1.1.
Século XVIII
O século XVIII é caracterizado pelo apogeu do período barroco, e
conseqüentemente o apogeu do baixo contínuo. Todas as obras da época que não
fossem obras solistas utilizavam esta técnica para preenchimento harmônico e
sustentação aos instrumentos. Mesmo pequenas peças para piano a 2 vozes, como
minuetos, eram preenchidos com baixo contínuo.
Os métodos surgidos neste século não eram mais tão enfáticos em como
ensinar o aluno a montar os acordes, mas ensiná-lo a proceder corretamente em
performances práticas (adequar a ornamentação ao estilo, fazer melhor
movimentação melódica, melhor condução de vozes, etc.).
Um dos maiores e mais importantes métodos desta época é o Grande Método
de Baixo Contínuo (Grosse
Generalbassschule, 1931), de Johann Mattheson, que fornece uma série de
exercícios ao aluno principiante, de forma que ao final do curso se tornaria um
exímio continuista.
Neste método, há exercícios muito complexos, em tonalidades que não eram
utilizadas na época, o que mostra que Mattheson já imaginava o que viria
posteriormente no final do barroco. Mattheson argumentava que, sabendo lidar
com tonalidades difíceis e acordes "esdrúxulos", o estudante, ao
depará-los, não teria problemas em sua
execução. Além disso, Mattheson dá muitos exemplos de realizações estilísticas,
sendo seu método completo.
Um pensamento de Heinichen, sobre ornamentação, que data desta época:
Na arte do baixo contínuo ornamentado não se
deve tocar os acordes de uma forma simples, mas se deve introduzir aqui e ali
uma ornamentação em todas as vozes, especialmente na voz superior da mão
direita, que é a mais proeminente. Isto possibilita mais graça ao
acompanhamento, uma vez que não é executado apenas a quatro ou mais vozes de
uma forma simples.
Por haver uma grande diversidade de estilos, não é possível que
determinemos um estilo próprio de execução neste período. Isto varia de região
para região e de compositor para compositor. O intérprete tem de observar o
compositor e sua localização. Compositores ao Norte costumam ter obras mais
ornamentadas contrapontisticamente, enquanto compositores do Sul e ingleses
costumam ser mais clássicos.
Dentre todos os compositores do barroco, o mais significativo em relação
ao baixo contínuo foi Johann Sebastian Bach (1685-1750). Bach escreve harmonias
muito elaboradas, com cifras até então nunca vistas. É extremamente difícil
executar seus contínuos, seu método de improvisação e ornamentação varia de
época para época. Há muitas controvérsias entre os editores de contínuo de
Bach, sendo que as realizações chegam a variar completamente de realizador para
realizador.
Muitas vezes é necessário que o continuista execute trechos fugados em
sua mão direita, em contraponto com a voz ou instrumento solista. Muitas vezes,
em introduções, Bach oferece apenas a linha inferior, de modo que o continuista
tenha que realizar toda a introdução na sua mão direita. Há também muitas
peças, provavelmente executadas pelo próprio Bach, que não possuem cifragem
alguma, de modo que o intérprete tenha de pesquisar o que vai tocar.
As sonatas para flauta com acompanhamento de cravo são um exemplo de
ornamentação de contínuo em Bach. Surpreendentemente Bach escreveu toda a mão
direita do acompanhamento, de modo que estas sonatas servem de base para
resolução de problemas relacionados a realização de contínuo. Outro exemplo de
ornamentação bachiana são os prelúdios corais para órgão, que mostram um pouco
como funcionava a ornamentação na época. Há também exemplos didáticos que Bach
escreveu para dar a seus alunos (Sarabande da Suíte Inglesa n°2). O exemplo da
Sarabande n°2 mostra-nos como era consistente a improvisação na época, e como
não temos a menor idéia do que era feito na época.
Outras obras importantes são as utilizações tardias de baixo cifrado,
sobretudo nas obras sacras.
Mozart é um grande exemplo disso. Em suas missas, Mozart escreveu
contínuos trabalhadíssimos, de modo que é quase impossível tocá-los sem
transcrição. Além disso há diversas trocas de clave, que ocorriam para o
continuista saber que voz estava acompanhando. Nos primeiros concertos para
piano, quando não estava solando, o pianista executava contínuo. Haydn também
escreveu partes de continuo em suas primeiras sinfonias.