1. Desenvolvimento
Os tratados de contraponto do século XVI classificam os intervalos como
números; destes números vem a cifragem do baixo contínuo, que designam que
intervalos devem ser executados a partir da nota de baixo dada.
Nas primeiras peças cifradas há uma grande dificuldade na recomposição
das harmonias devido a grande imprecisão na grafia por parte dos compositores e
devido a variações de significados de região para região. Canções para contínuo
de compositores como Purcell e Cavalli foram arranjadas por eles próprios para
vozes e cordas e o resultado revela o quão distante estava a grafia da real
intenção harmônica do compositor. Há também confusões entre 6 e b, pois são
símbolos parecidos e usualmente grafados sem cuidado, de modo que pode haver muita
confusão nestes casos.
Há dois principais problemas na reconstituição dos baixos do primeiro
período:
1) Em algumas
situações onde ocorrem determinadas cadências, não houve uma especificação
grafada pelo compositor. Certas cadências eram "fórmulas" pré
estabelecidas na época que deveriam ser conhecidas pelo músico executante. Nos
trechos musicais em que ocorriam estas fórmulas, os compositores não se
preocupavam em notar algo, pois o intérprete já saberia solucionar este
problema.
Cabe a nós entender quais eram estas fórmulas pré-estabelecidas estudando os
tratados da época. Este problema ocorre no Vespro
della Beata Vergine, de Monteverdi.
2) De acordo
com a prática composicional da época, havia também uma busca pela contradição
do óbvio, de forma que certas cadências eram alteradas a fim de criar uma
quebra maior da homogeneidade na composição. Isto também era comum em
Monteverdi.
Outro fato importante é o de que inicialmente os compositores
especificavam a oitava em que o intervalo deveria ser executado (por exemplo,
havia diferença entre 11 e 4, havia símbolos como 13, 15, etc.). Esta prática
caiu em desuso ao longo do tempo.
Em relação aos tratados, podemos dizer que foram decisivos para a difusão
da técnica do baixo contínuo por toda a Europa. Um dos tratados que ajudou
nesta difusão, principalmente na Alemanha, foi o Syntagma Musicum de Michel Praetorius. Em seu tratado, Praetorius,
que tomara conhecimento de muitos autores italianos, citou um prefácio de B.
Strozzi defendendo que o baixo cifrado poderia dar a oportunidade a organistas
de executarem motetos de Palestrina de uma forma que o ouvinte não percebesse a
utilização de uma notação diferente da tablatura (considerada até então a
notação mais perfeita para órgão). Vale lembrar que a substituição da tablatura
pelo contínuo teve certa resistência, principalmente na Alemanha, onde perdurou
até aproximadamente 1700.
Outro fator importante defendido pelos teóricos é o de que a prática de
contínuo poderia empobrecer o conhecimento musical, principalmente dos
executantes, que acabariam apenas lendo as cifras sem entender as razões
específicas da execução de cada acorde.
Além disso, a medida que o tempo passava, os tratados passaram a
transmitir não mais apenas a forma de interpretação da harmonia mas diretrizes
calculadas para improvisações contrapontísticas coerentes.
Apesar da ampla divulgação, por volta de 1675 o contínuo só estava
completamente difundido na Itália; na Alemanha a prática estava apenas em
grandes cortes e capelas; já na França e Inglaterra só estava disponível nas
capitais. Havia certa resistência na adoção da técnica por parte de alguns
compositores como Heinrich Schütz, que só escrevia partes de contínuo a pedido
do escritor, e o próprio Michel Praetorius, que apesar de divulgar a técnica em
seu tratado, não apreciava escrever partes específicas cifradas.
No final do século XVII estabeleceu-se o grupo instrumental mais comum
para a execução do baixo contínuo: um instrumento de teclado (cravo e órgão, o
cravo mais ligado a recitativos e o órgão mais ligado à música sacra) acrescido
de uma viola da gamba baixo ou um violoncelo. Apesar disso, há exceções, como
as sonatas de Arcangelo Corelli, que requisitam o alaúde além do órgão
(formação muito recomendada anteriormente por Monteverdi). Nas casas de ópera
ainda havia uma grande quantidade de instrumentos, aos quais era delegada a
obrigação de acompanhar os cantores de forma mais adequada. Cabia então ao
cravista a função de improvisador, enquanto os outros instrumentos seguravam a
harmonia.
Já na primeira metade do século XVIII é criado um gênero muito
importante, que pode ter tido uma grande contribuição no declínio da técnica do
baixo contínuo: a sonata obbligato. O
maior exemplo é a série de sonatas compostas por Bach para flauta e cravo, cuja
voz superior da parte de cravo era uma voz independente. Esta voz freqüentemente responde e se
contrapõe às melodias do solista.
Apesar das sonatas obbligato
contribuírem no declínio da técnica do contínuo, elas possuem um grande papel
na reconstituição da técnica de improvisação da época, de modo que oferecem
muitas resoluções de problemas relativos à execução de baixo contínuo na música
de Bach.
Na 1° metade do século XVIII já podemos observar um declínio da técnica,
pelo fato dos compositores entenderem que já não era mais necessário um
instrumento de teclado para acompanhar quaisquer formações instrumentais. As
obras que ainda utilizavam contínuo possuíam com freqüência a inscrição tasto solo, que significava a exclusão
do instrumento de teclado durante determinado texto. Muitas obras permaneciam
quase inteiramente em tasto solo.
Ainda há, no entanto, algumas obras para contínuo durante este período e
um dos principais compositores desta fase foi Mozart, que em suas missas
escrevia partes de contínuo, na maioria das vezes extremamente complexas.
Apesar da complexidade, o contínuo desta época não possuia a mesma função
barroca, ficando muitas vezes ocultado por outros instrumentos. Por causa da
complexidade (havia muita grafia) o contínuo não tem a mesma conotação
improvisativa dos períodos anteriores. Alem disso havia os concertos para piano
nos quais Mozart pedia ao solista (inscrição col basso) que durante os tuttis
tocasse com a orquestra, prática comum na época. Era comum também em
concertos que o solista comandasse a orquestra, sendo o contínuo uma forma de
coordenação da de todos os músicos.