Escrito por em 2 maio 2019 nas áreas Crítica, Lateral, Minas Gerais, Ópera

Foi uma montagem com muito esmero

Quando o maestro Sílvio Viegas prometeu à platéia do Palácio das Artes, antes de entoar os primeiros compassos de O Elixir do Amor, uma noite* leve e divertida” ele estava com a razão. A montagem da Fundação Clóvis Salgado (Belo Horizonte-MG) para uma das obras-primas de G. Donizetti extraiu um tempo de comédia delicioso, além de boa qualidade artística.

A grande sacada do diretor cênico Pablo Maritano foi ambientar a trama – originalmente escrita para se passar numa vila rural italiana – em uma High School americana, dos anos 60/70. As venturas e desventuras de um amor fugaz se adaptaram bem ao contexto colegial. Tudo se passa numa sala de aula, pátio e vestiários, realçando o espírito pueril do libreto. Para se ter uma ideia, o exército de Belcore tornou-se um time de futebol americano, o The Sergeants, tendo Gianetta como líder de torcida. A releitura é ousada, mas coerente.

Os cenários e figurinos de Maritano e Desirée Bastos foram simples – sem serem simplórios – e potencializaram com eficácia a construção estereotipada dos personagens (o nerd, a patricinha, a amiga fofoqueira, o playboy…), cenicamente bastante desenvoltos. Entre as ideias lúdicas – e, talvez com uma nuance de crítica social embutida – impossível não destacar o elixir do embusteiro Dulcamara transformado no nosso Guaraná Jesuis (assim, com “i” mesmo), em um daqueles nonsenses que funcionam. A plateia reagiu sem freio!

A Adina da soprano paulista Carla Cotinni sofreu para vencer a acústica seca do Palácio das Artes. A voz é ligeira, pequena e claramente em desenvolvimento. Mas o material é límpido e bem cunhado para realçar a picardia exigida pela personagem. A jovem atravessou as perigosas coloraturas com domínio de seu instrumento e não decepcionou quando sua parte exigiu legato. Alguns agudos soaram constritos, mas não comprometeram. Sua performance foi em um crescente – muito melhor no final do 1º ato e 2º ato.

Quem deu vida ao pobre Nemorino foi o tenor argentino Santiago Martínez. Em entrevista ao programa Harmonia, da Rede Minas, Martínez disse que poderia até não ser o melhor Nemorino vocal e cenicamente, mas que seria uma interpretação verdadeira. Tinha razão! Não foi um Nemorino espetacular do ponto de vista fonogênico, mas foi convincente no plano geral. A voz segue aquela escola bel cantista atual, com a ressonância de máscara muito evidente. O resultado é numa linha de canto penetrante, que corre bem pelo teatro, porém com limitações de matizes.  No seu Una furtiva lagrima conseguiu boas nuances. Martínez é um cantor jovem, um ator entregue e com um material vocal lírico-ligeiro que merece promissora atenção.

Homero Velho fez um Belcore surpreendentemente divertido cenicamente. A voz é robusta e bem coberta, promovendo um contraste tímbrico interessante com seu “rival” Nemorino. A estrepitosa Fabíola Protzner, desperdiçadíssima no papel secundário de Gianetta, agregou bem como sempre. Mas o Dulcamara do baixo-barítono cubano Homero Pérez-Miranda, por vezes, privilegiou mais seus recursos cênicos do que vocais. Seu grande momento, Udite, udite o rustici! não fez juz àquela máxima italiana: “prima la musica, dopo le parole”. As sibilações se perderam e as inflexões buffas muitas vezes foram engolidas pela alta voltagem cênica do intérprete.

A Orquestra Sinfônica de Minas Gerais esteve muito bem, fluida. Sílvio Viegas regeu com muita propriedade – é provavelmente o melhor regente brasileiro de óperas de sua geração. Ele cuidou para que a orquestra não encobrisse os solistas e conectou com segurança o fosso ao palco. O Coral Lírico de Minas Gerais também respondeu com equilíbrio.

Enfim, foi uma montagem de muito esmero, assistida por um público bastante heterogêneo. A Fundação Clóvis Salgado acertou em levar O Elixir ao palco, premiando os mineiros com montagens raramente ou jamais encenadas por aqui, como Navio Fantasma, Norma, Porgy and Bess e outras. Bravi tutti!

*O crítico assistiu à récita do dia 28/04.

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