Escrito por em 14 mar 2019 nas áreas Lateral, Movimento, Notícia

Requiem para Aristides A. J. Makowich, nosso antigo colaborador

Aristides Makowich

O site www.movimento.com está no ar ininterruptamente desde junho de 2000. Começou bem devagar, mas foi se afirmando no decorrer do tempo, como um dos melhores sites de divulgação de música clássica. O site foi estendendo seus braços até abranger também balé, dança moderna, jazz e musicais.

Desde o início os nossos colaboradores deram grande e importante impulso ao site, conquistando usuários que sempre colocavam suas observações no campo específico do site.

Num determinado dia, recebo um email do Aristides A. J. Makowich, dizendo ter encontrado o site na internet e que o achava muito interessante. Ao mesmo tempo, perguntava se havia espaço para ele escrever no site. Disse-lhe que, em princípio sim, mas que nós não tínhamos dinheiro para remunerar colaboradores e que eu queria receber algum texto para avaliar se se encaixava na finalidade do site.

Foi assim que recebi a primeira CURIOSIDADE que o Makowich mandou. Achei muito interessante e imediatamente ele enviou vários textos que eu publicava de 15 em 15 dias ou semanalmente, não lembro bem.

Logo, solicitei uma foto e um breve currículo, exigência do site, e esse foi o texto que ele mandou: “Dedica-se à música desde quando frequentou o Conservatório da Sociedade Dramático-Musical Carlos Gomes, de Blumenau. Há mais de 20 anos, está voltado à divulgação da música clássica no programa “A música dos grandes mestres” em Londrina. Publicou artigos sobre música clássica e seus compositores, nos jornais desta mesma cidade”.

Havia muito boa aceitação dos usuários e eram realmente curiosidades prá lá de interessantes. Aristides deu, sem dúvida, uma excelente contribuição ao site e encantou, com seus textos, muita gente.

Com o correr do tempo, nem sei os motivos, ele deixou de nos mandar textos e, segundo me lembro, ele iria publicar um livro sobre este assunto. É possível também que tenha sido muito absorvido pelos outros trabalhos que ele enfrentava. Foi uma ruptura normal sem estresses, coisas da vida, mas eu adorava os textos dele.

Pois bem, acabo de receber a notícia, através de um sobrinho dele que acompanhava seus textos também no site, do falecimento do Aristides Makowich no dia 6 de setembro de 2018. À época não tive conhecimento do fato, mas nunca é tarde para render as homenagens mais que merecidas a um excelente colaborador do nosso site.

Nós do www.movimento.com lamentamos a sua passagem e rezamos para que sua alma esteja num lugar bem agradável, de onde possa nos acompanhar. Abraços, meu caro Makowich. Olhe por nós.

 

A seguir um dos textos recuperados, publicado em 25.05.2011

O ESTIGMA DE MUSSORGSKY

Uma das mais fascinantes figuras da história da música, Modest Petrovitch Mussorgsky (1839-1881), não foi apenas o expoente máximo da escola nacionalista russa, como também um dos mais criativos compositores de todos os tempos. Junto com Mily Balakirev, Alexander Borodine, Cesar Cui e Nicolai- Rimsky-Korsakov, Mussorgsky constituiu o famoso  “Grupo dos Cinco”.

Este grupo empenhou-se na criação de uma arte musical especificamente nacional, cujas formas e temas  foram encontrados no riquíssimo folclore russo e nas  grandes figuras da história do país. A música de Mussorgsky tem sido caracterizada como realista mas, segundo ele próprio, “a pura e simples reprodução artística da beleza, é uma grosseira puerilidade, a primeira infância da arte”.

Mussorgsky se destacou  como o mais autêntico  nacionalista  desse grupo, mas sua vida não foi a de um homem feliz: a penúria econômica, a epilepsia, a dipsomania e talvez as  perturbações da sexualidade constituíram traços marcantes de sua existência. Entretanto, legou à música universal obras originalíssimas plenas  das lendas e costumes  do povo russo e sua criação mais representativa nesse sentido e mais famosa, é o seu poema sinfônico “Uma Noite no Monte Calvo”.

A maioria de suas geniais criações ficou em esboços e manuscritos truncados e repletos daquilo que seus contemporâneos consideravam imperfeições estéticas e de  técnica composicional. A critica moderna tem  procurado recuperar a forma original de suas partituras e, com esse trabalho,  evidenciou o fato de que seus “erros” eram, na verdade, soluções inovadoras. Tchaikovsky, apesar de não gostar da música de Mussorgsky, reconheceu seu gênio criativo afirmando: “Não obstante todos seus horrores, Mussorgsky fala uma língua nova. Ela não é bela, mas é nova”.

A vida amorosa

Mussorsky jamais se casou e suas ligações com mulheres não passaram do nível platônico ou da simples amizade. Segundo M. D. Calvocoressi, “ele jamais se interessou em expressar na música as emoções do amor”. Esse fato, ligado ao horror pelo casamento (atestado por amigos e em várias de suas cartas), fez crescer a ideia de que essas emoções lhe eram estranhas. Segundo outro estudioso, Karatigin, em sua adolescência em Karevo, ele teria se interessado por uma prima e, em cartas do crítico Stasov e Findeisen, teria se apaixonado durante algum tempo (provavelmente 1859/60), por uma brilhante dama da sociedade – Maria Shilofskaya – e depois por uma jovem cantora de ópera – A. Latischeva.

Mais tarde teria sofrido muito por um grande amor, provavelmente platônico, por Nadejda Opochinina, cuja  memória está presente em seu admirável “Epitáfio” de 1875. Isso é tudo que se pode  dizer a respeito de suas afeições por mulheres. Uma certa delicadeza interior nunca  permitiu que ele tocasse em tais assuntos em suas cartas ou conversas e o levava a evitar  temas possivelmente escabrosos. Certa vez confessou a Balakirev que “tinha afundado na lama em um caso com uma mulher”, mas não deu pormenores.

Uma impotência pura e simples  

Por outro lado, Mussorgsky sempre foi ligado aos amigos com muitos dos quais residiu e aos quais se referia calorosamente. Isso, junto ao seu insucesso com as mulheres, suas ideias sobre o  casamento e a castidade, além de seu extremo apego à figura de sua mãe – falecida em 1865- levou alguns estudiosos desacreditáveis a falarem de um possível homossexualismo, o que, porém, jamais foi comprovado.

É provável que seus tormentos pessoais decorressem de uma impotência pura e simples, talvez resultante do  alcoolismo ou da consciência que tinha de sua enfermidade. E foi o alcoolismo, adquirido nos tempos da  escola de cadetes, onde o comandante elogiava aqueles que voltavam das farras ébrios, carregados por seus colegas, que o levou à morte, precocemente em 1881, aos 42 anos de idade.

 

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