Primeiramente, antes de apresentar minha definição, gostaria de citar
três definições de compositores barrocos que lidaram amplamente com o
aprendizado e a técnica do baixo contínuo. É importante que saibamos a opinião
de pessoas da época, pois são as que mais tinham contato com a prática musical
vigente. Comecemos por Johann Mattheson (1681-1764), organista, cravista,
cantor, compositor e escritor musical alemão. Em seu método de baixo contínuo, Grosse Generalbassschule, Mattheson
escreve a seguinte definição (1735):
( O baixo contínuo é ) Nada mais do que um
baixo com figuras que indicam uma harmonia. De acordo com as figuras deverão
ser executados ao cravo acordes de quatro notas.
Passemos agora a definição de Johann David Heinichen (1683-1729),
compositor alemão, em sua obra Der
Generalbass in der Komposition (1728):
Nenhum entendedor de música pode negar que o
baixo contínuo é um dos mais fundamentais e importantes pontos do conhecimento
musical, depois da composição. Aliás, o baixo contínuo muitas vezes mistura-se
à composição musical. A execução do baixo contínuo não é nada mais do que uma
composição de quatro vozes a partir de um baixo dado.
Para encerrar, observemos a opinião de Johann Sebastian Bach (1685-1750)
sobre o assunto:
O baixo contínuo é a estrutura fundamental
da música e é executado com ambas as mãos, de modo que a mão esquerda toque as
notas escritas e a mão direita toque notas consonantes ou dissonantes às
outras. Isto deve formar uma harmonia agradável para a glória de Deus e o
descanso do espírito.
Fazendo uma pequena análise das definições, concluímos que a primeira
aborda o contínuo de uma maneira mais prática (execução de harmonias a partir
de figuras), e não fala nada sobre ornamentação. Já a segunda mostra um aspecto
importante da educação musical da época: o baixo contínuo era considerado vital
para a aprendizagem musical e principalmente para a composição musical (todos
os grandes compositores do período barroco, clássico e até romântico tiveram o
baixo contínuo como base de seu aprendizado musical). Bach já tem uma definição
ligada à teoria dos afetos, uma visão mais filosófica predominante no período
barroco ("descansar o espírito").
O baixo contínuo consiste numa linha de baixo que podendo ou não ser
figurada evidencia ao executante a harmonia a ser executada (e improvisada).
As três questões mais importantes que
dizem respeito à história e à técnica de execução são as seguintes:
1) Por quê,
como e onde esta técnica começou?
2) Quais são as
harmonias grafadas e como o executante deve interpretá-las?
3) O executante
deve tocar sozinho ou acompanhado por outros instrumentos? Se acompanhado, por
quais?
A prática do baixo contínuo não envolve apenas questões que concernem à
interpretação e ao estilo histórico, mas envolve outros tópicos do conhecimento
musical, como orquestração, improvisação, regência, contraponto e harmonia.
O termo baixo contínuo deriva provavelmente do compositor L. da Viadana,
que teve sua obra Cento concerti
ecclesiastici ... con il basso contínuo publicada e divulgada por toda a
Europa. Viadana escolheu o nome "contínuo" pois a linha fornecida ao
acompanhamento não havia sido retirada da linha vocal dos baixos (como era de
costume), mas sim era uma linha independente que percorria toda a composições
sem interrupções.