CAPÍTULO VI
O CLASSICISMO - (da segunda metade do século 18 até o início
do século 19)
1 - Introdução
Na busca de criar uma sociedade livre dos entraves feudais e
aristocráticos, ampliando o progresso material, sucederam grandes e violentas
mudanças nos panoramas europeu e mundial: as lutas pela Independência nos
Estados Unidos (1776) e nas colônias latino-americanas (a partir de meados do
século 18), o início da Revolução Industrial, a vigorosa Revolução Francesa e
as guerras Napoleônicas. Cada fato complementou o outro em torno dos ideais de
Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Na filosofia, o Iluminismo incentivava a discussão política
em torno das noções de democracia, república, direitos humanos etc. e, também,
das crenças religiosas, que foram livremente admitidas e toleradas, bem como
duramente criticadas.
Nas artes do período, desenvolveu-se o estilo Neo Clássico
(ou Arcadismo) da Literatura e das Artes Visuais. Esta estética defende, num
sentido amplo, o racionalismo, a procura do belo, a perfeição, o equilíbrio, a
simetria, a proporção, a imitação não da natureza, mas de obras de outros
autores.
A palavra "classe" indicava o cargo militar e a
posição social de cada indivíduo na sociedade romana e o condicionava a um grau
de instrução específico. Na Idade Média e, depois, no Renascimento, passou a
designar as obras filosóficas, jurídicas e literárias produzidas pelos gregos e
romanos que deveriam ser lidas, estudadas e apreciadas nas universidades. Na
História da Arte, derivando-se desta situação, passou a designar toda obra
produzida entre os séculos 14 e 18 inspirada na estética greco-romana.
Atualmente, clássico é o conceito que damos a qualquer obra, independente de
época, estilo ou origem, considerada modelar, pioneira e de qualidade,
reveladora da inteligência e sensibilidade humanas.
A expressão "música clássica" é, comumente,
sinônimo de música erudita.
O termo Classicismo foi aplicado, a posteriori, pelos
historiadores, à música compreendida entre 1750 e 1800.
2 - Características
gerais
A
música deste período é tonal, isto é, todos os acordes são trabalhados em vista
de suas funções. Esta organização, que foi feita por Bach, Rameau e outros do
final do século 17 e início do século 18, propiciou:
a) uma maior riqueza harmônica (vinte e quatro tonalidades: doze
escalas maiores e doze menores);
b) o entendimento do mecanismo dos encadeamentos dos acordes
e das modulações);
c) um planejamento mais orgânico e mais fluente na
composição (os compositores estavam mais preocupados em elaborar estruturas
sonoras abstratas e não precisavam de muletas extramusicais, como a teoria dos
afetos) ;
d) a exploração de um maior contraste de tonalidades entre
um andamento e outro;
e) abandono do baixo-contínuo, pois os acordes passaram a
ser escritos completos;
f) a afinação mais precisa e uniforme dos instrumentos
musicais, podendo combinar muito mais entre si e tornando a orquestração mais
rica;
g) a invenção da armadura de claves.
No classicismo a dinâmica passou a ser explorada em todas as
suas possibilidades. Nos períodos anteriores não se usava, ou melhor, não se
indicava objetivamente alguma mudança de nuances deste parâmetro. Na última
fase do Barroco, havia somente indicações de contrastes entre trechos musicais
em "piano" e "forte". Já os clássicos tiveram a idéia de se
utilizar do "crescendo" e do "decrescendo", graduando a dinâmica
e inventando seus respectivos sinais. Esta técnica foi muito desenvolvida pelos
compositores de Mannheim (Alemanha) e divulgada posteriormente por Haydn e
Mozart.
Novos instrumentos apareceram: entre eles o piano (inventado
em 1698 por Bartolomeo Cristofori – 1655/1731, para que tivessem à mão um
instrumento de teclado que pudesse dar sons suaves e fortes) e o clarinete
(inventado no início do século 18 por Jacob Denner -1681/1735). Melhoraram os
mecanismos e as extensões do oboé e do fagote. O violoncelo ganhou uma ponta
para apoiá-lo no chão (antes era preso entre as pernas pelo executante) e
descobriram a maravilha do seu timbre.
A orquestra sinfônica ("orquestra que toca
sinfonias") se padroniza com o quinteto de cordas, sopros de madeira aos
pares, flautas, oboés, clarinetes e fagotes, sopros de metal aos pares
(ytrompas e tromptetes) e um par de tímpano. O número total chegava ao máximo
de 35 executantes.
Joseph Haydn inventou o quarteto de cordas (dois violinos,
viola e violoncelo), uma combinação soberba de música de câmara.
Os antigos consortes renascentistas e barrocos começam a
desaparecer: as flautas-doce, as violas medievais, entre outros, são excluídos
do repertório.
O regente ainda dirige a orquestra do cravo, do piano ou
como primeiro-violinista.
Nas óperas e outras peças com muitos executantes, a solfa e
o bastão foram deixados de lado em troca da batuta, pequena vareta para
orientação dos músicos, mas ela só se tornou comum no século 19. Muitos
preferiam usar as mãos.
3 - Forma
Os
compositores austro-alemães, estabelecidos em Viena, elaboraram grandes formas
musicais abstratas devido a quatro fatores básicos:
a) a organização do sistema tonal;
b) as características da arte da época que buscava clareza,
proporção e equilíbrio;
c) a necessidade de expressar a filosofia iluminista, racional
e científica;
d) a censura política no universo da cultura alemã (a
literatura e o teatro eram vigiados).
3.1 - Forma-sonata
Recebeu este nome porque era usada nas peças chamadas
sonatas. Há vários nomes alternativos: "sonata forma", forma
"allegro-de-sonata" (neste caso é um equívoco, pois outros andamentos
eram compostos desta maneira); forma "tripartite-de-sonata", entre
outros nomes.
Surgiu dos desdobramentos de experiências levadas a cabo por
Pergolesi e Carl Philip Emannuel Bach e os compositores vienenses a fixaram
assim:
-
EXPOSIÇÃO: o
primeiro tema é apresentado na tonalidade principal e depois vem um segundo na
tonalidade secundária, subordinada à primeira tonalidade;
-
DESENVOLVIMENTO: os
temas são modulados (mudanças de tonalidades) e trabalhados de várias maneiras
(variação melódica e mudança no ritmo entre outras coisas);
-
REEXPOSIÇÃO: os
temas voltam, mas o segundo tema tem uma pequena modificação, voltando na
tonalidade principal, o que causa uma surpresa, e ao mesmo tempo dá o
equilíbrio musical necessário.
No meio de tudo isto há uma complexa trama musical com
pontes modulatórias (chamadas também de brincadeiras ou divertimentos,
geralmente em forma de harpejos ou de escalas ascendentes e descendentes), mudando
para a nova tonalidade ou embelezando a composição, com codettas (fechando
seções intermediárias) e com coda, para encerrar a peça. As pontes, a codetta e
a coda podem extrair elementos dos temas nas suas configurações.
No final do século 18, os compositores colocaram uma seção
introdutória, no primeiro andamento, com um tema novo, normalmente em andamento
lento.
3.2 - Forma-canção
Seguindo o modelo ternário, a forma-canção é derivada da
ária-da-capo e do "lied" (um tipo de canção folclórica alemã).
O seu esquema é o seguinte:
-
SEÇÃO A: tema
principal
-
SEÇÃO B: tema
secundário
-
SEÇÃO A”: tema principal com alguma mudança de aspecto (melódico,
instrumental, etc...)
Com o tempo, os compositores passaram a colocar uma
introdução, pontes modulatórias, codettas e coda final.
3.3 - Forma-romance
É a ornamentação de um tema, geralmente de cárater “cantábile”,
passando-o por várias tonalidades. Muitas vezes esta forma é fundida com a
forma-canção.
Mozart, Haydn, Beethoven, entre outros, a utilizaram em seus
andamentos lentos.
3.4 - Tema e variações
É a modificação de um tema. Pode ocorrer em vários níveis:
mudança na melodia, na tonalidade, no arranjo harmônico, no ritmo, na expressão
e no caráter, na dinâmica, no andamento, no timbre, na articulação, na ornamentação,
etc...
O tema a ser trabalhado pode ser invenção própria ou de
outro compositor.
E o modelo é:
TEMA - VAR. 1 - VAR. 2 - VAR. 3 - ... - VAR. "N"
Pode haver introdução, pontes, codettas e coda.
3.5 - Forma minueto-e-trio
Os compositores utilizavam-se muitas vezes do minueto para
dar um caráter mais ameno e gracioso a uma peça, aliviando assim um pouco o
cerebralismo das outras formas. Entretanto, mesmo mantendo o seu caráter
original, não serve para dançar.
A seqüência obedece ao esquema: MINUETO (tom principal) -
TRIO (tom secundário) - MINUETO (repetição do início)
O trio (ver explicação sobre este termo na suíte barroca) é
um segundo minueto e as diferenças entre os dois é a seguinte:
-
MINUETO - é vivo, forte e com orquestração cheia;
-
TRIO – é calmo, leve
e com poucos instrumentos.
Haydn, nas suas últimas obras, começou a substituir o ritmo
do Minueto (uma dança que estava saindo da moda no final do século 18) pelo
Scherzo ("brincadeira" em italiano), uma peça livre com caráter mais rítmico
e jocoso, seguido por um Trio, mais terno.
3.6 - Forma rondó
Esta forma foi desenvolvida, desde a Idade Média, a partir
da correspondente forma poético-musical. É uma sucessão de refrães (ou
estribilhos) e estrofes (ou coplas).
Tem o seguinte esquema básico:
A B A B A
Em música, a seção A é chamada de tema principal e está
sempre no tom principal.
A seção B é denominada episódio e sempre está numa
tonalidade secundária.
Os compositores podem optar por colocar mais episódios, daí
este esquema assume vários aspectos; por exemplo:
A B A C A B A
A B A B A C A
A B A C A D A
O tema principal pode reaparecer ligeiramente modificado em
suas “nuances”.
Os episódios contém muitos elementos de contrastes em
relação ao tema principal e entre si, que vão desde as diferenças temáticas e
tons até arranjos e orquestração. Há também introdução, pontes, codettas e
codas. Há uma complexa relação tonal entre as partes.
Na pesquisa dos compositores, estas formas assumiam vários
aspectos com fusão entre elas, simplificações etc... Seria preciso estudar
detidamente cada composição para fazer-se compreender. Além disto, devo lembrar
que estas formas são apenas modelos criados por musicólogos, historiadores,
teóricos e professores, “a posteriori”, para facilitar o entendimento das obras
para execução e apreciação. O compositor, na prática, trabalhava em cada obra
de acordo com a sua necessidade, variando, como bem lhe aprouvesse, nos
detalhes, o modelo que tinha em mãos. Além disto, composição, antes de mais
nada, é imaginação, pesquisa, experimento e criação.
Todas estas formas eram utilizadas para compor qualquer
obra, instrumental ou vocal.
4 - Gêneros
4.1
- Instrumental
4.1.a - Sonata e música de câmara
A origem da sonata clássica está no cruzamento da suíte com
a abertura italiana, mais a trio-sonata barroca. Na segunda metade do século
18, sonatas para instrumento solo (geralmente para teclado) eram compostas,
normalmente, em três andamentos, acrescentando, mais tarde, o "minueto e
trio".
O
esquema geral, com suas relações tonais, formais e de andamento, ficou assim:
|
PEÇA
|
ANDAMENTO
|
TONALIDADE
|
FORMA
|
|
I
|
Rápido ou moderado
|
Principal
|
Forma-sonata
|
|
II
|
Lento
|
Secundário
|
Forma-sonata (sem
desenvolvimento) ou forma-canção ou forma-romance ou temas e variações
|
|
III
|
Moderado
|
Principa;
|
Minueto/trio ou scherzo/trio
ou outro qualquer
|
|
IV
|
Muito rápido
|
Principal
|
Forma-sonata ou
forma-rondó
|
Sonatas para mais instrumentos (genericamente denominadas “música
de câmara”) recebem nomes específicos, de acordo com o número de instrumentos:
Dois ......................................duo
Três .......................................trio
Quatro ...............................quarteto
Cinco .................................quinteto
Seis ....................................sexteto
Sete ...................................septeto
Oito ...................................octeto
Nove ..................................noneto
Combinações para dez
ou mais instrumentos recebiam os nomes de serenata, divertimento,
cassação e outros, dependendo da utilidade, instrumentação e destinatário.
Muitas sonatas a solo para instrumento melódico (violino,
flauta ou oboé, por exemplo) tinham acompanhamento obbligato
("obrigatório" em italiano) de instrumento harmônico (piano,
clavicembalo, cravo, órgão etc...).
4.1.b - Sinfonia
A sinfonia é uma sonata para orquestra e segue os mesmos
padrões formais acima. Entretanto muitas sinfonias eram simplesmente aberturas
italianas de óperas e não seguem este critério.
4.1.c - Concerto solo
Os compositores da segunda metade do século 18 abandonaram o
concerto grosso e se dedicaram ao concerto solo, principalmente aqueles que
eram hábeis instrumentistas.
O concerto era sempre em três andamentos. No primeiro, de
velocidade entre a moderada e a rápida, os compositores procuraram fundir a
forma-sonata com a técnica do executante e chegaram ao seguinte esquema:
|
SEÇÃO
|
EPISÓDIOS
|
A
|
EXPOSIÇÃO dos temas pela orquestra e depois pelo solista
|
|
B
|
DESENVOLVIMENTO, onde solista e orquestra trocam idéias
|
|
A”
|
REEXPOSIÇÃO dos temas pelo solista e pela orquestra
|
|
C
|
CADENZA: parte em que o solista mostra sua técnica
|
|
D
|
CODA: a orquestra finaliza a composição
|
A cadenza ("cadência" ou "caída" - no
caso musical "cair para o tom" - em italiano) é um trecho para a
exibição do solista, sem acompanhamento da orquestra. Não era escrita porque
era para o solista improvisar livremente sobre os temas (isto acarretava sérias
brigas com os compositores). Quando o solista iria parar de improvisar, avisava
com um trinado. Outras cadenzas, escritas ou não, com ou sem acompanhamento
orquestral, pontuavam todo o andamento. As relações tonais entre os temas e as
seções seguiam o esquema geral da forma-sonata.
Para o segundo andamento, geralmente lento, os compositores
procuraram fundir o lirismo e a técnica. Normalmente em forma-canção, forma-romance
e tema-e-variações. Algumas vezes encontramos a forma-recitativo (uma melodia
com intervenções orquestrais dramáticas). Cadenzas escritas ou não, com ou sem
acompanhamento da orquestra, pontuavam o andamento.
No terceiro andamento, geralmente na forma-rondó, eles fundiam
a rapidez com a técnica. Também as cadenzas poderiam ser escritas ou não, com
acompanhamento ou não da orquestra.
Em alguns concertos de Mozart, encontramos uma mudança de
caráter no último andamento, talvez querendo desmembrá-lo.
Compositores importantes de peças instrumentais, entre
outros:
-
Franz Xaver Richter (1709/1789)
-
Johann Stamitz (1717?/1757)
-
Joseph Haydn (1732/1809)
-
Johann Baptist Vanhall (1739/1813)
-
Carl Stamitz (1745/1801)
-
Muzio Clementi (1752/1832)
-
Wolfgang Amadeus Mozart (1756/1791)
Sonatas a solo, música de câmara, sinfonias e concertos são
compostos ainda hoje, seguindo, mais ou menos, estes padrões formais.
4.2 - Vocal
4.2.a - Ópera
Na ópera, aconteceram inúmeras tentativas para dar combate à
superficialidade dos libretos, às frivolidades dos cantores e a um tipo de
música exuberante, mas sem dramaticidade.
Christoph Willibald von Gluck (1714/1787), depois de compor
dezenas de óperas em estilo napolitano ou no estilo pomposo francês, procurou
desenvolver um tipo de espetáculo diferente e, nos prefácios de suas óperas
"Orfeu e Eurídice" (1762) e "Alceste" (1767), defendeu os
seguintes pontos de vista:
·
O enredo deve ser simples
·
A abertura deve preparar a platéia
·
O recitativo e a ária não devem atrapalhar a ação
·
A música deve servir ao texto, procurando a verdade
cênica
Mozart herdou e ampliou as idéias de Gluck. Como tinha
profundidade dramática e grande versatilidade musical (misturou elementos
estilísticos barrocos, franceses, napolitanos, a ópera bufa, o singspiel e o pré-romantismo),
conseguiu caracterizar de modo adequado personagens e situações. Compôs óperas
com temas mitológicos, históricos, políticos, cotidianos e até fantásticos,
explorando o drama, o humor e o erotismo.
Alguns outros importantes compositores de óperas do
classicismo:
-
Joseph Haydn (1732/1809)
-
Giovanni Paisiello (1740/1816)
-
Domenico Cimarosa (1749/1801)
-
Antonio Salieri (1750/1825)
-
Luigi Cherubini (1760/1842)
4.2.b - Outros gêneros
Na
música não-religiosa proliferavam as canções, baladas, árias, etc... Eram
compostas às centenas para usofruto de cantores, castrati, vaidades de
aristocratas etc...
A produção de música vocal religiosa continuava sendo
enorme: missas, cantatas, hinos, ladainhas e motetos foram compostos às
centenas por ano, por milhares de compositores, para atender à demanda de
capelas, igrejas, cerimônias etc...
Podemos exemplificar com apenas três jóias de Mozart: a Missa da Coroação, o moteto Ave Verum Corpus e o famoso Réquiem, terminado por Franz Xaver
Süssmayr (1766-1803).
5 - Vida musical
Na vida profissional, os músicos passaram a lutar por mais
independência em relação à nobreza e ao clero, mas estes permaneciam como os
principais empregadores. Entretanto, vários compositores já se associavam a
empresários ou a editores ou eles mesmos já faziam este serviço (Haydn e
Clementi, por exemplo). Alguns tentaram ser "free-lancers" (Mozart).