O baixo contínuo tem seu surgimento diretamente ligado ao renascimento e
à busca de antigas teorias gregas, nas quais, como afirmavam os teóricos
renascentistas, havia a predominância de um solista acompanhado por um
instrumento.
A prática de contínuo provavelmente começou a se desenvolver na música
secular italiana no início do século XVI, vindo a ecoar na música sacra apenas
no final do século.
Dois fatores principais foram essenciais ao surgimento do contínuo:
1) Renascimento
da monodia acompanhada
Na idade média e início de
renascimento era mais relevante numa composição musical a igualdade entre as
vozes e a complexidade contrapontística. Já no renascimento tardio/ início do
barroco há uma grande valorização da monodia acompanhada, que seria derivada da
prática musical grega. O baixo contínuo seria então o acompanhamento desta
monodia, inicialmente realizado em instrumentos da família dos alaúdes
(chitarrone, teorba) e posteriormente em instrumentos de teclado (cravo, órgão,
regal).
2) Praticidade
A maioria das canções acompanhadas no século XVI vinha com um
acompanhamento a quatro vozes, como se todas as vozes do coro estivessem
concentradas em um só instrumento. No entanto, a execução nem sempre era
possível, pois havia instrumentos acompanhantes de várias naturezas, como
instrumentos de cordas dedilhadas (alaúde, chitarrone, cítara, harpa, lira) e
de teclado. A execução das quatro vozes também já não era mais importante, pois
a importância maior estava na melodia solista. Para que estes problemas fossem
solucionados criou-se um sistema mais simples e eficaz para os acompanhamentos.
Além disso houve um grande aumento na produção musical, de modo que a
maioria das cortes possuia um certo número de músicos profissionais e um órgão.
O desenvolvimento do contínuo ofereceu uma maior praticidade musical nas
seguintes funções:
a) segurar
a afinação de coros;
b) substituir
instrumentos originalmente especificados pelo compositor para uma performance
em outro local (dependendo da acústica de cada local, o que variava muito);
c) substituir
cantores por vozes instrumentais; na falta de um cantor sua voz seria executada
ao órgão;
d) substituir
inteiramente um coro (celebrações menores, impossibilidade da presença do corpo
musical).
Havia também um problema em relação aos organistas: possuiam uma
linguagem própria de notação (tablatura) de modo que todos os acompanhamentos
deveriam ser transcritos para esta linguagem. O baixo contínuo eliminou esta
transcrição e poupou os organistas de possuirem várias coleções de transcrições
para órgão.
As três primeiras publicações de baixos cifrados, isto é, que possuem
cifras explicando diretrizes para o acompanhamento, ocorreram entre outubro de
1600 e fevereiro de 1601, e são as seguintes: Rappresentatione di Anima et di Corpo, de Emilio de Cavalieri,
Euridice, de Giulio Caccini,
e Euridice, de Jaccopo Peri.
No início não havia cifragem dos baixos; a técnica só começou a ser
amplamente utilizada a partir de 1610 (mesmo após a popularização da técnica,
os compositores continuaram a grafar de uma forma incompleta). Anteriormente
possuíamos apenas bemóis e sustenidos
alterando a natureza do acorde. É também provável que a técnica de cifragem
seja também alguns anos anterior a 1600, pois foram encontrados alguns
manuscritos de Caccini que já possuiam este tipo de notação. Vale ressaltar que
os três compositores pertenciam à Camerata Fiorentina, de modo que o método de
cifragem pode ter saído desta academia de eruditos.