CAPÍTULO VII
A MÚSICA DO SÉCULO
XIX
1 - Introdução
Depois das grandes revoluções políticas, o século 19 foi o
período da consolidação do regime democrático e da economia capitalista, na sua
fase chamada de "imperialismo": a matéria-prima fluía continuamente
para as indústrias européias, vinda dos recém independentes países
sul-americanos, das colônias africanas e dos milenares países asiáticos (China, Índia e Japão, entre outros).
A rivalidade comercial na Europa
foi aumentando e inúmeras guerras localizadas aconteceram. Duas delas
consolidaram as unificações nacionais da Itália e da Alemanha.
Também o movimento operário se
organizou, através dos sindicatos e dos partidos políticos, conquistando,
pacificamente ou não, vários direitos sociais até então negados pelas elites.
A Ciência tornou-se a principal
referência em matéria do conhecimento, desbancando a Filosofia e a Religião, e
começou a influenciar o comportamento cotidiano das pessoas.
Nas Artes tivemos um
desenvolvimento impressionante de tendências e correntes. As principais correntes
literárias foram, na seqüência de surgimento: Romantismo, Realismo/Naturalismo
e Parnasianismo, Simbolismo e as primeiras correntes modernistas. Nas Artes
Visuais: Romantismo, Realismo, Impressionismo, Art Nouveau, Art Décor, Art Naif
e as primeiras correntes modernistas.
A música foi batizada,
genericamente e por comodidade, com o nome de "Romantismo".
Entretanto esta denominação não expressa de maneira adequada a profunda
transformação musical ocorrida nesta arte entre o final do século 18 e o século
seguinte. E muitos historiadores já estão propondo redefinir esta nomeclatura
para melhor explicitar as várias correntes musicais.
Mas penso ser enriquecedor tentar
entender o que significa "Romantismo". A palavra romantismo vem do francês medieval "roman",
que, na Idade Média, designava os idiomas que mesclavam o latim com os dos
vários povos germânicos invasores e, por conseqüência, todas as narrativas
literárias (cheias de aventuras, batalhas, magia, valores cristãos e culto ao
amor cortês) escritas neste jargão - do qual, mais tarde, nasceram parte dos
idiomas europeus modernos. Aquelas narrativas, chamadas de "romances de
cavalaria", deram origem, com o passar dos séculos, ao gênero literário
"romance". O "romance" é uma vasta história ficcional
retratando muitas personagens, que se relacionam entre si, numa grande extensão
de tempo. Os historiadores, de um modo geral, resolveram batizar várias
correntes filosófico-culturais com o nome de "romantismo", numa
homenagem ao gênero literário, que havia se tornado o mais importante meio
artístico no século 18, no qual muitos artistas expressaram suas inquietações
pessoais em relação aos acontecimentos sócio-econômicos da época.
O Romantismo filosófico-cultural
surgiu quase simultaneamente na Inglaterra e na Alemanha no final do século 18.
Este movimento era primeiramente uma reação política contra os ataques
napoleônicos e, mais tarde, tornou-se uma revolta contra qualquer sujeição às
regras sociais, religiosas, culturais e artísticas. Na França, depois de muita
resistência, chegou por volta de 1810. E daí espalhou-se para o mundo.
As características desta estética
foram:
- liberdade artística e técnica;
- liberação dos sentimentos
pessoais (muitas vezes melancólicos e passadistas) valorizando o "eu"
(reflexo do individualismo da burguesia);
- nacionalismo;
- volta a uma Idade Média
idealizada;
- exotismo;
- saudação ou temor pelo avanço
da Ciência ;
- crítica ou fervor religioso;
-
exaltação à Natureza em contraposição às convenções da
civilização industrial.
Além disto, para os românticos, a
Arte redimiria o ser humano. Os artistas, livres de qualquer herança dos
estilos passados e da tutela aristocrática ou clerical, passaram a se submeter
às leis do mercado e moldavam sua obra conforme suas expectativas e os seus
anseios pessoais em relação à competição individual e ao impacto comercial que
poderia causar num público disposto a pagar pela sua criatividade. Decorrem daí
os clichês individualistas de que o Romantismo é a "arte
confessionária", "arte da expressão pessoal", "arte das
emoções e sentimentos puros", e os conceitos de "inspiração",
"talento" e "gênio".
Forjada pelos livros de história
- para deleite dos diletantes - e, também, pelos próprios artistas, a imagem
que temos deles é que nasciam predestinados ou eram de outro mundo; tinham uma
infância sofrida e pobre; viviam e morriam com o "mal do século";
estavam sempre ao luar com suas fervorosas amadas imortais; eram gênios
incompreendidos; eram vítimas de intrigas e conspirações; ficavam frustrados,
desesperados, pessimistas, chorosos e dengosos sem qualquer razão aparente;
tinham quinze minutos de uma vasta aclamação pública, mas eram criticados
áspera e atrozmente pelos insensíveis críticos da época; produziam cenas
escandalosas ou ataques da mais pura loucura; diziam frases retumbantes de
inspirada elevação filosófica, poética ou existencial; estavam alienados e não
se importavam com nada; gastavam o dinheiro que tinham e o que não tinham e,
finalmente, morriam na maior miséria, jovens e esquecidos injustamente, para
ressuscitar, para a maior glória, algum tempo depois. Tudo isto é lenda, igual
ao que se veicula nas revistas sobre astros do cinema e televisão hoje em dia.
A realidade é que a arte, em qualquer momento, vive de um pouco de
mistificação, mas é um trabalho e o resultado é fruto de estudos disciplinados
e pesquisas cotidianas incessantes.
Os artistas passaram a trabalhar
com ou como empresários do ramo de espetáculos, patrocinados pelo comércio em
geral (lojas, indústrias ou bancos) ou eram amparados pelo Estado. Outros foram
free-lancers, isto é viviam de oportunidades e encomendas.
2 - Características gerais
Muitos pesquisadores da História
da Música delimitam o Romantismo musical entre os anos de 1800 e 1890, mas há
outros que apontam como seu início o ano de 1830 e o encerram em 1914.
Podemos traçar as características
da música do século 19, independente de sua denominação, de suas datas e de
suas lendas.
A melodia desta música toma um
aspecto redondo, mais fluente, parecendo ficar infinita. Isto foi uma
conseqüência da introdução de elementos da música folclórica e da música
popular, devido às diversas ondas nacionalistas que ocorreram na Europa naquele
tempo. Assim o repouso da melodia é ampliado por "notas estranhas" e
pelas ousadas modulações, que se distanciam cada vez mais da tonalidade de
início. Também esta expansão nas modulações é alcançada através da alteração ou
substituição ou introdução de novos acordes. Assim chega-se ao cromatismo harmônico,
que produz uma indefinição tonal momentânea. Apesar destas inovações
extraordinárias qualquer obra deste período é fortemente baseada na harmonia
tonal.
São herdadas as formas do
classicismo, mas expandidas com estes novos recursos melódico-harmônicos. Criam
formas cíclicas, ou seja, formas em que um tema é rememorado em várias partes
de uma mesma composição. Cada compositor batizou este processo com um nome:
"idéia fixa" (Berlioz), "transformação temática" (Lizst) ou
"motivo condutor" (Wagner). Outros compositores procuram criar
esquemas livres. Muitas destas formas livres são baseadas em roteiros
fornecidos pelas outras artes, principalmente vindos da Literatura.
A dinâmica é explorada em todas as suas nuances e
contrastes. Surge o conceito de "tempo
rubato" (andamento "roubado" em italiano) que é uma alteração
livre no andamento normal.
Para marcar com mais exatidão o
andamento, foi inventado, por Johann Nepomuk Maelzel (1772/1838), em 1816, um
aparelho chamado "metrônomo".
Novas expressões de execução
aparecem: "sforzando", "martellato", "dolce" etc.
Há, também, uma tendência em trocar o italiano pelos idiomas nacionais. Assim,
temos partituras com a nomeclatura toda em russo, castelhano ou em norueguês –
mas isto só se aprofundou no século 20.
A orquestra sinfônica torna-se
gigantesca. Os instrumentos são duplicados, triplicados e até quadruplicados em
número E adota-se o flautim, o
corne-inglês, o pequeno clarinete (no Brasil: requinta), o clarinete baixo, o
trombone e a harpa, entre outros.
Ocorre uma melhora em quase todos
os instrumentos, devido às pesquisas científicas e à industrialização,
principalmente dos sopros de metal: são adicionadas válvulas (ou os pistões),
por exemplo, nas trompas e nos nos trompetes, o que melhora a afinação e
aumenta a escala destes instrumentos.
Inventa-se a tuba, padronizada em
1835 pelos alemães Johann Gottfried Moritz (1777/1840) e Wilhelm Wieprecht
(1802/1872) a partir de vários instrumentos de metal antigos, e o saxofone,
criado em 1840 pelo francês Adolphe Sax (1814/1894).
A percussão é enriquecida só mais
no final do século com o xilofone, o glockenspiel e a celesta, inventada em 1886
pelo francês Auguste Mustel (1842/1919), entre outros. Os tímpanos, a partir de
Beethoven e Berlioz, são usados de maneira criativa e até como solistas.
A música para órgão é numerosa
tanto em composições religiosas, quanto no repertório de concerto ou integrado
à orquestra sinfônica. O cravo é esquecido e o piano torna-se o instrumento de
teclado preferido.
Surgem as sociedades musicais
(ditas "filarmônicas" - do grego amigos da música), a partir de
meados do século 18, que promovem espetáculos (óperas e balés), concertos,
recitais e audições, e contratam compositores, regentes, cantores, virtuoses,
coro etc... e, depois, cobram ingresso.
Aparece, talvez pela primeira vez
na história da música, a especialização. Há músico que é especialista em
compor, outro em reger uma orquestra, outro em executar determinado tipo de
instrumento e assim por diante.
Aumenta, em quantidade e
qualidade, a edição de partituras e a publicação de livros sobre música.
Schumann, Berlioz e Wagner, só citando alguns compositores importantes, possuem
numerosos textos sobre diversos aspectos musicais como também suas opiniões
sócio-políticas.
A crítica de jornal ajuda a
divulgar as apresentações, põe em
circulação - para efeito educacional também - as novas estéticas e concorre
para aumentar as brigas entre compositores, executantes, cantores, libretistas,
coreógrafos, editores, empresários, políticos, religiosos e público em geral.
Os motivos são sempre os mesmos: dinheiro, cargos e manias pessoais, entre
outras coisas.
Surge a noção de história da
música e do repertório histórico nos concertos, recitais, óperas e balés, o que
ajuda a definir a rotina - desenvolvida por Mendelssohn e Schumann - na apresentação
de uma récita sinfônica.
a) a sequência básica de gêneros
deve ser a seguinte:
1 - uma "abertura" (de
concerto ou de ópera);
2 - uma pequena peça sinfônica
qualquer (entreato de ópera, suíte de balé, marcha etc.) ou uma pequena
"sinfonia"
(intervalo);
3 - um "concerto" para
solista e orquestra;
4 - uma grande
"sinfonia" ou um "poema sinfônico".
b) o repertório deveria ser
"histórico" (normalmente de Bach a Wagner), sempre fazendo uma
homenagem a um ou dois compositores do passado, e a estréia de uma nova obra.
c) os aplausos só podem ser
feitos após o término da música, não entre os andamentos (Mahler foi quem
instituiu este costume).
Aparece a Musicologia, ciência
musical que estuda todos os aspectos que envolvem esta produção artística,
menos a parte da execução e da composição.
3 - Música instrumental
3.1 - sinfonia,
sinfonia de programa, poema sinfônico, abertura e música de câmara
Ludwig van Beethoven (1770/1827)
foi uma ponte entre dois períodos históricos e sua obra nos revela uma das
preocupações fundamentais da música do século 19: como unir as formas clássicas
com as novas descobertas estéticas. Como conseqüência disto, temos duas
correntes: uma que defendia a música absoluta e a outra a música programática.
Os defensores da primeira foram
Felix Mendelssohn (1809/1847), Robert Schumann (1810/1856) e Johannes Brahms
(1833/1897) e desenvolveram a sonata, a música de câmara e a sinfonia, seguindo
os modelos clássicos e não desejavam associar a música com algo exterior à sua
própria linguagem.
A segunda era defendida por
Hector Berlioz (1803/1869) e Franz Liszt (1811/1886), que inventaram novos
gêneros como a sinfonia de programa e o poema sinfônico, apoiando-se em fatores
extra-musicais.
Além daquelas características
expostas no tópico anterior, ambas as tendências se utilizam mais dos seguintes
procedimentos:
·
os temas já são modificados na exposição;
·
eles são esmiuçados em todos os seus detalhes até
esgotarem todas as suas possibilidades criativas;
·
a introdução e a coda ficam extensas e apresentam novos
temas;
·
a coda pode servir para mais elaborações temáticas;
·
as pontes entre uma seção e outra são mais trabalhadas;
·
troca do minueto/trio pelo "scherzo"
("brincadeira" em italiano), que é mais intenso, robusto e rápido;
·
todos os andamentos de uma peça recebem um tratamento
composicional mais profundo;
·
aumento ou fusão dos andamentos;
·
mudanças internas de velocidade;
·
uso da voz solista ou coral na trama sinfônica;
·
longa duração.
A "sinfonia de
programa" é um tipo de obra na qual o compositor tem a intenção de mostrar
uma história através dos sons. O plano formal é o mesmo da sinfonia comum, mas
modificando-a para este novo propósito. Exemplo é a "Pastoral" (1808)
de Beethoven, onde cada andamento tem uma ilustração musical, mais ou menos
realista, de rios, pássaros e trovões. Mais dramática é a "Sinfonia
Fantástica" (1830) de Berlioz. Ele construiu a música com um tema
recorrente e suas transformações, que simbolizam os diversos momentos de um
enredo de amor trágico. O compositor fez questão de divulgar antes a história
ao público para que este compreendesse a música.
O "poema sinfônico",
com a mesma intenção da sinfonia de programa, tem, em sua maioria, um
andamento. Aqui o tratamento formal é livre. Para dar unidade à obra faz-se uso
de um ou mais temas cíclicos. Foi Liszt que criou este termo e, além dele,
Richard Strauss (1864/1949) compôs importantes peças. Os compositores
nacionalistas se aproveitaram deste gênero para exaltar a sua pátria: Bedrich
Smetana (1824/1884), Alexander Borodin (1833/1887) e Nikolay Rimsky-Korsakov (1844/1908), entre outros. Às vezes o
compositor distribuia o roteiro ao público e outras vezes deixava
propositadamente vaga a idéia da qual fez a música.
Uma composição particularmente
interessante é "Quadros de uma Exposição" (1874) do russo Modest
Mussorgsky (1839/1881). Trata-se de um poema sinfônico para piano solo, com um
tema cíclico e descrições musicais de imagens e sentimentos.
Um gênero híbrido é a
"abertura de concerto" (ou só "abertura"), que não é
exatamente um prelúdio para outra obra. Ela também pretende descrever um
assunto extra-musical num andamento curto. Não há plano formal preestabelecido,
mas a base é sempre algum esquema clássico ligeiramente modificado. A
"abertura de concerto" foi mais usada pelos compositores que
defendiam a música absoluta, contradizendo suas próprias teses.
Existem muitas sinfonias, músicas
de câmara e sonatas com títulos muitas vezes pitorescos e que não tem intenção
descritiva, pertencendo a vários compositores das duas correntes. Há peças que
lembram um suposto estado de espírito ("Patética" de Tchaikovsky) ou
que se referem ao lugar onde foi composta ("Quarteto americano" de
Dvorak) ou que são uma homenagem para alguém ou alguma instituição
("Abertura Festival Acadêmico" de Brahms) etc. Alguns títulos foram
dados por eles mesmos por alguma razão simbólico-pessoal, mas, também, por
biógrafos, críticos e diletantes, muitas vezes, sem autorização do próprio
compositor.
Apesar de certa estética musical
defender a associação de sons com imagens e sentimentos, o debate ainda é
inconcluso. O crítico Eduard Hanslick (1825/1904) escreveu que a música é
incapaz de exprimir qualquer coisa além dela mesma e estas emanações poéticas,
pictóricas e emocionais são ilusões, então deve-se apenas apreender a estrutura
da música para que a sua fruição seja plena de prazer sonoro.
3.2 - Concerto solo
O concerto foi muito trabalhado
pelos compositores do século 19. Nas primeiras décadas, seguiram o modelo
clássico, mas logo as características deste novo período o transformaram
completamente. Além daquelas já abordadas, ocorreram as seguintes mudanças:
·
acabou-se a dupla exposição, com o solista entrando
junto com a orquestra;
·
a cadência era escrita integralmente, com ou sem
acompanhamento orquestral;
·
instrumentos-alvo: piano, violino e violoncelo;
·
aparecimento do solista virtuose e estrela.
Eis uma pequena lista de concertos:
Ludwig van Beethoven (1770/1827): 5 concertos para piano, 1
para violino e 1 triplo para violino, violoncelo e piano
Niccolò Paganini (1782/1840): 4 concertos para violino
Felix Mendelssohn (1809/1847): 2 concertos para piano e 1
para violino
Frédéric
Chopin (1810/1849): 2 concertos para piano
Robert Schumann (1810/1856): 1 concerto para piano e 1 para
violoncelo
Franz Liszt (1811/1886): 2 concertos para piano (ele teve a
idéia de colocar o piano de perfil, além de tocar de cor!)
Johannes Brahms (1833/1897): 2 concertos para piano, 1 para
violino e 1 duplo para violino e violoncelo
Piotr Tchaikovsky (1840/1893): 3 concertos para piano e 1
para violino
Antonín Dvorák (1841/1904): 1 concerto para violoncelo, 1
para violino e 1 para piano
3.3 - Miniaturas musicais
Ao lado das obras instrumentais
de longa duração, há uma quantidade imensa de músicas que são curtas,
geralmente com três a cinco minutos, mas que nos revelam uma densidade musical
muito profunda. São chamadas de "miniaturas". A forma geral destas
peças é: (INTRODUÇÃO) A B A (CODA).Normalmente há episódios modulantes e
trechos de virtuosidade e brilhantismo entre uma seção e outra.
Podemos agrupá-las em duas
categorias:
·
Miniatura com característica (onde a reconhecemos pelo
título, pelo ritmo ou pela sua funcionalidade, mesmo deslocada na sala de
concerto). Exemplos: marcha (militar, fúnebre, nupcial, etc...), dança (valsa,
mazurka, escocesa, etc...), noturno, rapsódia e estudo;
·
Miniatura sem característica, cuja denominação não nos
explica sua intenção ou estrutura. Eis alguns exemplos: momento, improviso, capricho,
prelúdio e fantasia.
·
Estas peças eram editadas em coleções chamadas álbuns ou
ciclos.
4 - Música vocal
4.1 - Ópera
A ópera foi para o século 19 o
que o Cinema foi para o século 20. As produções pululavam aqui e ali, havia
muita badalação entre compositores, cantores e produtores, ocorriam golpes
publicitários e lances promocionais, promoviam muito mistério durante os
ensaios, aconteciam estréias glamourosas, megasucessos e retumbantes fracassos.
Os temas recorrentes eram
retirados de lendas (européias ou exóticas), biografias (vida de reis, heróis
nacionais ou de artistas), história política (de tendência libertária),
ciência, religião, amor, assuntos cotidianos, humor, entre outros. As fontes
eram: folclore, história, peças teatrais, contos, romances, notícias de jornais
etc. E o tratamento dos libretos sobre estes assuntos mudava conforme o estilo
literário do momento.
Assim diversas tendências
apareceram:
·
Pré-romantismo (das últimas décadas do século 18 até
meados do século 19): Ludwig van Beethoven (1770/1827), Carl Maria von Weber
(1786/1826), entre outros.
·
Bel-canto (da primeira década do século 19 até a
segunda década do século 20): Gioacchino Rossini (1792/1868), Gaetano Donizetti
(1797/1848), Giuseppe Verdi (1813/1901), Vincenzo Bellini (1801/1835), Antônio
Carlos Gomes (1836/1896), Giacomo Puccini (1858/1924) etc.
·
Grand Opéra (terceira década do século 19 até início do
século 20): Giacomo Meyerbeer (1791/1864), Hector Berlioz (1803/1869), Charles
Gounod (1818/1893), Jules Massenet (1842/1912) etc.
·
Nacionalismo (desde o final do século 18 até as
primeiras décadas do século 20): Bedrich Smetana (1824/1884), Carlos Gomes,
Modest Mussorgsky (1839/1881) etc.
·
Verismo (segunda metade do século 19 até as primeiras
décadas do século 20): verismo é o "realismo" na ópera; Verdi,
Georges Bizet (1838/1875), Ruggero Leoncavallo (1857/1919), Puccini, entre
outros.
Muitos compositores se enquadram
em várias tendências e seria exaustivo ficar classificando-os.
O mais polêmico compositor de
óperas daquele século foi Richard Wagner (1813/1883). Ele reuniu quase todas as
tendências acima para criar o conceito de "drama musical", um
espetáculo no qual se fundiriam todas as artes (a música, o texto e o teatro
com todos os seus elementos). Para lograr êxito, ele desenvolveu as seguintes
características nas suas obras:
·
uso de lendas alemãs ou européias
·
ópera contínua (sem divisão em números)
·
harmonia ultracromática
·
melodia infinita
·
virtuosidade vocal e orquestral
·
uso do "motivo condutor" (leitmotiv), que é
um pequeno tema musical que simboliza uma situação, um local, uma personagem,
um sentimento ou um outro elemento que tenha alguma importância na trama; os
motivos condutores são transformados, somados, superpostos, relembrados
conforme a necessidade do enredo; assim o ouvinte participa ativamente da
história, junto com as personagens.
Um patrono construiu para Wagner
um teatro em Bayreuth (Alemanha). Neste lugar, que tem uma acústica perfeita,
ele colocou a orquestra abaixo do palco e, durante o espetáculo, as luzes da platéia
se apagavam. Assim criava-se um clima de magia, envolvendo o público.
As suas principais óperas são: O Holandês Voador (1843),
Tannhäuser (1845), Lohegrin (1850), Tristão e Isolda (1865), Os Mestres
Cantores (1868), a tetralogia O Anel dos Nibelungos (constituída de quatro óperas Ouro do Reno de 1869, As
Valquírias de 1870, Siegfried de 1876) e O Crepúsculo dos Deuses de 1876) e Parsifal (1882). Wagner se
auto-intitulava "a aurora da nova música". Muitos foram os seus
seguidores em vários lugares do mundo até as primeiras décadas do século 20.
Ao lado das óperas apareceram as
operetas com estrutura cênico-musical mais simples e com enredos melodramáticos
ou farsescos. Destacam-se neste gênero Jacques Offenbach (1819/1880) e Johann
Strauss Jr. (1825/1899).
Intimamente ligado a este espetáculo está a música para
balé. Os seus principais compositores foram Léo Delibes (1836/1891) e
Tchaikovsky, entre outros, que trabalharam em roteiros na mesma linha de
assunto das óperas.
4.2 - Música vocal de câmara e
música coral
Houve uma grande produção de música vocal para solista e
algum instrumento acompanhante (canções), exatamente igual à produção que hoje
em dia toca nas rádios e televisões.
O gênero mais famoso é o lied (da Alemanha). Existem
exemplos documentados desde a Idade Média, mas recebeu uma transformação
radical nas mãos de Franz Schubert (1727/1828), Schumann, Brahms, Hugo Wolf
(1860/1903), Richard Strausss e Gustav Mahler. Os textos se tornaram profundos
e o acompanhamento do piano (ou orquestral) é importante para a estruturação
musical.
Todos os compositores escreveram peças para coro,
independente de sua condição. Assim temos obras para amadores, para estudantes
e para profissionais. Para diversos usos: para o teatro, para as óperas e peças
instrumentais ou sinfônica. O estilo e a temática de todas as peças vocais
seguem o espírito da literatura do século 20: começando pelo romantismo,
passando pelo realismo, até chegar ao simbolismo no final do século.
4.3 - Gêneros religiosos
Muitos compositores, ainda ligados ou independentes do
clero, criaram peças religiosas ou de cunho quase-religioso.
Assim temos "Missas" de Beethoven e de Schubert,
"Réquiem" de Verdi, Berlioz e Brahms e peças diversas de Menelssohn,
Dvorák e Rossini, entre outros.
Algumas delas são próprias para a execução litúrgica, outras
fundem elementos de duas ou mais religiões (é o caso do luterano Brahms que se
utilizou da missa dos mortos católica para compor o "Réquiem Alemão")
e outras ainda transcendem o limite de alguma religião específica atingindo
regiões humanísticas e cósmicas transcendentais (é o caso da "Missa
Solemnis" de Beethoven).