1. Instrumentos
Neste item abordarei a orquestração do contínuo, isto é, quais foram os
instrumentos utilizados ao longo do tempo. Primeiramente falaremos sobre a
música sacra, na qual o órgão foi predominante. Este instrumento foi o
principal acompanhante das funções litúrgicas da igreja.
Alguns órgãos possuiam também um jogo de cordas de cravo para o organista
utilizar durante os recitativos. Em alguns locais não era permitido que se
tocasse órgão durante a quaresma. Há também alguns estudos sobre a utilização
da harpa nas funções litúrgicas, sobretudo nos países da Península Ibérica.
Em relação a registração do órgão, podemos dizer que foi um tema sempre
muito controverso, pois compositores e tratadistas da mesma época possuiam
idéias e opiniões bem diferentes. Compositores e tratadistas como Gasparini,
Viadana e Praetorius afirmavam que não se deveria acrescentar registros mas sim
quantidade de vozes. Já Monteverdi recomenda na execução do Vespro della Beata Vergine que sejam
utilizadas três registrações
distintas para o órgão:
1) Principale - um principal de 8 pés;
2) Intermediária - Principal 8' 4' 2';
3) Organo Pleno - todos os registros de Principal
mais as misturas.
Alguns tratadistas, como Mattheson (1721), C. P. E. Bach (1762) e Adlung
(1763), falam em seus tratados que o organista deve executar toda a voz do
baixo na pedaleira, acrescentando 16'. Se não fosse possível a execução na
pedaleira devido a dificuldade do trecho, o organista deveria acrescentar um
16' pés no manual. Como se pode observar, é uma visão muito mais tardia e de um
caráter mais romântico (quanto mais som, melhor).
No entanto, é preferível que o organista escolha algo mais suave que o
principal, como flautas e bordões.
Principais são muito sonoros para a execução do contínuo, cuja função é
acompanhante e não solista. Para partes solenes o organista deve utilizar
registros de 8, 4 e 2 pés, enquanto que para trechos com menor volume deve
utilizar apenas 8 pés. A registração depende muito também da acústica da sala
(sala mais secas necessitam de mais registros) e do número de instrumentistas e
cantores acompanhados pelo órgão: quanto maior, mais registros. Para trechos
que possuam partes alternadas de tutti
e solo o organista deve preparar dois teclados com registrações distintas: uma
mais forte e uma piano.
O cravo é outro instrumento de destaque na instrumentação de contínuo,
Cravos com alguns registros e dois teclados têm a possibilidade de alteração de
dinâmica. O cravo foi amplamente utilizado nas funções de contínuo,
principalmente em obras com caráter mais recitativo. Quase todo o repertório de
contínuo foi composto para ser executado neste instrumento.
Sempre houve uma grande variedade de instrumentos acompanhantes, mais a
combinação principal estabilizou-se em um instrumento de teclado e um
instrumento de cordas friccionadas numa tessitura grave (gamba baixo ou cello).
Um ponto importante a ser ressaltado é a família dos instrumentos de
cordas dedilhadas. Instrumentos como alaúde, chitarrone, cítara, harpa, tiveram
grande importância no desenvolvimento da técnica. Em certas peças o regente,
possuindo três instrumentos executantes de contínuo diferentes como um órgão,
um cravo e um chitarrone, pode lidar com a instrumentação diminuindo ou
aumentando o volume do acompanhamento (para trechos em piano, apenas o chitarrone; para trechos mais fortes os três
instrumentos).
Temos alguns outros instrumentos acompanhantes e executantes de contínuo
principalmente na música profana, tais como fagote, sacabuxa e regal.
É necessário também dizer que o piano foi (e é) um costumeiro executante
de contínuo, principalmente em apresentações modernas que não têm preocupação
em fidelidade à partitura.
Para encerrar este item, gostaria de salientar a importância da
orquestração de contínuo nas apresentações de música barroca. Como já disse
anteriormente, o regente, desde que possua alguns instrumentistas de contínuo,
deve saber lidar com este artifícios
para o embelezamento da obra. É de praxe que o órgão seja utilizados
para as partes de coro e orquestra, enquanto os recitativos são acompanhados
pelo cravo; no entanto, há muitas combinações possíveis que podem ser
utilizadas pelos regentes.