CAPÍTULO IX
A MÚSICA DO SÉCULO
XX – parte 1
1 – Introdução
Vamos
dividir este capítulo em duas partes, por causa do grande volume de
informações: a primeira vai da INTRODUÇÃO ao MICROTONALISMO e a Segunda vai de
CHARLES IVES ao final com MÚSICA
POLITÉCNICA.
O século 20 foi uma das épocas mais fascinantes e, ao mesmo
tempo, uma das mais terríveis da História da Civilização.
Ao lado da integração da economia mundial ou globalização e
do notável avanço científico (a descoberta da estrutura do átomo, as viagens espaciais,
a cura de centenas de doenças, o mapeamento do genoma, sem esquecer o
desenvolvimento da cibernética),
presenciamos catástrofes humanas sem precedentes, como duas guerras
mundiais e milhares de conflitos regionais, inúmeras perseguições políticas,
religiosas, raciais e sociais, com milhões de pessoas deslocadas de suas
origens, feridas ou mortas, destruição da natureza e momentos cheio de angústia
e de medo com a perspectiva de um auto-extermínio em decorrência de uma
hecatombe com armas nucleares.
A globalização é o estágio da economia capitalista que prevê
vultosos investimentos multinacionais; grandes fusões de mega empresas;
privatização das empresas estatais; reengenharia administrativa; meios de
comunicações e de transportes ancorados na tecnologia; fim do nacionalismo, do
provincialismo, da política populista e paternalista; etc...
No final do século 19 e nas primeiras décadas do século 20
as tendências estilísticas de todas as Artes começaram a se fragmentar e a
Música, não incólume, incorporou, na medida do possível, todas as idéias e
experiências. Herdou também as inquietações das novas teses científicas de
Darwin, Freud e Einstein e das idéias filosóficas de Nietzsche, Heidegger,
Bergson e Marx. E sentiu as tensões políticas do tempo anterior à I Guerra
Mundial, iniciada em 1914.
Podemos chamar a Arte da primeira metade do século 20 como
"Moderna" e a da segunda metade de "Pós Moderna".
Estes conceitos são de origem filosófica:
"Moderno" traz a idéia de atualidade e renovação e nos remete ao
domínio europeu capitalista comercial e industrial, com todas as suas
conseqüências, que surgiu por volta do século 14. Já o "Pós-moderno"
representa a sociedade capitalista globalizada e informatizada e o
individualismo extremo é eleito como modelo de comportamento.
Aplicados à Arte, definimos assim: a "Arte
Moderna" se caracteriza pelas propostas de inovação radical e projeção de
utopias artísticas e sociais; a "Arte Pós Moderna" reflete uma fusão
dos elementos experimentais com o passado, o folclore, o étnico, a cultura
massificada concatenada numa síntese indistinta e, na maioria das vezes,
acrítica.
Tudo isto, entretanto, é amplamente debatido entre os
filósofos, historiadores e estudiosos em geral.
A música do século 20 recebe as denominações de MODERNA
("hoje" em latim) ou CONTEMPORÂNEA ("ao mesmo tempo" em
latim). Outras vezes a chamam de VANGUARDA (do francês "avant-garde",
que significa "soldado avançado"). Ainda há o termo EXPERIMENTAL.
Todas estas denominações são provisórias porque, talvez pela primeira vez, a
música não retira conceitos das outras Artes e, também, porque algumas músicas
já não são tão modernas ou contemporâneas, outras já deixaram de ser vanguarda
há muito tempo e toda arte criativa, em qualquer época, tem a experimentação
como fundamento para a sua realização. Assim a preocupação em batizar este
período deve ser deixada aos futuros historiadores levando-se em conta somente
a estrutura e a estética musicais.
A música do século 20 não tem um estilo único, mas inúmeras
tendências e múltiplas correntes sucessivas e coexistentes. O que existe em
comum entre todas é a vontade de pesquisar, desbravar e inventar novos sons,
tentando redescobrir o que é o som, o que é a música, como é feita, como foi
feita, entre outras indagações. Os compositores não são considerados
"donos da verdade" e todos podem seguir uma linha de pesquisa e
experimentação, partindo de qualquer pressuposto, estético ou técnico; ninguém
precisa se preocupar se tal corrente terá seguidores ou será eterna e
dominante.
Neste clima investigativo, três composições, estreadas uma
em seguida da outra, nos primeiros anos da década de 10, acabaram por abrir o
caminho. Foram elas:
HARMONIA -----> "PIERROT LUNAIRE" de Arnold
Schoenberg em 16/10/1912 (Berlim)
FORMA ----------> "JEUX" de Claude Debussy em
15/05/1913 (Paris)
RITMO -----------> "SAGRAÇÃO DA PRIMAVERA" de
Igor Stravinsky em 29/05/1913 (Paris)
Assim, depois disso, a música nunca mais seria a mesma.
2 - Características
gerais
A harmonia do século 20 começa no extremo
"cromatismo", vai para o "atonalismo", explora o
"modalismo" (de qualquer época ou cultura), passa pelo
"microtonalismo" e volta várias vezes ao "tonalismo",
sempre com muita experimentação.
O tratamento da melodia é variadíssimo por causa das
pesquisas da harmonia e, principalmente, pelas descobertas de outros modelos
culturais e estéticos. Para muitos compositores qualquer seqüência de sons
produzido por qualquer objeto é uma melodia. Muitas composições até mesmo NÃO
tem melodia conforme o padrão erudito, o que foi chamado de
"atematismo".
Há pesquisas para a criação de novas formas (baseadas ou não
nas estruturas musicais), como também são exploradas as formas musicais de
outras culturas. Há ainda uma busca das formas do passado "barroco" ou
"clássico", mas sem muita rigidez dogmática.
O tratamento rítmico torna-se complexo pelo envolvimento da
músicas étnicas, folclóricas e populares. O próprio desenvolvimento da música
erudita propicia o surgimento de novos conceitos como "polirritmia",
polimetria", "métrica variável", "série rítmica"
etc... Muitos compositores abolem a
noção de compasso. A velocidade também
é estudada. Entre outros procedimentos, acontece a
"multitemporalidade": superposição de diversos andamentos
simultâneos.
O uso de instrumentos é variado. Muitos instrumentos são
incorporados à música erudita. Acordeon, saxofone, gaita, kalimba, sakuhashi,
cravo, viola da gamba, sitar, queña etc. são valorizados por todos os
compositores. Os instrumentos de percussão são libertados de seu papel
secundário. Há modificações dos instrumentos históricos e inventam-se novos
instrumentos. Usa-se a voz em todas as suas dimensões. O corpo humano também é
usado. Incorporam-se os sons de aparelhos cotidianos (máquina de escrever,
liquidificador etc...), das máquinas e dos motores em geral, os sons naturais
(vento, mar, fogo etc...), os sons produzidos por aparelhos eletrônicos
diversos e até os sons cotidianos (cidade, estádio de futebol, loja etc...).
A instrumentação e a orquestração sofrem transformações
bruscas, ousadas e radicais. Muitas vezes a maneira como se toca um instrumento
é diferente da que conhecemos. Também
se fazem execuções multiespaciais e apresentações de música acústica e/ou eletrônica,
ao vivo com elementos pré-gravados e até teletransmitidos, além da multimídia.
Herda-se toda a grafia histórica, mas são propostas
modificações para torná-la mais exata e mais simples. Para o novo tipo de
música desenvolveram o grafismo, que são traços, pontos, rabiscos, linhas,
quadrados, esferas, desenhos, ilustrações, borrões, textos, cores etc..., junto
ou não com a escrita tradicional. O compositor pode fornecer - ou não ! - ao
executante uma espécie de bula para orientá-lo na realização da peça.
Os compositores, em sua maior parte, são free-lancers,
vivendo de encomendas e direitos autorais, ligam-se a editoras, sociedades
musicais (orquestras ou casas de espetáculos) ou dão aulas em conservatórios,
escolas e universidades. Também trabalham na rádio, televisão, no cinema e na
publicidade. Em regimes totalitários (por exemplo, no nazismo - 1933/1945 - ou
no regime soviético - 1917/1991) eram empregados do Estado.
Por influência da música popular (danças e canções urbanas),
há uma supervalorização, de cunho mercadológico, de intérpretes (regentes,
instrumentistas e cantores), em detrimento de compositores. A formação de um compositor é universitária,
não significando, porém, uma certeza de qualidade da obra, nem de sua
profundidade musical ou mesmo de criatividade.
Diferentemente de outras épocas, a maioria absoluta desta
música está distante da cultura média de um cidadão comum. Esse só toma algum
contato com estas sonoridades depois que elas foram diluídas em trilhas sonoras
de filmes ou na música popular (por exemplo: nos arranjos eletrônicos do rock
).
Uma palavra ainda sobre a denominada "música
popular" que, mesmo não estudada diretamente aqui, pertence ao universo
artístico do século 20, principalmente nos continentes ocidentais (Europa e
América). A música popular é fruto de
uma fértil, habilidosa e criativa fusão de elementos de diversificadas
procedências:
- formas de canções
e de danças regionais ou étnicas;
- técnicas eruditas
de composição do passado ou do presente;
- tecnologia de
estúdio da música erudita eletroacústica;
- expressões de
pensamento sociais ou existenciais;
-
suporte mercadológico da indústria cultural fonográfica e da
mídia.
-
Algumas vezes a "música popular", apesar do seu
conservadorismo musical, serve como um motor de transformação e troca de
influência com a "música erudita" - o que mostrarei mais adiante.
3 - Principais
tendências e compositores
3.1 - CLAUDE DEBUSSY
(1862/1918)
Foi wagneriano na juventude, mas depois seguiu um estilo
próprio e muito individual. À
afirmativa de Wagner, deu uma resposta certeira: "Wagner foi um crepúsculo
confundido com uma aurora". Pesquisou a música medieval, barroca,
oriental, folclórica russa e um pouco do jazz e usou tudo isto de modo muito
pessoal. Adornava ou fragmentava a melodia em pequenas unidades. Ou ainda
justapunha em seqüências como um mosaico. Os títulos das suas músicas apenas
seguiam o modelo da poesia simbolista da época, mas ele não gostava de ser
confundido com um romântico ou realista. E não aceitava o rótulo de
impressionista.
Algumas obras:
"Nocturnes" (1899) para orquestra sinfônica;
"Pelléas et Mélisande" (1902), ópera;
"La Mer" (1905), para orquestra sinfônica;
"Préludes" (1909/1913), para piano;
"Sonata para violoncelo e piano" (1915) ;
"Sonata para flauta, viola e harpa" (1915) ;
"Sonata para violino e piano" (1917).
Era crítico de jornal e seus escritos dão-nos uma orientação
muito interessante do seu ambiente musical.
3.2 - ERIK SATIE (1866/1925)
Era
pianista de cabaré. Aos 40 anos começou a estudar a sério e até entrou
para o conservatório. Suas obras contém uma grande dose de humor e ironia
frente às pretensões românticas do período. Ressuscitou os modos medievais,
trabalhou com música popular, de circo, danças antigas e de salão da sua época.
Suas obras são sempre melodia-acompanhamento, a mais esquelética possível.
Muitas delas são de curtíssima duração e têm títulos "non-sense"
("sem lógica" em inglês) ou são referências a algum conceito
filosófico rosacruziano. Nas suas partituras usou uma grafia inovadora com
desenhos e textos. Seus textos sobre música são uma sátira ao pedantismo
musical.
Influenciou Debussy, os neo-clássicos e John Cage.
3.3 - ALEXANDER
SKRIABIN (1872/1915)
Foi um pianista-concertista brilhante. Na composição recebeu
influências de Chopin, Lizst e Wagner, além de crenças teosóficas e filosóficas
(principalmente Nietzsche). Desenvolveu uma música muito personalizada. Em cada
obra há um acorde não-tonal que serve de eixo para a construção de melodias e
da harmonia. Suas melodias, quando saem da esfera de influência romântica, são
curtas e incisivas. No poema sinfônico
"Prometeu" (1910) pede um órgão de cores. Num projeto - inacabado por
sua morte - incluiria acordes com 12 sons. A sua obra é basicamente para piano
com Estudos, Prelúdios etc...
3.4 - IGOR STRAVINSKY
(1882/1971)
Filho de músicos, teve uma educação humanística e artística
profunda. Sua música, multifacetada, pode ser dividida nos três períodos a
seguir.
Período russo (de
1905 a 1917): influenciado por Rimsky-Korsakov, Mussorgsky, Dukas, Debussy,
pelo folclore russo e pela música popular em geral. Suas características são:
- complexidade
rítmica;
- harmonia tonal
livre;
- formas baseadas na
variação, repetição, fragmentação, mosaico, colagem, citação;
- instrumentação e
orquestração coloridas e uso da percussão.
Obras deste período: "Petruska" (1911),
"Sagração da Primavera" (1913) e "As Bodas" (1914), entre
outras.
Período neo-clássico
(de 1918 a 1951):
- decalque de temas
de compositores do passado (Pergolesi, Mozart, Tchaicovsky);
- formas e
orquestrações baseadas nos séculos passados;
- ritmos da música
popular (jazz, tango, valsa, etc.);
- sonoridade com
dissonâncias;
- melodias quebradas
por sons dispersos;
-
inusitadas combinações timbrísticas.
-
Obras deste período: "A história de um soldado"
(1918), "Sinfonia para Instrumentos de Sopro" (1920),
"Pulcinella" (1920 ), "Apollon Musagètte" (1928), "Jeu
des Cartes" (1936), "Ebony Concerto" (1945 ), "A carreira
de um libertino" (1951), entre outras.
Período experimental
(de 1952 a 1965): pesquisas com várias técnicas (atonalismo, dodecafonismo,
serialismo) cruzando-as com elementos medievais e renascentistas e detalhes
musicais vindos do seu próprio passado.
Obras deste período: "Cantata" (1952),
"Canticum sacrum ad honorum sancti marci nominis" (1956),
"Movimentos para piano e orquestra" (1959), "Elegia para
JFK" (1964), "Requiem Canticles" (1965), entre outras.
Escreveu uma quantidade grande de artigos, aulas, palestras
e entrevistas, onde desenha um panorama da arte do século 20. Foi injustamente
acusado por outros músicos e críticos de falsificador, plagiador, conservador e
reacionário. Nenhuma destas acusações tem a mínima fundamentação e nada vai
afetar a grandeza da sua obra.
3.5 - NEOCLASSICISMO
O neoclassicismo nasceu como uma reação à música do século
19 (romantismo) e a algumas correntes da sua época (contra Debussy e
Schoenberg, por exemplo), sendo a tendência dominante entre as décadas de vinte
a quarenta do século 20. Muitos compositores tinham dificuldade em aceitar as
inovações atonais. Deste modo criticaram as obras de grande proporções e de
grandes conjuntos, a música programática, o ultracromatismo, o atonalismo e
seus derivados e o experimento personalista de novas escalas. Foi chamada,
conforme o país ou grupo de compositores com o mesmo ideal, estudo ou jargão
crítico, de "neotonalismo", "neobarroco", "nova
objetividade" e outros epítetos. E adotaram os lemas: "Torniamo
all'antico !" ("voltemos aos antigo" em italiano) ou "Retour
à Bach !" ("retorno a Bach" em francês). Coincidentemente nesta
época as obras dos períodos Renascentista e Barroco estavam sendo descobertas,
e executadas e gravadas.
Fatores extra-musicais ajudaram a fomentar esta tendência:
- crises sócio-econômicas
(I Guerra Mundial, Revolução Soviética, Grande Depressão de 1929, golpes
fascistas), que afetaram as grandes sociedades musicais como companhias de
óperas e orquestras;
- aparecimento,
através do disco, rádio, cinema e, depois, televisão, de uma música urbana que
funde elementos folclóricos com técnicas eruditas européias, mais tarde
batizada de "música popular";
- devido às ondas
nacionalistas, músicas folclóricas e étnicas são catalogadas;
- ideologias
totalitárias (nazismo, stalinismo, etc...) que dirigem a cultura em geral e a
música, em particular, pregando uma "pureza" clássico-romântica, anti
experimental.
As características musicais do neo-classicismo são:
- valorização da
melodia;
- tessituras
homofônicas e polifônicas contrapontísticas;
- reutilização de
gêneros, formas e danças dos séculos passados;
- reutilização de
instrumentos antigos: cravo, viola da gamba, flauta doce, etc...;
- peças curtas;
- música de câmara
ou pequenas orquestras.
Além disso eles incorporaram técnicas e procedimentos
próprios do século 20:
- dissonâncias;
- politonalidade e
polimodalidade;
- complexidade
rítmicas;
- utilização de
gêneros, formas e danças da música popular e folclórica;
- assuntos das
canções, óperas e balés: cotidiano, esporte etc.; quando pegavam assuntos
antigos o faziam para deboche, paródia ou sátira, mas outros o faziam conforme
o regime político para o qual trabalhavam;
- influência das
correntes artísticas modernistas: Dadaísmo, Surrealismo, Cubismo e outras.
E o repertório volta a ter o concerto grosso, a sonata, a
sinfonia, entre tantos outros gêneros.
Podemos destacar alguns compositores desta tendência:
- Leo Janácek (18541/928)
- Manuel de Falla (1876/1946)
- Zoltán Kodály (1882/1967)
- Heitor Villa-Lobos (1887/1959)
- Bohuslav Martinu (1890/1959)
- Arthur Honegger (1892/1955)
- Darius Milhaud (1892/1974)
- Carl Orff (1895/1982)
- Francis Poulenc (1899/1963)
-
Carlos Chávez (1899/1978)
- Aaron
Copland (1900/1990)
- Ernst
Krenek (1900/1989)
- Camargo
Guarnieri (1907/1997)
- Benjamin
Britten (1913/1976)
- Alberto Ginastera (1916/1983)
Existem compositores que, pelas suas características gerais,
se aproximam do neo-classicismo:
Independentes:
- Maurice Ravel (1875/1937)
- Béla
Bartók (1881/1945),
- Paul
Hindemith (1895/1963)
- Sergei
Prokofiev (1896/1953)
Compositores que trabalharam no regime soviético:
- Aram
Katchaturian (1903/1978)
- Dmitri
Kabalevski (1904/1987)
- Dmitri Chostakovitch (1906/1975)
Compositores que trabalharam engajados politicamente:
- Hans
Eisler (1898/1962)
- Kurt
Weill (1900/1950)
Compositores que trabalharam entre a música erudita e a
popular:
- George
Gershwin (1898/1937)
- Leonard
Bernstein (1918/1989)
É bom lembrar que a obra de cada um deles é muito variada e
apresenta vários estilos diferentes entre si. Apesar de serem grandes
compositores e as suas obras belíssimas, esta volta ao passado foi tempo
perdido, pois somente há uma saída para a arte: o futuro !
3.6 – ATONALISMO E
DODECAFONISMO - ESCOLA DE VIENA
A Escola de Viena é o grupo que reuniu Schoenberg, Berg e
Webern e outros, desenvolvendo a pesquisa na direção ao atonalismo.
Arnold Schoenberg (1874/1951) começou sua carreira, seguindo
as linhas gerais do ultra-romantismo ao mesmo tempo que vivia em contato com o
"expressionismo". O expressionismo surgiu na Pintura, Literatura e,
depois ainda, do Cinema, surgiu no final do século 19 e tinha as
características básicas: cores vigorosas, contrastes de sombras e luzes,
deformações fantásticas da realidade devido a uma introspecção profunda no
subconsciente; seus principais artistas foram: Münch (pintura), Wedekind
(teatro), Lang (cinema).
A música expressionista desenvolvida por Schoenberg se
caracterizou pelo:
- ultracromatismo;
- formas livres,
normalmente tema e variações ou a técnica wagneriana do leitmotiv;
- saltos melódicos
grandes;
- ritmos flutuantes
e dissolvidos na trama melódico-harmôrnica;
- violência na
dinâmica;
- sprechstimme
("fala sonora" em alemão) ou sprechgesang ("canto falado"
em alemão);
- klangfarbenmelodie
("melodia de timbres e cores" em alemão);
- acompanhamento de
um programa (poema, pintura etc...);
- aparato orquestral
gigantesco;
-
peças longas.
-
Depois, na primeira década, começou uma fase atonal,
abandonando completamente as relações tonais tradicionais. Sua primeira música
atonal foi um movimento do "Quarteto de Cordas com Soprano no. 2"
(1908). Em 1912, ele estréia "Pierrot Lunaire", op. 21, para voz e
conjunto de câmara, totalmente atonal.
O atonalismo tem as seguintes características:
- intervalos mais
usados: segunda maior, segunda menor, nona menor, quarta aumentada, quinta
diminuta e sétima maior;
- princípio da
não-repetição, dando origem à polimelodia e ao atematismo;
- uso de texturas
inovadora (pontilhismo), ou antigas (polifonia, monofonia e heterofonia);
- ritmos flutuantes
e dissolvidos na trama melódico-harmôrnica;
- violência na
dinâmica;
- sprechstimme ou
sprechgesang ;
- angfarbenmelodie;
- acompanhamento de
um programa (poema, pintura etc...);
- conjuntos de
câmara (depois voltaram a aumentar o efetivo instrumental);
- peças de curta
duração (depois fizeram obras muito longas).
A partir de 1921, Schoenberg desenvolveu um método de
composição batizado de dodecafonismo ("doze sons" em grego). O método
consiste em organizar os doze sons da escala ocidental em uma sucessão, sem
qualquer relação tonal entre eles, chamada "série". A sucessão dos
sons dentro da série é livre, mas alguns compositores faziam séries simétricas
(com um imenso rigor na relação intervalar entre eles, baseado em algum
preceito sonoro, matemático, místico etc...) ou séries assimétricas (liberdade
interna de intervalos). Pede-se para evitar toda e qualquer sucessão de
intervalos que lembrem a música tonal - mas nem sempre esta lei foi respeitada.
Todos os doze sons devem ser usados e nenhum pode ser repetido, entre os
outros, enquanto cada um deles não for apresentado.
As técnicas composicionais do dodecafonismo são:
- as notas da série podem ser transformadas em melodias ou
acordes, respeitando sempre a sua posição dentro da seqüência;
-
ela pode ser trabalhada em quatro maneiras diferentes: série
original (SO) - série retrógrada (SR): a série original tocada de trás para
frente - série invertida (SI): inverto os intervalos da série original - série
retroinvertida (SA): a série invertida tocada de trás para frente;
-
toda a série pode ser transposta para outras alturas, mas
mantendo a sua estrutura intervalar original; transportando-a onze vezes,
fica-se com doze; multiplicando as doze pelas quatro maneiras, obtém-se um
total final de quarenta e oito séries; enfim um material imenso para se
trabalhar.
Depois deste trabalho, que muitos estudiosos chamam de
pré-composição (planejamento geral e básico da peça), começa o trabalho de
composição na música propriamente dita. Aí lançavam mão de vários recursos
técnicos, cujas características são as mesmas citadas acima, incluindo-se aí
formas tradicionais e até danças populares melódico-harmôrnica.
Os outros compositores mais importantes da Segunda Escola de
Viena foram:
Anton Webern
(1883/1945) - compôs mais ou menos cem músicas, que cabem em dois discos,
porque são miniaturas - uma delas tem somente dezenove segundos e é para
orquestra sinfônica! Fez peças ultra-românticas, expressionistas, atonais e
dodecafônicas. Em muitas de suas obras, a série é apresentada uma única vez, em
motivos melódicos pequenos ou de uma nota só, numa dinâmica em pianíssimo,
mergulhados no meio de pausas. Stravinsky o apelidou de "lapidador de
diamantes".
Alban Berg
(1885/1935) - fez somente doze
músicas, incluindo duas óperas. Sua obra funde um denso lirismo tonal com
tendências ultra-românticas, expressionistas, atonais e dodecafônicas.
Eles escreveram muitos artigos e livros, além de dar aulas e
fazer palestras. Todos os membros deste grupo sofreram perseguições políticas e
estéticas implacáveis. Nas execuções de suas músicas, a platéia conservadora,
açulada por críticos reacionários e músicos academicamente ultrapassados e
acomodados, xingava, fazia barulho e algazarra ou jogava coisas no palco. Os
nazistas, fascistas e os soviéticos não deixaram ninguém compor nesta técnica e
faziam audições com o título de "arte degenerada", "arte
formalista" ou "arte reacionária" ou "arte inferior".
Schoenberg se exilou na França e depois nos EUA, mas Webern ficou isolado na
Áustria. Entretanto amigos e alunos, de todos os lugares do mundo, adotaram,
divulgaram e ampliaram as técnicas destas tendências. Podemos citar:
- Joseph Matthias Hauer (1883/1959) - considerado também um
dos pais do dodecafonismo
- Roberto
Gerhard (1896/1970)
- Roger
Sessions (1896/1985)
- Juan
Carlos Paz (1901/1972)
- Luigi
Dallapicola (1904/1975)
-
Mátyás Seiber (1905/1960)
- René Leibowitz (1913/1972)
A crítica inteligente de hoje faz restrições a estes
compositores, porque eles criaram um método mais rigoroso que o tonalismo.
Mesmo assim é valorizado o trabalho atonal de Schoenberg, o lirismo de Berg, as
mini-estruturas de Webern e a multivariedade técnica desenvolvida por todos. Os
três austríacos são de uma extrema importância para a compreensão não só da
música de nosso tempo, mas dos acontecimentos do século 20 em geral.
3.7 - SERIALISMO
INTEGRAL
O serialismo integral é o limite extremo do dodecafonismo e
apareceu no final da década de 40 em vários lugares simultâneos (França,
Alemanha e Estados Unidos). Esta tendência foi uma conseqüência da obra de
Schoenberg (série de alturas), de Webern (que unia a série de alturas com a de
timbres) e de Messiaen (que uniu a série de alturas com a de dinâmicas e
durações na sua peça "Modos de valores e de intensidades" - 1949).
Criticando a superficialidade da revolução provocada por
Schoenberg, que só se preocupou com as alturas, esta corrente propõe que todos
os parâmetros do som (as durações, as dinâmicas, os timbres e as velocidades,
além das alturas é lógico) sejam organizados em séries e combinados entre si. A
resultante sonora destas obras são como pontos sonoros isolados no tempo e no espaço.
Os principais compositores são:
Milton Babbitt (1916) - além do serialismo, também
desenvolve obras derivadas do jazz, da eletrônica e da música aleatória.
Pierre Boulez (1922) - é um dos principais compositores do
século 20. No seu início tinha sonoridades pesadas e violentas à maneira do
expressionismo. Desenvolveu todo o aspecto teórico do serialismo integral.
Também tem peças eletrônicas e aleatórias. Já fez, depois de tudo, até música
tonal. Atuou como regente em várias orquestras importantes do mundo. É um dos
coordenadores do Institut de Recherche et de Coordination Acoustique/Musique -
IRCAM (Instituto de Pesquisa e Coordenação Acústica/Música) com sede em Paris.
Suas declarações, sempre bombásticas, a respeito de música e de política lhe trazem
uma notoriedade ainda maior.
Karlheinz Stockhausen (1928) além da música estudou
matemática e várias ciências. Escreveu sobre vários aspectos teóricos do
serialismo integral. Também partiu para a música eletrônica, indeterminada e
até tonal. É influenciado por vários pensamentos místicos ocidentais e
orientais.
Outros compositores:
Bruno Maderna (1920/1973),
Iannis
Xenakis (1922/2001),
Luigi Nono
(1924/1990),
Jean Barraqué (1928/1973)
É uma tendência ainda atuante, porém recebeu e recebe críticas
pelo seu extremo cerebralismo. Inclusive já foi declarada esgotada pelos seus
próprios mentores, porque, segundo eles, os sons e os instrumentos que ouvimos
estão saturados de história tonal, além disto, as falhas dos executantes
distorcem o sentido serial, e, ainda segundo eles, não adianta ter idéias novas
e trabalhar com material velho.
Com a crise aberta, muitos compositores optaram pela música
microtonal, eletroacústica, aleatória e outras tendências atuais. A idéia que
norteou estas tendências foi o interesse dos compositores em preencher todo o
espectro sonoro de um semitom a outro, o chamado continuum espaço-temporal.
3.8 - FUTURISMO
Ocorreram diversas tentativas, na História da Música, de
usar objetos do cotidiano e sons da natureza para estruturar as peças. Os
renascentistas, por exemplo, faziam efeitos vocais imitando os sons de animais
ou gritos dos vendedores de rua; Vivaldi colocou nas famosas "As Quatro
Estações" (c.1725) sons de mosquitos e cachorros; os clássicos, mesmo com
sua preocupação estruturalista, utilizavam-se de vez em quando de pitorescas
referências extra-musicais; Beethoven imita, na não menos famosa,
"Sinfonia Pastoral" (1808), vários pássaros e uma tempestade e na
"Vitória de Wellington" (1813) pede máquinas para imitar os tiros de
fuzis; Tchaikovski usa canhões, sinos e fogos de artifício na "Abertura
1812" (1880); Richard Strauss coloca uma máquina de vento no poema
sinfônico "Dom Quixote" (1897); Alexander Mossolov (1900/1973) junta
máquinas de siderúrgicas à orquestra para exaltar a Revolução Soviética; George
Antheil compõe o "Balé Mecânico" (1926) para percussão, buzinas,
campainhas, serras, bigornas e hélice de aviões.
Entretanto, em 1914, na cidade de Milão, o compositor
"futurista" Luigi Russolo (1875/1947) saudava a velocidade e o
ambiente urbano-industrial, dando um concerto com os intonarumori
("produtores de ruídos" em italiano), aparelhos que produziam roncos,
assobios, silvos e outros sons. No programa constavam as seguintes músicas:
"Amanhecer na metrópole"
"Encontro entre carros e aviões"
"Um jantar no terraço do cassino"
"Tumulto no oásis"
No final do concerto aconteceu uma briga entre os artistas e
a platéia. E, junto com seus colegas de estética, entre eles outro compositor
futurista Francesco Balilla Pratella (1880/1955), continuou a fazer concertos
pela Europa.
Infelizmente não existem mais as partituras, gravações e nem
os instrumentos, pois os fascistas italianos destruíram tudo. Esta corrente é
considerada como uma das antecessoras da música concreta.
3.9 – MICROTONALISMO
Muitos compositores diferentes entre si, por diversas
razões, optaram por abandonar os doze sons da escala ocidental e explorar o
universo microtonal, isto é, os milhares de sons existentes entre os nossos
semitons. Eles escreveram muitos livros teóricos, adaptaram os instrumentos
tradicionais, pegaram instrumentos étnicos e inventaram outros somente com este
objetivo. Citemos os seguintes compositores, como exemplo:
Julián
Carrillo (1875/1965)
Ivan
Wyschnegradsky (1893/1979)
Alois Hába
(1893/1973).
Harry
Partch (1901/1974)
Walter Smetak (1913/1984) - residiu no Brasil partir de 1937
Criou-se também uma grafia para indicar os microtons. As
dificuldades de aceitação desta corrente foram causadas:
- pela limitação
de adaptação do instrumental europeu;
- pelo
desinteresse dos executantes para aprender a tocar instrumentos orientais ou
para conhecer os novos;
-
pelo ouvido do público de concerto.
O microtonalismo ou seus elementos sobrevivem em muitas tendências
atuais.