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movimento.com - Curiosidade: O maestro da 2a. de Mahler Curiosidade

O maestro da 2a. de Mahler

Contribuição de Emídio Rossmann

O milionário americano Gilbert Kaplan, de 61 anos, que ganhou fama com sua obsessão por uma sinfonia de Mahler, possui noções limitadas de teoria musical. Mesmo assim, nos últimos vinte anos, regeu mais de 100 concertos mundo afora, à frente de orquestras como
as sinfônicas de Londres e de Pittsburgh e a Orquestra da Rádio da Baviera.

Como isso é possível? Graças a uma obsessão: o repertório de Kaplan resume-se a uma única obra, a Segunda Sinfonia do austríaco Gustav Mahler (1860-1911). A essa composição longa e complexa sobre o tema da morte e da ressurreição, que requer uma enorme orquestra para ser executada, além de um coro e de um
conjunto adicional de metais, Kaplan já dedicou infindáveis horas de estudo.

Graças a esse trabalho, ele acredita ter realizado a
gravação perfeita da Segunda Sinfonia - a única que respeita, ponto por ponto, as intenções do autor. O registro aconteceu em dezembro, quando Kaplan viajou à Áustria para reger a Filarmônica de Viena. O trunfo do mahlermaníaco é uma partitura especial, que incorpora
correções manuscritas feitas pelo compositor depois da primeira execução da obra, no fim de 1895.

Essas mudanças, de acordo com Kaplan, jamais foram levadas em conta pelos regentes da Segunda - uma lista que inclui os celebrados Leonard Bernstein, Claudio Abbado e sir Simon Rattle. "Aos ouvidos de Mahler, a obra devia soar exatamente como nos concertos que eu realizei em Viena", diz Kaplan.

O primeiro contato de Gilbert Kaplan com a Segunda Sinfonia deu-se em 1965. Ele era jornalista econômico, incapaz de distinguir um ré de um dó. A convite de um amigo, foi assistir a um ensaio da Orquestra Sinfônica Americana. "Ainda tento encontrar palavras para
definir o que senti quando a música começou. Na hora decidi que aquela obra direcionaria a minha vida."


E assim foi, muito embora Kaplan também tenha gasto alguma energia amealhando uma fortuna. Ainda nos anos 60, ele ganhou seu primeiro milhão de dólares na
Bolsa. Pouco depois, criou a Institutional Investor, que se tornou uma espécie de bíblia do mercado financeiro. Quando a revista foi vendida, em 1984, ele embolsou 100 milhões de dólares.

Antes de se desfazer de sua revista, Kaplan já havia encasquetado a idéia de reger a Segunda. Preparou-se tomando aulas de regência durante um ano e meio. Depois, gastou 200.000 dólares no aluguel do Avery Fisher Hall (casa da Filarmônica de Nova York) e no
cachê da Orquestra Sinfônica Americana. Distribuiu convites para os funcionários da Institutional Investor e, em setembro de 1982, subiu ao pódio. Para surpresa de todo mundo, a apresentação foi um sucesso
mesmo entre quem não recebia salário de Kaplan. Os críticos presentes gostaram do concerto e incentivaram o milionário a continuar regendo. Ele, então, decidiu entregar-se definitivamente à sua paixão musical.

Hoje em dia, Kaplan dá aulas - sobre Mahler, é claro - na prestigiadíssima Juilliard School, de Nova York. E atravessa o mundo sempre que se apresenta uma oportunidade de reger. "Pela Segunda, nem cobro cachê. Basta bancarem os custos que vou." Sua saga mahleriana registra inclusive duas passagens pelo Brasil, em 1985 e 1987. E ele se anima: "Ouvi dizer que há uma sala de concertos nova em São Paulo. Não querem incluir a Segunda na programação?".

Kaplan possui uma coleção de objetos de Mahler. Adquiriu sua baqueta, o único anel com que o músico austríaco presenteou sua mulher, Alma, e os famosos manuscritos anotados da Segunda Sinfonia, a partir dos
quais ele e a musicóloga austríaca Renate Stark-Voit estabeleceram a partitura "legítima" da obra.

Como regente, Kaplan está longe de contar com o talento e a imaginação de um Bernstein ou de um Abbado. Mas foi a sua gravação da Segunda Sinfonia, realizada em 1988 com a Orquestra Sinfônica de
Londres, que vendeu 175000 cópias - o maior sucesso na discografia de Mahler.

Nem assim o milionário escapa das alfinetadas. "Se Dom Quixote tivesse virado o rei da Espanha, não teria sido um êxito maior - e mais improvável", ironizou o crítico inglês Noman Lebrecht.

O registro de seu concerto com a Filarmônica de Viena
deverá chegar às lojas no início de outubro, pelo tradicional selo Deutsche Grammophon, e certamente causará uma discussão danada no meio da música erudita. "Há passagens muito mais precisas nessa
versão do que nas anteriores"
, diz Renate Stark-Voit. Gilbert Kaplan faz barulho com a sua obsessão pela Segunda Sinfonia.


Autor Antônio Rodrigues
em 3/8/2003


Opinião dos internautas___________

Interessante seu artigo sobre o Gilbert Kaplan que tive a oportunidade de conhecer h...
Arisitdes A.J. Makowich em 3/8/2003
Arapongas - PR


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