Apêndice
Teoria elementar do baixo contínuo
1.Formação
dos acordes
Como já defini anteriormente, o baixo contínuo evidencia ao executante a
harmonia que deve aparecer no trecho musical. Desta forma o executante montará
acordes a partir de uma linha de baixo pré-estabelecida, e estes acordes
obedecerão às relações intervalares fornecidas pelas cifras (ou por sua própria
omissão). Neste item explicarei o método de formação dos acordes e algumas
convenções de época, concernentes às relações intervalares entre as notas.
Primeiramente devo explicar que todo intervalo é designado por números:
para uma segunda o número 2, para uma terça o número 3, e assim por diante.
Em seguida, o intérprete deve descartar todos os conceitos de teorias
harmônicas vigentes, como a harmonia tradicional e harmonia funcional. Não há
no baixo contínuo o conceito de inversão de acordes e acordes sem fundamental
(todos os acordes possuem fundamental, que é sem exceções a nota do baixo).
Para uma melhor compreensão, observe o
exemplo 1.1.
Exemplo 1.1
Na harmonia
tradicional, este acorde é considerado um acorde de dó com a quinta no baixo;
já na harmonia funcional este acorde é considerado uma dominante com quarta e
Sexta, se estiver em um ponto cadencial. No baixo contínuo ele é encarado como
um acorde em fundamental, com quarta e sexta, um "sol - quatro e
seis" ou "seis - quatro".
Passarei então às convenções de época. Devemos observar que muitas do baixo não
possuem cifras ou possuem cifras insuficientes.
Exemplo 1.2
(J.B.Lully, Ballet des Plaisirs,
1655)
Observe como há
muitas notas que não possuem grafia, enquanto outras apenas um sinal ou número.
Na tabela a seguir serão explicadas estas convenções de época:
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Inscrições sob as notas
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Significado
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Sem cifras
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Acorde 5-3
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6
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6-3
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7
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7-5-3
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2
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6-4-2
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4
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8-5-4 (quase sempre
o 4, dissonância, vai para a consonância, 3, sendo o acorde seguinte um
8-5-3)
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9
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9-5-3 (O nove
também costuma resolver no oito, consonância)
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Sinais como #, b e
n
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Alteram a terça do
acorde. 5-#3
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Acidentes ao lado
dos números
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Alteração apenas do
intervalo
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Números cortados
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Intervalo
sustenizado: 6 cortado
equivale a #6
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Em relação aos
dobramentos, para acordes que não possuam dissonâncias, há a seguinte tabela,
que não deve ser seguida com extremo rigor:
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Acorde
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Dobramento
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5-3
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Oitava (8)
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6-3
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Terça ou sexta (3
ou 6)
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6-4
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Oitava (8)
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2. Execução
O método mais simples e costumeiro de execução do baixo contínuo consiste
no continuista executar o baixo com a mão esquerda e montar a harmonia
(acordes) com a mão direita. O iniciante deve começar executando cadências
simples ao teclado, tais como I-IV-V-I,
I-II-V-I, em todas as posições
e em todas as tonalidades. Posteriormente deve começar a executar contínuos bem
simples, que não possuam muita cifragem. No encadeamento entre acordes vale a
antiga regra da menor movimentação possível entre as vozes e, quando possível,
da preparação e resolução de dissonâncias. É necessário também que o iniciante
já pense no caráter melódico da linha improvisada, que é de extrema importância
nesta técnica (É importante que o executante tenha uma base sólida de
contraponto).
Posteriormente o
estudante deve executar contínuos com maior cifragem, como os de J. S. Bach.
Quando superar esta fase, deve então recorrer aos Mozart (missas), que além de
possuir cifragem excessiva, trocam várias vezes de clave (Mozart em um trecho
da Grande Missa em Dó utiliza quatro claves diferentes: 3 de dó e clave de fá).
Um bom treino também são os contínuos não cifrados de Bach, nos quais o
continuista deve deduzir a harmonia a partir da melodia e do baixo fornecido.