Eike Batista, é uma empresa do grupo alemão E.ON, que atua nos setores de geração, comercialização e logística de energia elétrica. Patrocinadores antigos, como Vale, Bradesco e Brookfield, se mantêm. A instituição sobrevive 100% de patrocínios e doações da iniciativa privada, de acordo com informações de seu corpo diretor.

Segundo dados obtidos por meio da assessoria de imprensa da orquestra, o grupo tem, para este ano, um orçamento de R$ 20 milhões aprovado no Plano Anual de Atividades pelo Ministério da Cidadania. Para esta temporada, conforme anunciado pelo diretor artístico Pablo Castellar na noite do dia 9, estão programados 23 concertos da Orquestra na Sala Cecília Meireles e 12 concertos no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, além de concertos de câmara no Blue Note Rio e no Teatro Riachuelo Rio. “Os programas e os convidados ainda estão sendo definidos, uma vez que todos os artistas da temporada estão sendo viabilizados financeiramente através de parcerias institucionais”, esclarece Pablo, por e-mail.

Outra questão com a qual a Sinfônica Brasileira terá de lidar em breve é o fato de que o maestro residente Lee Mills assumirá papel à frente da Sinfônica de Seattle no segundo semestre deste ano (saiba mais). Segundo a direção da orquestra, a permanência do maestro está garantida até setembro. E o que acontecerá se Mills desligar-se? “Ainda não há uma definição sobre este cenário, mas estamos trabalhando nisso”, diz o diretor artístico. Aguardemos pelo melhor.

 

A música

O Festival começou pelo início: a Sinfonia n. 1 em dó maior, Op. 210, composta em Viena entre os anos 1799 e 1800, quando Beethoven já tinha 30 anos. Ainda que tenha estrutura clássica, inspirada em Wolfgang Amadeus Mozart e Joseph Haydn, a obra teria recebido muitas críticas já desde seu primeiro movimento (Adagio molto. Allegro con brio), levemente desconcertante desde os primeiros acordes. Era o gênio beethoviniano na transição do Clássico para o Romântico (muitos consideram sua Terceira o marco inicial do Romantismo). Robert Schumann escreveu, sobre Beethoven: “Ame-o, ame-o verdadeiramente, mas não se esqueça de que ele alcançou a liberdade poética após um estudo minucioso, anos a fio, e louve seu poder moral inquieto. Não busque extrair o inusitado, volte às raízes da criação, conheça sua genialidade não por sua última sinfonia (…), faça-o por sua primeira sinfonia”.

A OSB, com um número menor de componentes, fez uma leitura correta da Sinfonia n. 1. Foi como se desenferrujasse um pouco. Na obra seguinte do concerto, a Sinfonia n. 7 em lá maior (Op. 92), ganhou execução mais inspirada.

Estreada em Viena em 1813, em um concerto dedicado aos soldados feridos na Batalha das Nações, a Sétima foi apelidada por Richard Wagner de “apoteose da dança”, em função de sua força rítmica. Diz-se que esta sinfonia pavimentou o caminho do compositor rumo à música do futuro, haja vista as diversas inovações que podem ser percebidas nesta obra: a importância dada a cada som, a relevância do ritmo em detrimento de uma linha melódica franca, o tratamento abstrato da exposição temática…

Maestro e orquestra deram a esta Sétima um tratamento à altura de sua modernidade. Bastante energia no primeiro movimento (Poco sostenuto – Vivace), violoncelos delicadíssimos no conhecido segundo movimento (Allegretto) e, em toda a obra, um colorido rico e cintilante – como esperamos que seja toda a temporada 2019 da renascida Orquestra Sinfônica Brasileira.

 

Foto: Cícero Rodrigues

 

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